ENTRE CONEXÕES E PROCESSOS INFORMACIONAIS


AÇÕES REFERENTES AO USO ÉTICO DA INFORMAÇÃO PROMOVIDAS PELAS BIBLIOTECAS

As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) estão cada vez mais sofisticadas, aumentando a complexidade das relações entre os próprios indivíduos através dos meios virtuais. Destacam-se as diversas formas de interação nas plataformas virtuais, propiciando a produção, troca e divulgação de informações nestes espaços pelos próprios usuários dos sistemas.

Nem todas as informações disponibilizadas nestes ambientes são autênticas, às vezes, possuem notícias falsas, fatos deturpados, imagens parciais e/ou distorcidas de determinados eventos, corroborando, ainda mais, para o cenário de desinformação na sociedade. Neste sentido, é preciso usar critérios para avaliar a informação e suas fontes, bem como as fake news.

O combate à desinformação também pode iniciar com ações de aprendizagem individuais e/ou coletivamente acerca de leis e normas relacionadas aos aspectos éticos da informação na sociedade, que podem ser promovidas nas bibliotecas, desde as escolares até as universitárias. Essas ações, ainda que sejam, em grande parte, direcionadas para trabalhos no âmbito escolar e/ou universitário, se expandem para o uso em contextos sociais, principalmente a partir da reflexão dos aspectos éticos que envolvem a informação em diversas situações.

Acredita-se que a compreensão de atitudes ligadas ao âmbito da informação possui impactos, que podem prejudicar diversas pessoas, instituições, entre outros, desde um nível micro até o nível macro. Desta forma, remetendo-se à Vitorino e Piantola (2011), ao tratar da dimensão ética da competência em informação, salienta-se a responsabilidade dos indivíduos na sociedade visando o bem comum, ao ser no mundo e a sua responsabilidade no ato de produzir e compartilhar informações, levando em consideração as questões ligadas à propriedade intelectual e aos direitos autorais.

A conscientização dos estudantes deve ocorrer desde as fases iniciais do ensino fundamental, apresentando-lhes questões sobre a citação e referenciação de obras em que seu conteúdo foi utilizado na íntegra, em partes e/ou parafraseado em seus trabalhos escolares (ABNT, 2002; 2018), de modo a mostrar que a normalização vai além de diretrizes para padronizar os trabalhos. Observa-se, muitas vezes, que as normas utilizadas para a formatação dos trabalhos escolares/acadêmicos são tipificadas de forma pesarosa e limitada pelos indivíduos que necessitam fazer uso delas.

As ações ligadas aos aspectos éticos e legais da informação refletem na compreensão de que todas obras possuem uma responsabilidade autoral, que fazer a citação e referência deste material é dar os devidos créditos aos autores, bem como possibilitar aos leitores conhecimento do que pode ter originando tais ideias e/ou mesmo comprovação de que determinadas afirmações foram baseadas em estudos anteriores e, por fim, também facilitar o acesso ao material utilizado.

Algumas bibliotecas escolares elaboram manuais e/ou instruem os alunos sobre a formatação da pesquisa escolar, incluindo conteúdos referentes às citações e às referências. Nas obras “Como usar a biblioteca na escola: um programa de atividades para o ensino fundamental” (KUHLTHAU, 2004) e “Como orientar pesquisa escolar: estratégias para o processo de aprendizagem” (KUHLTHAU, 2010) encontram-se atividades sobre a elaboração de referências, a compreensão do que é plágio etc., normalmente, podem ser desenvolvidas de forma colaborativa entre professor e bibliotecário.

Nas bibliotecas universitárias, as capacitações são mais recorrentes, contemplando normas de formatação de trabalhos, normas de citação e de referência, além daquelas sobre os gerenciadores de referência, como, por exemplo, o Mendeley, o Endnote, entre outros; também é importante ressaltar que existem manuais e tutoriais sobre as normas.

Esses manuais e/ou cursos ministrados pelas bibliotecas podem ampliar as questões sobre os impactos do uso inadequado da informação no que se refere aos aspectos éticos e legais na comunicação científica e na sociedade, bem como é possível implementar ações voltadas para temáticas mais específicas no que diz respeito à ética.

A título de exemplo, apresenta-se o Programa de Educação de Usuários oferecido pela Biblioteca Universitária (BU) da Universidade Federal do Ceará (UFC), voltado para a comunidade universitária. Este programa inclui diversos treinamentos, com destaque para “Noções em ética na pesquisa científica, plágio, fraude e má conduta”, que aborda a ética aplicada à pesquisa científica, os conceitos de plágio, fraude e má conduta no ambiente acadêmico, de modo a capacitar os alunos sobre o tema (1).

A biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) oferece o curso “Super 8: pesquisa e uso da informação científica”, que é um curso composto por diversos módulos, entre eles, enfatiza-se este “Ética na publicação científica”, que engloba conteúdos acerca de plágio, autoplágio, auto-citação abusiva, manipulação de indicadores de produção e impacto, fraudes científicas, periódicos predatórios e avaliação por pares (2).

Perante o exposto, algumas ações realizadas com ênfase em normas de citações e/ou referências da Associação Brasileira de Normas Técnicas, por exemplo, podem desencadear comportamentos que se estendem para outros ambientes, tanto na produção de materiais pelos indivíduos quanto na análise daqueles gerados por outras pessoas e/ou instituições, verificando-se a autoria de notícias, de imagens, entre outros., de modo a provocar um olhar mais crítico das informações recebidas e/ou daquelas veiculadas em vários ambientes e meios.

Salienta-se que diversas outras atividades podem ser realizadas pelas bibliotecas, que, por sua vez, podem ser compreendidas como um centro de recursos de aprendizagem e o bibliotecário como um bibliotecário-educador (IFLA, 2016), auxiliando no combate à desinformação.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520: informação e documentação: citação em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, ABNT, 2002.

KUHLTHAU, Carol Collier. Como usar a biblioteca na escola: um programa de atividades para o ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2004

KUHLTHAU, Carol. Como orientar pesquisa escolar: estratégias para o processo de aprendizagem. São Paulo: Autêntica, 2010.

VITORINO; E. V.; PIANTOLA, D. Dimensões da competência informacional (2). Ciência da Informação, Brasília, DF, v. 40 n. 1, p.99-110, jan./abr., 2011.

 

NOTAS

(1) https://biblioteca.ufc.br/pt/servicos-e-produtos/catalogo-de-treinamentos/

(2) https://www.ufrgs.br/super8/modulos-curso/etica-na-publicacao-cientifica/


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MARTA LEANDRO DA MATA

Doutora em Ciência da Informação (2014), Mestre em Ciência da Informação (2009) e Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP/Campus de Marília), com período de doutorado sanduíche na Universidade Carlos III de Madrid (2013). É professora do Departamento de Biblioteconomia e do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).