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ISBD: SEU NASCIMENTO, RENASCIMENTO E REJUVENESCIMENTO PARA A CATALOGAÇÃO DESCRITIVA

Em 1969, o Comitê de Catalogação da IFLA (IFLA's Committee on Cataloguing) patrocinou uma reunião internacional de especialistas em catalogação, o International Meeting of Cataloguing Experts, que produziu uma resolução requerendo o estabelecimento de padronização para a forma e o conteúdo das descrições bibliográficas.

Posteriormente, a Seção de Catalogação da IFLA (Section on Cataloguing) iniciou os trabalhos que proporcionaram os meios para aumentar o compartilhamento e intercâmbio dos dados bibliográficos. Esta ação resultou no conceito da Descrição Bibliográfica Internacional Normalizada (ISBD), que mostrou ser um esforço exitoso da IFLA na promoção da padronização catalográfica. A Norma foi incorporada às Regras de Catalogação Anglo-Americanas, 2ª edição (AACR2). De fato, na história da catalogação, nenhum outro padrão obteve um grau significativo de aceitação, quanto a ISBD. Em 2021, ela completou 50 anos.

O primeiro texto da Normativa, International Standard Bibliographic Description for Monographic Publications ISBD (M), foi publicado em 1971 como um conjunto de recomendações. Ao longo deste tempo, ela seguiu uma evolução contínua para abranger os desenvolvimentos biográficos e tecnológicos, e as mudanças nos requisitos catalográficos; desde as diversas ISBDs especializadas, até a Edição consolidada, e ao alinhamento com os “modelos conceituais” da IFLA. Para o usuário e agências bibliográficas, a transição para as novas edições do ISBD foi processo suave, refletindo o ideal do design original do padrão.

Na atualidade, o ideal persiste. O principal objetivo do ISBD Review Group é manter a Norma como o principal padrão de promoção do controle bibliográfico universal. Além de disponibilizar global e prontamente, em uma forma internacionalmente aceitável, os dados bibliográficos essenciais dos recursos publicados em todos os países.

Em 2021, o Grupo anunciou o lançamento de uma atualização para a ISBD Consolidada, Edição 2011, após dez anos de sua publicação e, ainda, como um esboço. Aguarda-se pela publicação oficial, em 2022.

Essa atualização, denominada ISBD 2021 Update, foi desenvolvida pela Content Update Task Force do ISBD Review Group, como uma revisão que considerou as sugestões da comunidade e as necessidades catalográficas, desde a publicação da edição de 2011. A atualização resulta dos esforços e conhecimentos dos membros do ISBD Review Group. Também colaboraram especialistas externos, e entidades científicas e especializadas em formatos especiais (manuscritos e materiais cartográficos). E teve o apoio da Content Update Task Force of liaisons from the IFLA Rare Books and Special Collections Section (RBSCS).

As atualizações ampliam a cobertura do ISBD para uma maior opção de recursos. Em realidade, otimizam a sua capacidade de descrição granular, definem e desenvolvem alguns dos elementos, e fornecem melhor organização e refinamentos para a descrição de recursos.

Saliente-se que a ISBD define o termo recurso como uma entidade, tangível ou intangível, que compreende conteúdo intelectual e/ou artístico, e que é concebida, produzida e/ou emitida como uma unidade, que forma a base de uma única descrição bibliográfica. Em resumo, as atualizações:

  • ampliam o conteúdo da ISBD para abranger novos recursos com foco nos manuscritos;
  • fixa orientações integradas para a aplicação da ISBD à descrição dos componentes;
  • remove ambiguidades e esclarece orientações para recursos cartográficos;
  • insere novos elementos em Áreas apropriadas e no Glossário conforme necessário;
  • adiciona exemplos às novas orientações para apoiar a implementação pelos usuários.

Na atual revisão, os acréscimos e modificações implementados são destacados na cor vermelha, para facilitar a identificação e maximizar sua utilidade aos usuários. Outras informações e detalhes sobre o objetivo das atualizações são encontrados na introdução do documento.

Na apresentação da Norma, faz-se comunicado sobre a organização das suas disposições, para fornecer as orientações gerais aplicáveis a todos os tipos de recursos. Posteriormente, destacam-se as orientações específicas que acrescentam informações para essa categoria de recurso ou que sejam exceções à regra.

Quanto à terminologia dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR), a ISBD é aplicada no nível da Manifestação, por meio da descrição do Item, como um exemplar da Manifestação. Assim, a ISBD aplica a Declaração de Princípios Internacionais de Catalogação, que estabelece: “uma descrição bibliográfica, em geral, deve basear-se no Item como representativo da Manifestação”.

Saliente-se, que as agências bibliográficas devem preparar descrições que contenham todos os elementos obrigatórios estabelecidos pela ISBD, na medida em que a informação seja aplicável ao recurso descrito. Esse procedimento também é recomendado às bibliotecas que compartilham dados bibliográficos entre si. A inclusão de um elemento é considerada obrigatória em determinados casos, e em outros casos é considerada obrigatória, se for necessária para o usuário de uma bibliografia ou catálogo poder identificar o recurso descrito. As instruções da Norma são complementadas pelas diretrizes da IFLA: IFLA Guidelines for the Application of the ISBDs to the Description of Component Parts.

Nesta nova atualização, há um esforço de clarear a relação da ISBD com o FRBR. Trazer a descrição dos materiais para um nível de conformidade com os requisitos funcionais. O que exigiu exame detalhado dos elementos ISBD para tornar opcionais aqueles que também são opcionais no FRBR; em nenhum caso há dados obrigatório no FRBR, mas opcional na ISBD.

Ao tentar adaptar a terminologia da Norma aos termos dos FRBR: Obra, Expressão, Manifestação e Item; e substituir termos como publicação, o ISBD Review Group teve dificuldades. Isso foi devido ao fato de os termos utilizados, nos Requisitos Funcionais, serem definidos no contexto do modelo de Entidade/Relacionamento, concebido em um nível de abstração mais alto do que as especificações para a ISBD.

Em texto apresentado durante reunião de especialistas em catalogação, ocorrida em Frankfurt, 2003 – IFLA Meeting of Experts on a International Cataloguing Code (IME ICC), alertou-se que a terminologia do FRBR não poderia ser incorporada de maneira simplista, como ocorreu nas ISBDs e regras de catalogação.

Deveria ser mantida a sua própria terminologia específica, além de fornecer definições precisas sobre como cada termo iria relacionar-se conceitualmente com a terminologia FRBR. Neste sentido, ficou decidido, em 2003, evitar a terminologia FRBR na ISBD.

No entanto, o ISBD Review Group introduziu mudanças na redação da Norma. Uma dessas mudanças foi o uso do termo recurso ao invés de item ou publicação. Essa decisão foi tomada para evitar confusão, pois o uso do termo item nas antigas ISBDs é diferente do termo item usado no FRBR.

O ISBD Review Group reconhece o trabalho realizado por gestões anteriores. Esta nova versão respeita ao máximo tais orientações, a fim de aderir ao objetivo de fornecer instruções consistentes para a descrição de recursos. Na apresentação da ISBD atualizada, há um resumo histórico das atualizações e deliberações anteriores.

O Grupo, também, considerou o relacionamento com o IFLA Library Reference Model (IFLA LRM). Um mapeamento da ISBD para LRM foi realizado. Esse alinhamento possibilita à Norma uma nova forma baseada na visão do LRM sobre o universo bibliográfico. Entretanto, o assunto ainda é pauta de análise pela Manifestation Task Force of the ISBD Review Group.

Em relação a atualização, é mencionada a preocupação com o esclarecimento das ambiguidades (em especial os cartográficos) ou diferenciar conceitos; bem como, corrigir erros tipográficos detectados nestes anos de revisão e atualização da Edição Consolidada – 2011.

Os acréscimos mencionados, decorrem também da adição de novos tipos de recursos, incluídos os não-publicados, com instruções para sua descrição. Além da introdução de novos elementos nas Áreas e respectivas definições no Glossário.

Uma preocupação acordada pelo Grupo de trabalho, em relação aos recursos não-publicados, foi a condição da ISBD não colidir com os padrões de Arquivo usados em coleções do acervo arquivístico.

A granularidade da descrição que alguns manuscritos e outros recursos não-publicados podem exigir ou ser objeto de códigos específicos ou extensões de normas nacionais.

Ajustes em outras partes da ISBD foram feitos e novos elementos adicionados. Exemplos, incluem:

  • o novo elemento Processo de Produção (Área 0 – Forma do Conteúdo, Processo de Produção e Tipo de Mídia, regra 0.2.1) para facilitar a categorização e recuperação. Contempla categorias de produção que refletem tanto a fixação do conteúdo em um suporte (escrita, impressão, gravação magnética ou óptica), quanto o método industrial ou artesanal utilizado para realizar a produção (processo de caligrafia ou daguerreótipo);
  • o novo elemento recurso não-publicado, na Área 3 (Material ou Tipo de Recurso Específico). Refere-se a um recurso que não se destina ao uso público ou a uma ampla distribuição ou acesso;
  • e a extensão especificada na Área 2 (Edição, redação, versão) para abranger a tipologia dos recursos não-publicados.

Certamente, a ISBD Consolidada pode ser um valioso instrumento para muitas bibliotecas brasileiras que desejam levar seus processos catalográficos para os novos níveis do universo bibliográfico. É um documento que precisa ser acolhido e estudado pela comunidade acadêmica e de prática, para ser aplicado como alternativa positiva à realidade nacional do tratamento da informação. Abaixo, apresenta-se uma transliteração do sumário da ISBD:

Conteúdo

Membros e Afiliações

Introdução da edição de 2011

Introdução da atualização de 2021

A Capítulo Geral

A.1 Escopo, finalidade e uso

A.2 Tratamento de recursos

A.3 Esquema da ISBD e pontuação

A.4 Fontes de informação

A.5 Idioma e roteiro da descrição

A.6 Resumos e abreviaturas

A.7 Capitalização

A.8 Erros tipográficos

A.9 Símbolos, etc

A.10 Imperfeições

A.11 Exemplos

ESPECIFICAÇÃO DOS ELEMENTOS

0 Área da Forma de conteúdo, Processo de produção e Tipo de mídia

0.1 Forma de conteúdo

0.2 Processo de produção e tipo de mídia

1 Área do Título e Indicação de responsabilidade

1.1 Título principal

1.2 Título paralelo

1.3 Outras informações do título

1.4 Indicação de responsabilidade

2 Área da Edição, redação, versão, etc.

2.1 Indicação da Edição, redação, versão, etc.

2.2 Indicação da Edição paralela, redação, versão, etc.

2.3 Indicação de responsabilidade relativa à edição, redação, versão, etc.

2.4 Indicação adicional da Edição, redação, versão, etc.

2.5 Indicação adicional de responsabilidade relativa a uma edição, redação, versão, etc.

3 Área do Material ou Tipo de recurso específico

3.1 Dados Matemáticos (Recursos Cartográficos)

3.2 Indicação do formato de música (música notada)

3.3 Numeração (Séries)

3.4 Indicação para não-publicado

4 Área da Publicação, produção, distribuição, etc.

4.1 Local de publicação, produção e/ou distribuição

4.2 Nome do editor, produtor e/ou distribuidor

4.3 Data de publicação, produção e/ou distribuição

4.4 Local de impressão ou fabricação

4.5 Nome do impressor ou fabricante

4.6 Data de impressão ou fabricação

5 Área da Descrição do material

5.1 Extensão

5.2 Outros detalhes físicos

5.3 Dimensões

5.4 Indicação de material complementar

6 Área da Série e dos recursos monográficos em multipartes

6.1 Título principal da série ou recurso monográfico em multipartes

6.2 Título paralelo da série ou recurso monográfico em multipartes

6.3 Outras informações do título da série ou recurso monográfico em multipartes

6.4 Indicação de responsabilidade relativo a série ou recurso monográfico multipartes

6.5 Número do padrão internacional da série ou recurso monográfico multipartes

6.6 Numeração dentro da série ou recurso monográfico em multipartes

7 Área das Notas

7.0 Notas para a área da forma de conteúdo e do tipo de mídia e para tipos materiais especiais

7.1 Notas para a área do título e indicação de responsabilidade

7.2 Notas para a área de edição e a história bibliográfica do recurso

7.3 Notas para a área do material ou tipo específico do recurso

7.4 Notas para a área da publicação, produção, distribuição, etc.

7.5 Notas para a área da descrição do material

7.6 Notas para a área das séries e recursos monográficos multipartes

7.7 Notas relativas ao conteúdo

7.8 Notas para a área do identificador de recursos e dos termos de disponibilidade

7.9 Notas de emissão, partes, iteração, etc., que formam a base da descrição

7.10 Outras notas

7.11 Notas relativas para a cópia em mãos

8 Área do Identificador de recursos e termos de disponibilidade

8.1 Identificador de Recurso

8.2 Título da chave (recursos contínuos)

8.3 Termos de disponibilidade

APÊNDICES

Apêndice A: Descrição multinível

Apêndice B: Registros bidirecionais

Apêndice C: Bibliografia

Apêndice D: Abreviações

Apêndice E: Glossário

ÍNDICE


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.