LITERATURA INFANTOJUVENIL


A CRIANÇA E O ADOLESCENTE PODEM LER JORGE AMADO?

Obviamente que essa pergunta é provocativa, mas eu a fiz na intenção de enfrentar alguns estereótipos e preconceitos que rodeiam o escritor Jorge Leal Amado de Faria, mais conhecido como Jorge Amado.

Jorge Amado nasceu em Itabuna na Bahia no dia 10 de agosto de 1912 e morreu em Salvador no dia 06 de agosto de 2001.

A Wikipédia informa que foram 49 livros publicados e “[...] traduzidos em 80 países, em 49 idiomas, bem como em braile e em fitas gravadas para cegos.”

Apesar da repercussão nacional e internacional das obras de Jorge Amado, ele nos tempos atuais, se estivesse vivo, talvez fosse achincalhado por não ser um bom exemplo aos brasileiros. Afinal para muitas pessoas suas obras abordam apenas: sexo, candomblé e comunismo. No entanto, essa maneira de pensar é reducionista e equivocada.

Porém, crítica aos livros dele não seria novidade, pois em dezembro de 1937 em Salvador (BA), por exemplo, foram queimadas obras com tendência comunista e segundo Pablo Uchoa: “Mais de 90% dos exemplares incinerados, recolhidos nas livrarias de Salvador, eram de autoria de um jovem escritor baiano já proeminente com obras de cunho marcadamente social: Jorge Amado.”

Apesar da fama dos livros dele direcionados aos adultos sobrepor as que foram escritas para o público infantojuvenil, gosto e indico três delas.

Só indico as que eu conheço, mas sei da existência de uma intitulada O Capeta Carybé que não tenho, mas ainda pretendo comprar. Para não deixar o leitor curioso extraí do Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira de Nelly Novaes Coelho o seguinte comentário a respeito dele:

“Dentro da estrutura e objetivo da coleção (introduzir os pequenos no gosto pela arte plástica e/ou no conhecimento de nossos pintores consagrados). Este volume dedicado a Carybé registra vinte e sete belas reproduções da arte maior do grande pintor nascido em Buenos Aires e que escolheu a Bahia como morada.”

Das três obras que eu já li e já reli, começo por aquela que considero uma das preciosidades da literatura brasileira e que todos deveriam ler. (justifico que o destaque na palavra - deveriam - tem a intenção de sugestão e não de obrigação). Trata-se do livro Capitães da areia que para alguns é obra para adulto, mas para outros é recomendado também para o público infantojuvenil. Da minha parte, eu o coloco nessa classificação, em outras palavras considero adequado aos jovens e penso que precisam lê-lo.

Capitães da areia tem um personagem que provoca em mim muita emoção. É um menino que se chama João José, cujo apelido é Professor, visto que era o único “inteiramente letrado” e que gostava de ler em voz alta os livros para os que não sabiam ler.

“O Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tornara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem.” (AMADO, 2008, p. 32).

Este personagem é adorável e eu advogo em sua defesa, pois ele roubava para ler e acalentar seus amigos-meninos que moravam como ele nas ruas sofrendo abandono e discriminação. Na palavra do autor, ele “[...] contando aquelas histórias que lia e muitas vezes que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos [...]”. (AMADO, 2008, p. 32).

Sei que desde 2011 existe o filme Capitães da areia e que foi dirigido por Cecília Amado neta de Jorge Amado, só que ainda me falta coragem para assistir, creio que a emoção será triplicada.

Outro livro que eu gosto muito é O gato Malhado e a andorinha Sinhá que foi escrito em 1948, mas publicado apenas em 1976. A edição que eu tenho é a 14ª e é datada de 1984, ainda com espaçamento de entrelinhas pequeno que não é tão confortável para os olhos. Quando eu o li pela primeira vez me diverti bastante pelo inusitado caso de amor entre um gato e uma andorinha. Hoje passados tantos anos, retorno ao livro e percebo muitos aspectos que constam na dedicatória que já escaparam da minha memória. Por exemplo, esse livro foi escrito para o seu filho em 1948. No período de sua publicação (em 1976) foi dedicado ao afilhado, aos netos, à dona Zélia; com especial referência aos amigos e admiradores, sem esquecer seu amigo e ilustrador argentino - Carybé.

A obra narra a “História amorosa do gato malhado (um pária entre os animais) e a andorinha Sinhá (delicada criatura, misto de alta dama, pássaro e flor), esta retoma o tema básico do Romantismo: o amor versus desigualdade de classes. (Como se vê, problemática que escapa à área de interesse da criança a quem o livro foi destinado. Poderia, sim, interessar ao adolescente, não fosse a forma infantil que equaciona o tema e a problemática.)” (COELHO, 2006, p. 374).

Fazendo um contraponto com a afirmação entre parênteses, destaco que na atualidade ela deve ser relativizada/flexibilizada/refletida, pois são publicados no Brasil livros infantis de autores nacionais e estrangeiros com temática: violência doméstica, estupro, nazismo, ditadura militar, tortura entre outros. Esses são aceitos e recomendados, pois o que se deve avaliar é a maneira como o assunto é abordado e não obrigatoriedade para uma faixa etária específica. Há muito tempo que a recomendação por idade saiu da quarta capa dos livros, apesar de permanecerem em catálogos como forma de facilitar a adoção e a venda e não de forma cerceadora ou proibitiva para a leitura.

Voltando ao livro O gato Malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor, destaco, só para atiçar a curiosidade, que o autor parte de um trecho de um poeta popular Estevão da Escuna “poeta popular estabelecido no Mercado das Sete Portas, na Bahia” e que toma um ritmo divertido com um gato “vagabundo” e “que se acha” o máximo. Ele é afrontado por uma andorinha de boa família e boa educação que o chama de feio. No transcorrer da história eles se apaixonam e causam um escândalo no Parque onde moram diversos animais; são criticados por estarem infringindo uma lei antiga de que um gato e uma andorinha não podem se casar... Bom o que acontece no final é melhor conferir...

A outra obra é A bola e o goleiro que foi publicada em 1984 e narra uma “Pitoresca história de amor de uma bola de futebol por um goleiro. Em linguagem concisa e bem-humorada, a efabulação vai direto ao desenlace imprevisto e divertido.” (COELHO, 2006, p. 375).  Atualmente é publicada pela Editora Record e sua ilustração foi bordada por Ângela Dumont, Antônia Diniz Dumont, Marilu Dumont, Martha Dumont, Sávia Dumont sobre os desenhos de Demóstenes Dumont Vargas Filho.

Apesar de futebol não ser uma temática que me desperte a atenção, o amor entre uma bola e um goleiro é algo inusitado. O teor engraçado, na minha perspectiva, está nas contorções realizadas pela bola Fura-Redes para estar perto do goleiro Bilô-Bilô (o Cerca-Frango). Não conheço as outras edições, por exemplo, a de 1984 com ilustrações de Aldemir Martins. A edição que eu tenho foi bordada primorosamente por mulheres com mãos talentosas e linhas coloridérrimas.

Reunir o futebol e a tessitura do bordado deu um resultado, no mínimo, interessante!!!

Ao retornarmos a pergunta-título dessa Coluna, podemos respondê-la: sim a criança e o adolescente podem e devem ler Jorge Amado! O único impedimento seria a desinformação e o preconceito por parte de algum mediador.

Tenho dito!

Sugestões de leitura:

AMADO, Jorge. A bola e o goleiro. Rio de Janeiro: Record, 2008.

AMADO, Jorge. Os capitães da areia. 50.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

AMADO, Jorge. O gato malhado e a andorinha sinhá.

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. 5.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.

UCHOA, Pablo.  “Capitães da Areia”: o dia em que o Estado Novo queimou um dos maiores clássicos da literatura brasileira. BBC Brasil em Londres, 26 novembro 2017. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-41969983. Acesso em: 30 abr. 2021.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.