BIBLIOTECONOMIA DIGITAL


WEB E BIBLIOTECA: 2.0 OU 3.0?

O termo Web 2.0, criado em 2004 em uma conferência da O’Reilly Media, é utilizado para definir a segunda geração da internet e diferencia-se da anterior por agregar conceitos de interação, redes sociais e colaboração, centrada na interatividade, com o usuário não apenas consumindo informações, mas participando da construção de novos conteúdos. Nesse cenário temos os blogs, as redes sociais, social tagging, wikis e mash ups sendo:

 

Blogs: truncagem dos termos web e log, são sites criados e mantidos por pessoas ou grupos para postagens, dispostas em ordem cronológica decrescente, discorrendo sobre um tema;

 

Mash ups: aplicação web que se utiliza de conteúdo de mais de uma fonte para criar um novo serviço. Uma mash up pode, por exemplo, permitir o cruzamento de dados do Google Maps com um guia de restaurantes, resultando num mapa gastronômico de determinada localidade, organizando os dados por tipo de estabelecimento, faixa de preços, serviços de valet, espaço para crianças etc.;

 

Redes sociais: sites compostos por pessoas e/ou organizações conectadas por diversos tipos de relações, que partilham valores, objetivos, mensagens etc. As redes podem funcionar em diferentes nichos, como relacionamentos (Facebook, Twitter, Orkut), profissionais (Linkedin), temáticas (MySpace, Instagram, Youtube, Tumblr, Pinterest), políticas, religiosas etc.;

 

Social tagging: criação de tags (rótulos, etiquetas) pelo próprio usuário, organizando informações dispersas em sites em categorias. Os sites precursores foram o Flickr.com e o Del.icio.us, com os internautas criando termos de forma livre (linguagem natural), marcando os conteúdos de interesse, facilitando sua localização;

 

Wikis: páginas comunitárias onde os usuários criam e editam conteúdos, compartilhando informações. A Wikipédia, site aberto e público, pretende ser uma enciclopédia online gratuita, escrita e mantida pelos internautas. As ferramentas wikis têm sido utilizadas no ambiente corporativo, permitindo o trabalho em grupo, mesmo com os participantes dispersos em diversas localidades.

 

Com as bibliotecas expondo seus catálogos na internet e utilizando-se de recursos da rede, o emprego do termo Biblioteca 2.0 foi cunhado de forma quase automática quando os OPACs (Online Public Access Catalogue) passaram a oferecer recursos da web 2.0. Se com a disponibilização dos OPACs as bibliotecas já permitiam uma visibilidade bem maior que a observada nos espaços físicos tradicionais, em determinado ponto, com a evolução dos recursos da web, simplesmente disponibilizar um acervo para consulta deixou de ser um diferencial. Com o avanço do comércio eletrônico, com lojas virtuais oferecendo produtos diversos – inclusive livros – as bibliotecas passaram a perceber que não bastava possuir catálogos repletos de informações textuais, de acordo com as regras do AACR2, estipulação de cabeçalhos de assunto, construção de tesauros e uso de demais ferramentas bibliotecárias. A internet é um local onde a imagem ganha destaque e páginas repletas de textos, por mais que contenham muito conteúdo, não são atrativas. As ferramentas de busca passaram a ser intuitivas, restringindo-se a uma única caixa onde os termos são colocados livremente e, quando a informação não é encontrada, sugestões diversas para realização da busca são oferecidas. De repente, o trabalho realizado pelas bibliotecas pareceu desnecessário, com as informações que os internautas precisavam à distância de um clique, podendo ser encontradas no Google! Algumas pessoas chegaram a decretar que as bibliotecas não eram mais necessárias, afinal qualquer pessoa conseguiria encontrar as informações e dados necessários de forma muito simples, sem auxílio de bibliotecários ou ferramentas de difícil utilização como busca avançada combinando diversos campos e utilizando operadores booleanos. Com o crescente volume de informações disponibilizadas na web, tornou-se evidente que as bibliotecas não são instrumentos em via de extinção! Sua importância reside na organização de conteúdos, disponibilização de recursos (físicos ou digitais), oferta de serviços e auxílio à pesquisa, permitindo aos usuários encontrar os dados que necessitam de forma pertinente e assertiva, contribuindo com a identificação de fontes relevantes.

 

Ao apoderar-se dos conceitos da web 2.0, as bibliotecas passaram a contar com recursos que contribuíram em muito com a oferta de serviços disponibilizados. Algumas dessas ações consistem de:

 

Utilização de redes sociais: os usuários querem compartilhar informações, recomendar obras ou simplesmente curtir. A utilização das redes sociais pelas bibliotecas pode ser desde a criação de uma página para interagir com os usuários, como a oferta de serviços, divulgação de novas aquisições, DSI (disseminação seletiva da informação), troca de mensagens, sugestões de aquisições e demais atividades. Diversas bibliotecas criaram perfis no Facebook e promovem mais um canal de comunicação com seus usuários;

 

Imagens: uma das cenas mais tradicionais em bibliotecas é o usuário solicitar um livro pela imagem ou cor da capa. A memória visual é o primeiro contato com uma publicação, muitas vezes esquecendo-se da exatidão do título ou dos autores, afinal é mais simples lembrar-se que o livro é vermelho e grande, do que recordar que é uma obra da editora X e que o autor Y contribuiu com uma coletânea, por exemplo. Ao incluir as capas como imagens de referência aos metadados, permite-se a identificação visual das obras pesquisadas. Evidentemente não é possível uma busca textual por características físicas de capas, porém o reconhecimento das obras foi facilitado ao agregar as imagens aos metadados. Boa parte das capas é localizada na internet, em lojas virtuais ou diretamente nas editoras, e sua utilização não fere os direitos autorais, sendo visto como uma forma de divulgação das publicações, além de serem imagens de baixa resolução que não permitem utilização para outros fins que não de disseminação;

 

Íntegras: foi-se o tempo que o usuário ficava satisfeito ao encontrar uma referencia de um texto, artigo ou livro! Atualmente ele quer ler um resumo, ver mais detalhes e, sempre que possível, ter acesso a integra. A utilização de conteúdos digitais aos acervos é cada vez mais desejada. Algumas restrições ainda são impostas quando o conteúdo é licenciado (e-books, artigos de periódicos, sites assinados etc.), mas a inclusão de obras em domínio público e de acesso aberto (open access) é vista com frequência. Os registros não são limitados a textos, podendo agregar aos acervos conteúdo multimídia, como arquivos sonoros (músicas, entrevistas etc.), vídeos (filmes curtos, animações, entrevistas etc.), sites, mapas e demais recursos;

 

Ferramentas de chat: não são muitas bibliotecas que utilizam, porém são interessantes. Os serviços de chat permitem aos usuários solucionar dúvidas para realização de pesquisas ou utilização de serviços (reservas, renovações etc.). A complexidade reside no fato que nem todas as bibliotecas podem contar com funcionários exclusivos para esse tipo de atendimento e o serviço não pode ser oferecido por 24 horas. Normalmente as bibliotecas estabelecem os horários e montam escala de revezamento para que os funcionários (normalmente da referência) estejam disponíveis para realização de atendimentos;

 

Interação: os usuários são participativos e gostam de avaliar as publicações existentes e incluir comentários. Algumas bibliotecas já oferecem ferramentas de ranking onde podem ser incluídos valores (estrelas, notas, pontos etc.) aos registros, auxiliando os bibliotecários na identificação das obras significativas à comunidade, ou então os próprios usuários contribuindo com a divulgação das publicações presentes nos acervos. Complexidade maior é observada ao permitir a inclusão de comentários. Essa atividade necessita de monitoramento, afinal pode ser utilizada de forma não interessante à biblioteca ou instituição e causar problemas como, por exemplo, uso de palavras de baixo calão, disseminação de ofensas ou calúnias (bulling). O papel do moderador é complexo e pode ser visto como o de censor caso os critérios para recusa de um comentário não fiquem transparentes. Recomenda-se que os comentários sejam realizados em redes sociais, uma vez que os usuários irão expor seus comentários aos seus amigos, com os dados desvinculados do catálogo;

 

Conteúdo dinâmico: algumas rotinas da biblioteca podem ter divulgação realizada de forma automática como a exposição das últimas obras cadastradas, organizadas por diversos critérios como tema, data de inclusão no banco de dados etc., recurso de DSI ou informações de recebimento de obras solicitadas para aquisição. Essas funcionalidades podem ser disparadas pelo bibliotecário ou podem ser dinâmicas, tornando o catálogo da biblioteca uma ferramenta de comunicação e interação de tempo real;

 

Social tagging: permitir aos usuários a inclusão de palavras ou expressões em registros do acervo que poderão ser utilizadas para futura recuperação. Através de identificação por login e senha, o usuário pode salvar termos aos registros ou salvar resultados de busca. Apesar de não ser uma funcionalidade vista com frequência nas bibliotecas, algumas redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram) utilizam-se desse recurso com certa frequência, reunindo e recuperando expressões com o uso de hashtags (#). A complexidade para bibliotecas é onde armazenar essas informações e, caso isso seja feito, analisar os termos inseridos pelos usuários, avaliando se podem ser incluídos no catálogo de autoridades.

 

Como as ferramentas que disponibilizam os catálogos das bibliotecas contam com alguns dos recursos citados acima, podemos admitir que muitas instituições podem se denominar Bibliotecas 2.0! Contudo, nada é estático ou estável quando falamos em tecnologia. Enquanto alguns especialistas alardeiam a Web 3.0, que agregaria o contexto semântico à internet e o uso de dados interligados (Linked Data), as bibliotecas vêm discutindo o que virá a ser a nova geração dos OPACs. Embora algumas das ferramentas e funcionalidades definidas como de nova geração já estejam em funcionamento, além das possibilidades citadas acima, são consideradas características desejadas aos catálogos:

 

Busca facetada: estipulação de categorias agrupando os registros recuperados, permitindo refinamento da estratégia de pesquisa realizada;

 

Pesquisa em íntegras de conteúdos digitais: permitir aos usuários a expansão da pesquisa para além dos metadados, consultando palavras dos conteúdos digitais textuais;

 

Interface amigável: desafio constante dos desenvolvedores, envolve a adoção de condutas de web design, e-commerce e demais ferramentas que tornam a experiência do usuário facilitada. Consiste em tornar simples a tarefa de realizar buscas, no melhor estilo “googlelização”. Aqui também são bem vindos os recursos de auto completar de termos pesquisados ou a sugestão de outras expressões que podem ser usadas para realizar as pesquisas;

 

Serviços de descoberta: utilizar ou integrar ferramentas de serviço de descoberta ao OPAC. Essas ferramentas permitem a realização de busca em diversos conteúdos como bases externas, conteúdos licenciados, sites de acesso restrito ou aberto etc.;

 

Gestão de recursos digitais: identificar os tipos de conteúdos digitais existentes e realizar a gestão mensurando a quantidade de acessos, empréstimos realizados, modelos de negócios empregados para sua inclusão no acervo, temporalidade, renovações etc.;

 

Literacia: não basta oferecer o recurso se os usuários o desconhecem ou se não sabem como utiliza-lo. As bibliotecas devem investir em ações de competência em informação, tanto presencial, quanto online, através de tutoriais, FAQs e demais ferramentas que auxiliam o usuário em suas tarefas de pesquisa;

 

Aplicação de relevância: permitir ao usuário possibilidades diversas para visualizar os resultados pesquisados. Normalmente a exibição dos registros costuma ser por ordem alfabética de título ou ordem cronológica decrescente de data de cadastro. Outros critérios de relevância podem ser utilizados como a quantidade de vezes que um termo ocorre no mesmo registro, a proximidade das palavras pesquisadas, campos onde os termos foram recuperados (campos fortes e fracos), quantidade de tags sociais informadas pelos usuários, quantidade de empréstimos ou consultas realizados das publicações, nível de escolaridade do usuário etc.

 

Busca federada: possibilidade de consultar em diversas fontes simultaneamente (OPACs, bases comerciais, mecanismos de busca na web, bases de dados digitais etc.), normalmente utilizando-se do protocolo Z39.50;

 

Acesso por dispositivos móveis (Mobile): observa-se uma crescente utilização de smartphones e tablets como equipamentos de acesso à internet. Os aplicativos mobile podem tanto oferecer atividades simples como reservas e renovações de obras emprestadas, até pesquisa no catálogo, sugestões de aquisições ou leitura de arquivos digitais. Se até pouco tempo era impensável realizar a leitura de um livro pela tela de um celular, essa possibilidade é cada vez mais frequente. Evidentemente a leitura não é tão confortável quanto a leitura em papel ou até mesmo em telas maiores como computadores, tablets ou e-readers, mas a leitura por celulares é possível, com recursos como redimensionamento do texto na tela, sincronismo com leitura realizada em outros dispositivos e demais recursos inerentes aos e-books como consulta a dicionários, acesso a conteúdos multimídia, anotar ou destacar trechos e compartilhamento em redes sociais.

 

Outro desafio apresentado é a mudança de normativas para representação descritiva. Embora pareça um futuro distante para muitas bibliotecas brasileiras, o RDA (Recurso, Descrição e Acesso) já é uma realidade para instituições importantes como Library of Congress, Biblioteca Nacional de Agricultura (US), Biblioteca Nacional de Medicina (US), British Library, OCLC, Biblioteca e Arquivos do Canadá e as Bibliotecas Nacionais da Alemanha e Austrália que iniciaram a aplicação do novo código em 31/3/13. Embora ajustes estejam em curso com adaptações do código às necessidades observadas pelas instituições participantes de projetos-piloto, sua utilização vem sendo estimulada, primeiramente com o conhecimento das novas regras através de capacitações, adaptação dos registros existentes (criação de registros híbridos) e a inclusão de novos com preenchimento de campos MARC específicos. Além das instituições participantes, observa-se que países que não utilizam o inglês como idioma predominante estão envidando esforços em traduzir o RDA, facilitando sua assimilação e disseminação aos profissionais dedicados à tarefa de catalogar. Muitos ajustes serão necessários e não basta preencher campos MARC sem estabelecer uma estratégia para implementação do código, mas o fato é que ao inserir mais dados aos metadados, novas possibilidades de pesquisa e relacionamento entre registros são disponibilizadas e elas devem ser exploradas, proporcionando aos usuários outras formas de recuperação.

 

Muitas transformações são observadas no ambiente das bibliotecas, desde a exposição dos catálogos na internet, a crescente inclusão de conteúdos digitais, as mudanças na representação descritiva, a oferta de serviços, a interação com usuários e o compartilhamento de informações. Cabe aos bibliotecários identificarem essas questões e adaptarem-se da melhor forma possível, dimensionando os esforços necessários às políticas institucionais, investindo em treinamento da equipe, conhecimento de ferramentas e fornecedores parceiros, realizando gestão dos investimentos e capacitando seus usuários para que estejam aptos para explorar as possibilidades tecnológicas contratadas. Uma questão, porém não deve ser esquecida: a tecnologia é uma ferramenta meio (assim como o AACR2, RDA, MARC, CDD, CDU etc.) e não deve ser encarada como o foco principal de ação da biblioteca. A missão sempre foi o usuário e como atendê-lo, de acordo com suas demandas de fontes, recursos e informações. Utilizamo-nos dessas ferramentas para permitir a encontrabilidade dos registros, para que possam ser utilizados e assim estreitar os laços com nossos usuários e não como uma forma de apoderamento, utilizando jargão inerente à profissão e tornando a tarefa do usuário árdua ou querendo doutrina-lo para que seja um mini-bibliotecário, compreendendo nossos códigos de representação temática e descritiva. Devemos facilitar o uso dos recursos existentes na biblioteca, aproximando-nos dos leitores, prestando um serviço de informação, presencial ou virtual, sendo um farol num oceano caótico de informações abundantes, dispersas e desorganizadas. Isso já representa uma tarefa enorme, afinal, não é nada simples fazer o fácil! Cabe aos bibliotecários o acompanhamento das evoluções tecnológicas e como inclui-las em seu dia a dia, avaliando os esforços necessários (pessoal, recursos financeiros etc.) e o retorno obtido. Quando seremos Bibliotecas 3.0? Não é possível predizer, mas os avanços da tecnologia no sentido do linked data vêm sendo observados como o exemplo do projeto VIAF (Virtual International Authority File), que compartilha os catálogos de autoridades de diversas bibliotecas nacionais. Essa iniciativa colaborativa permite a construção de uma fonte referencial importante para identificação e reconhecimento de autoridades de diversas nacionalidades, diminuindo os esforços das bibliotecas de pesquisa para constituição de cabeçalhos de autoridades de pessoas, Instituições, locais geográficos etc. Ao trabalharmos dados estruturados, as possibilidades de emprego e compartilhamento de registros aumentam, permitindo explorar os avanços tecnológicos ao trabalho bibliotecário, usando a tecnologia a nosso favor, gerando novos produtos e serviços.

 

Bibliografia

 

BREEDING, Marshall. Next-gen library catalogs. New York : Neal-Schuman, 2010. 138 p. (The Tech set ; 1).

 

ESTADOS UNIDOS. LIBRARY OF CONGRESS. .Library of Congress announces its long-range RDA training plan (Updated March 2, 2012). 2012. Disponível em: <http://www.loc.gov/catdir/cpso/news_rda_implementation_date.html>. Acesso em: 26 dez. 2013.

 

FUNARO, V.M.B.O.; VICTORETTI, A.L.; UEHARA, B.C. Busca de informação por alunos do curso de Biblioteconomia e Ciência da Informação da FESPSP. CRB-8 Digital, v.1, n.1, p.32-42, jul. 2008. Disponível em: http://revista.crb8.org.br/index.php/crb8digital/article/viewFile/41/42. Acesso em 26 dez. 2013.

 


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LILIANA GIUSTI SERRA

Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP). Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Bibliotecária com especialização em Gerência de Sistemas e Serviços de Informação pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Profissional de Informação dos softwares SophiA Biblioteca, SophiA Acervo e Philos.