TRANSFORMAÇÃO E MARKETING DIGITAL


  • Esta coluna tem a proposta de convergir os temas tecnologias da informação e comunicação com o marketing digital, visando criar um novo momento de discussão para a inclusão sociodigital nas unidades de informação. Abordaremos temas como: mídias sociais, novas práticas de marketing, internet das coisas, big data, e muito mais em torno da evolução do usuário e do profissional na era digital?

O ENSAIO DE UMA REFLEXÃO SOBRE O CORPO FEMININO E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Por que a maioria das vozes das aplicações de inteligência artificial são do sexo feminino?

Eis uma questão que me intriga neste contexto.

Todos os setores de atividade econômica vêm, paulatinamente, adotando o uso de aplicações com base em inteligência artificial. No mundo empresarial, tal implementação tem sido realizada de diversas maneiras, áreas e tarefas. Quando bem treinados, estes recursos podem melhorar o suporte à tomada de decisões operacionais, gerenciais e até mesmo estratégicas.  

Um exemplo interessante são as operadoras de celular. A IA está cada vez mais presente no dia a dia das telecomunicações do mundo e do Brasil. A operadora Vivo construiu sua própria plataforma de IA, chamada Aura. A TIM desenvolveu o autoatendimento cognitivo, que atende pelo nome de Taís. E a Oi utiliza a Joice por trás de seus chatbots. Como é possível perceber todas possuem codinomes femininos. Temos exemplos de computações cognitivas com sistema de voz do sexo feminino, também no universo financeiro, a exemplo da BIA do Banco Bradesco. 

Então me pergunto: por que?

A seguir gostaria de ilustrar nossa discussão com o exemplo emblemático da robô humanoide,  a cidadão Sophia, sendo entrevistada pelo Tony Robbins.

 

 

Fonte: Vídeo da entrevista disponível no Canal do Hermano.

Acho que uma primeira explicação pode ser averiguada nas problematizações que envolvem a ideia de corpo na cibercultura. Edvaldo Couto (2009) nos alerta que o corpo está envolvido em conexões, sempre incompletas e insuficientes e que abarca as abordagens sobre o estatuto do humano, sua desqualificação e requalificação na cibercultura.

Em 2009, Couto nos alertou sobre as incursões nas transformações aceleradas do humano, do corpo e do sexual a partir das revoluções tecnocientíficas e biotecnológicas que prometem a plena realização individual e coletiva, a felicidade técnica de viver. As mutações promovidas pelo avanço das tecnologias constroem diferentes modos de existir.

Os robôs e as aplicações de IA, para se expressarem em linguagem natural, utilizam os chamados agentes inteligentes de voz (AIVs) ou no inglês (VIA) que são definidos como agentes virtuais inteligentes que servem para se comunicar com o usuário através de interações de conversação. Além dos protocolos de pensamento em voz alta e variáveis de tempo de resposta, percebi que na literatura científica - quando se trata do assunto voz destes agentes - outro ponto que importa é a influência da expressão emocional do agente inteligente.

Desse modo, diante da revisão não sistemática que tenho realizado sobre as aplicabilidades da inteligência artificial, o sexo do agente inteligente de voz, a partir de aspectos que reflitam questões do corpo, sexualidade e gênero ainda não foram contemplados.

 

 

Fonte: Vídeo disponível na EBSCO (2020).  

La Fountain, em estudo recente, classificou a tecnologia de assistente de voz como “excitante”, em seu artigo que discute o tema em bibliotecas. O autor também chamou a atenção para as questões de privacidade dos usuários ao interagirem com agentes inteligentes de voz em bibliotecas. Segundo La Fountain (2020), é talvez o problema mais preocupante que os bibliotecários devem estar atentos quando se trata de integrar voz.

Assim, acredito que este breve texto pode ser o início de uma discussão indispensável na Ciência da Informação, principalmente, no tocante as questões de gênero, corpo, sexualidade no contexto da transformação digital.

Continuaremos…

Saiba mais sobre este e outros assuntos de tecnologia digital acessando o LTI Digital (https://ltidigital.ufba.br/ ). Se quiser aprofundar um pouco mais também sugiro que você veja estes textos:

COUTO, E. S. Trabalho encomendado. Reunião anual da ANPED, em Caxambu-MG, em 05/10/2009.

NEVES, B. C. Inteligência artificial e computação cognitiva em unidades de informação: conceitos e experiências. Logeion: Filosofia da Informação, v. 7, n. 1, p. 186-205, 13 set. 2020. - http://revista.ibict.br/fiinf/article/view/5260.

BAKER, J. J. (2018): “A legal research odyssey: artificial intelligence as disruptor”. Law Library Journal. Winter 2018, Vol. 110 Issue 1.

JI, X.; RAU, P.-L. P. A comparison of three think-aloud protocols used to evaluate a voice intelligent agent that expresses emotions. Behaviour & Information Technology, [s. l.], v. 38, n. 4, p. 375–383, 2019.

LA FOUNTAIN, Cal. Computers in Libraries. Jan/Feb2020, Vol. 40 Issue 1, p23-26. 4p. 4 Color Photographs.

Assista também o Vídeo: 
https://youtu.be/t3mKm0U0HEg


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BARBARA COELHO

Doutora em Educação, mestrado e pós-doutorado em Ciência da Informação. Professora e pesquisadora da UFBA, onde coordena o Laboratório de Tecnologias Informacionais e Inclusão Digital (LTI Digital). Palestrante e autora dos livros Tecnologia e Mediação: uma abordagem cognitiva para inclusão digital, e Marketing Digital para Instituições Educacionais e Sem Fins Lucrativos.