ATIVIDADES EM BIBLIOTECAS


  • Apresentar experiências e exemplos de atividades desenvolvidas em Bibliotecas.

CAMPANHA DE PRESERVAÇÃO DE ACERVO: FIGURINHAS

Toda biblioteca convive com o grave problema de depredação do acervo: livros e revistas roubados; capítulos e artigos arrancados; materiais rasurados; margens dos textos com comentários ou simplesmente sublinhados; grupos que dividem o trabalho para uma disciplina no próprio corpo do livro. Algumas ações menos severas, mas igualmente problemáticas, são os livros “deslocados” no acervo, quer executados propositalmente – quando alguns alunos escondem materiais exigidos em provas em locais que só eles sabem e, com isso, evitam que outros possam localizá-los, quase sempre com os livros que não podem circular –, ou guardados e acomodados por usuários em lugares não corretos – na tentativa deles de colaborar com a biblioteca.

Os aparatos para tentar evitar ou amenizar o problema quase sempre se valem de mais dispositivos de segurança (câmeras, alertas sonoras nos materiais, ronda de funcionários etc.) ou campanhas que procuram conscientizar os usuários e mostrar o quão nocivos são os atos predadores do acervo.

As campanhas educativas, na maioria das vezes parte da concepção de que elas são efetivas e que atendem aos objetivos com os quais foram idealizadas e implantadas. Mas, infelizmente, nem sempre isso é verdadeiro. A concepção de uma campanha desse tipo deve se preocupar com uma série de pontos que, se não bem pensado e concebido, podem comprometer o sucesso de todo o trabalho. Entre esse tópicos, por exemplo, temos o material que está sendo utilizado; os espaços de divulgação (tanto físico como virtual); as cores empregadas (se estão relacionadas com a marca visual da biblioteca); as imagens e linguagem empregadas (se estão direcionadas para o público alvo); o momento em que a campanha é desenvolvida; o tema ou temas que serão abordados; o envolvimento dos usuários ou de instâncias representativas de cada grupo de usuários; avaliação e análise dos resultados obtidos etc.

Um pequeno erro em qualquer um desses itens pode acarretar, como disse acima, em um fracasso da campanha. Se a campanha está sendo estruturada por uma biblioteca universitária e, lógico, dirigida para um público universitário (quer alunos, professores, funcionários e outros possíveis usuários), a capa de um folder, por exemplo, não pode utilizar algo como “Olá, amiguinhos”. Ou, quando a campanha deseja alertar para o uso incorreto dos livros e busca alterar o comportamento dos usuários quando utilizando o livro, não pode usar um desenho simples que traga um livro com esparadrapos e chorando. A linguagem deve ser dirigida e adequada ao público para o qual a campanha se destina.

Conheci, li ou me relataram várias experiências com campanhas educativas, em especial desenvolvidas por bibliotecas públicas e universitárias. Em outros textos desta coluna contarei alguns deles. Hoje vou relatar uma campanha interessante que ocorreu na Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – FAU/USP. Não sei precisar a época em que se deu essa experiência, mas ela está localizada entre a década de 1980 e início da década de 1990.

Os bibliotecários responsáveis pela campanha optaram por trabalhar com “figurinhas”. E o que isso significa? A FAU/USP forma graduandos e pós-graduandos em Arquitetura e Urbanismo, área reconhecidamente relacionada e envolvida com cultura e artes. Tendo conhecimento disso, claro, os bibliotecários decidiram por utilizar algum material que tivesse um vínculo com uma, ou mais de uma, expressão artística. A opção foi utilizar um desenho mais minimalista acrescido de um texto que o explicasse. Após essa decisão, outra se fez necessária: como veicular esses desenhos? Qual o formato que seria utilizado? A opção foi pelo álbum de figurinhas.

O álbum de figurinhas é uma tradição e que faz parte das lembranças de infância de muitos. Além disso, ele permanece no imaginário como algo prazeroso, como algo que nos remete à infância, como algo que se relaciona com brincadeiras, com jogos.

Desconheço o processo de construção do material de campanha, mas os usuários da biblioteca recebiam um álbum com espaços para que as figurinhas fossem coladas. Em cada um desses espaço havia um texto relacionado ao desenho, explicando, com uma linguagem adequada ao público da biblioteca, os motivos pelos quais foi ele, desenho, ali inserido. Junto com o álbum, as pessoas recebiam um pacotinho lacrado, contendo todas as figurinhas que deveriam ser coladas nos respectivos e adequados espaços.

Na medida em que as figurinhas eram coladas o, agora, dono do álbum, provavelmente lia cada um dos textos e se informava sobre maneiras e formas de preservar os materiais da biblioteca.

Quem reproduzir essa ideia em uma campanha educativa em sua biblioteca deve se preocupar com a linguagem do texto, como já dito anteriormente, mas, também, com o tamanho dos textos que estão alocados sob a figurinha. Ele não pode ser muito extenso, pois um texto longo inibe a leitura, é um obstáculo para a leitura. É preciso lembrar que a pessoa não escolheu, em um primeiro momento, ler os textos do álbum.

Mais uma coisa: a linguagem empregada nos textos não deve ser excessivamente técnica ou se valer do jargão da área da Biblioteconomia. Sem ser, no caso da biblioteca universitária, infantil nem simples em demasia, ela deve explicar o motivo para a escolha de cada um dos desenhos.

Não sei como foi a avaliação dessa campanha mas, creio, deve ter surtido efeito e diminuído a depredação do acervo daquela biblioteca.

Eu possuía um exemplar do álbum, mas não consegui localizar em meus “guardados”. Utilizei esse material durante um tempo nas aulas de Serviço de Referência e Informação que ministrei nos cursos de Biblioteconomia da USP e da UEL.  Os alunos avaliavam a campanha de maneira muito positiva. É uma possibilidade para ser utilizada em situações em que é preciso uma ação contra a depredação do acervo.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.