BIBLIOTECA PELO AVESSO


  • Quem nunca imaginou um outro final para uma história contada num livro, ou situações vividas em certos lugares e diálogos diferentes para as personagens? Inventadas ou reveladas, aqui as bibliotecas serão descobertas pelo avesso, de dentro das obras literárias.


OS INFORTÚNIOS E DELEITES VIVIDOS POR UM INSETO-BIBLIOTECÁRIO

Toda biblioteca tem ou deveria ter um bibliotecário! Toda biblioteca tem e não deveria ter insetos nos acervos. Mas toda biblioteca deveria ter um inseto-bibliotecário. A releitura do texto de Kafka me fez pensar sobre essa possibilidade de mutação passageira...

 

A Comissão de Supervisores Especialistas chegou para avaliação das melhorias da instituição baseadas nas medidas cautelares impostas para alguns cursos, em seus respectivos processos de regulação perante o Ministério. No contexto dessas visitas, as instituições de ensino superior (IES) são analisadas a partir de pontos indicados nos protocolos de compromisso, que dentre alguns aspectos, invariavelmente, se ocupam da inspeção da infraestrutura, produtos e serviços da biblioteca.

Todos os profissionais da área sabem que o processo de visita in loco, para fins de regulação, é rigoroso, levam-se dias para serem concluídas as demandas e envio dos despachos conclusivos. No caso das bibliotecas, a avaliação é constituída, basicamente, de análise sobre: o sistema de gerenciamento de acervos, sobretudo a consulta e a circulação dos materiais, com apresentação de dados quantitativos e qualitativos; se existem assinaturas de acervos digitais e de periódicos correntes; se existe uma política de desenvolvimento de coleções e se a política de aquisição de livros não está dissociada do Projeto Pedagógico dos Cursos; se as bibliografias básica e complementar estão em conformidade com os planos de ensino das disciplinas e atendem, no caso dos impressos, as porcentagens e proporções indicadas nos instrumentos norteadores [1]; número de funcionários e horários de funcionamento; garantias para acessibilidade; como e quais serviços são prestados ao corpo docente e discente, profissionais técnico-administrativos e demais funcionários além da comunidade do entorno: programas de orientação bibliográfica e educação de usuários, serviços de referência e informação, elaboração de fichas catalográficas para monografias de conclusão de cursos de graduação e de pós-graduação, disponibilização de manual de normalização documentária conforme as normas da ABNT, projetos de ação cultural, dentre outros.

Todos os profissionais da área da Biblioteconomia, especialmente os que atuam em bibliotecas universitárias, em algum momento de sua trajetória irão se deparar com uma inspeção de supervisão como esta, que via de regra não deveria causar temor, pelo contrário apenas mostrar em toda sua pujança e vigor as melhorias que foram empreendidas. Mas com Gregorius Sibilino foi diferente. Vale dizer que raros serão os bibliotecários que passarão por uma experiência como esta. Há que ser dito que a própria Comissão de Supervisores ficou desconcertada ao chegar na biblioteca e ser recepcionada por um grande e largo inseto que saíra duma fresta do balcão de atendimento e que se punha a falar:

- “Boa ta-tarde, senho-ores! Desculpem-me se, se causei algum susto ou infortúnio quando saí por aquela fissu-sura, mas foi difícil consegui-guir fi-ficar em uma po-posição confortá-tavel com essa nova-va for-forma que assu-sumi alguns minu-nutos atrás, por ocasião de honrosa vi-visita”, disse Gregorius com uma certa dificuldade ao respirar.

A Gregorius não restou muito tempo para compreender sua nova condição após reduzir-se a um rastejante e desengonçado inseto. Tudo lhe parecia turvo, distante e complexo. As sensações eram muitas e nenhuma. Não lhe correu, pela pequena cabeça, nenhum pensamento além da obrigação de atender com afinco e presteza aos membros da comissão, que certamente relatariam o quão bem estruturada era aquela biblioteca e o exemplo que seu responsável deveria ser para toda a comunidade. Nada haveria além disso e precisava estar à altura da posição que ocupava, embora isso lhe custasse um enorme esforço.

Os dois especialistas se entreolharam. Apesar da baixa luminosidade e umidade do ar acima do indicado, numa breve recapitulação sobre suas impressões e sensações iniciais em relação ao que a biblioteca suscitava de imediato, um deles dissera ao outro que antes de adentrarem no vestíbulo tinha visto de relance o inseto, quer dizer, o bibliotecário, realizar um movimento abrupto para que pudesse ficar em pé. Parecia mesmo desajeitada a maneira como o inseto se colocara em equilíbrio sobre numerosos pares de pernas que, bem observadas, eram lastimavelmente finas em comparação com o volume do restante do corpo. O relato do especialista 1, de certa forma, tranquilizara o especialista 2, um profissional iniciante, conferindo à situação uma provável sensação de normalidade, como se o fato não fosse tão incomum às visitas burocráticas dessa natureza.

Há alguns meses, Gregorius, reconhecido pelos pares como um profissional dedicado e comprometido, já havia preparado relatórios e toda uma documentação específica que seriam alvo de questionamentos dos especialistas. Contudo, o processo que  implicara essa organização causara no bibliotecário alguns pequenos incômodos: coceiras e alergias pelo corpo todo somadas a uma sensação de compressão de sua cabeça, que causavam-lhe dores e certos desconfortos.

O inseto parecia se estalar o tempo todo e por inteiro e a cada pequeno movimento de sua cabeça diminuta, colada junto do dorso. Apesar de aparentemente dura, sua couraça parecia flexível pois permitia uma certa curvatura da metade do corpo para cima e um posicionamento elegante para continuidade do diálogo. Precavido, [o inseto] sabia sua couraça ser um forte escudo e suas quatro asas, fechadas em posição de repouso, um outro poderoso recurso de auto-defesa, senão, e também, para fuga. Perante os especialistas o inseto posicionara-se de tal forma sobre a extensão do balcão que ficou clara uma certa preocupação e proteção do seu ventre sensível. Mantinha as antenas atentas e a cabeça inclinada de forma a observar de forma respeitosa os olhos dos dois supervisores. Após auxiliares da biblioteca acionarem uma iluminação mais adequada ao ambiente, os especialistas perceberam que Gregorius, ficara imóvel diante dos dois senhores, como se esperasse uma ação destes para esboçar contrarresposta ou argumentação diante do que fosse solicitado de imediato.

- “Primeiramente, boa tarde senhor Gregorius”, disse o especialista 1.

- “Pe-perdoem-me nov-a-mente pelo sus-susto, senho-ores”, respondeu o inseto.

- “Susto algum senhor inset... (interrompeu e corrigiu a fala) senhor Gregorius! Vamos em frente!”, respondeu o especialista 2.

- “Viemos apenas conferir a documentação relacionada ao setor pelo qual você é responsável”, prosseguiu o primeiro.

Gregorius baixou sua posição cautelosa. Indicou, com uma das antenas, a posição da pasta com os relatórios e sua carteira de identidade profissional, confeccionada pelo conselho de classe, um dos documentos verificados pela comissão para conferir legalidade da atuação do bibliotecário naquela instituição.

O inseto desculpou-se novamente pois não poderia ele próprio apresentá-los pelos próprios punhos. Naquele mesmo instante, permitiu-se refletir sobre a ausência de suas mãos, sua nova condição e espécie. Os especialistas olharam rapidamente para os documentos alocados numa base lateral do balcão principal, sem se moverem. Subitamente a iluminação se apagou. Qual não foi a surpresa de Gregorius ao ser batido numa sapatada!

Prensado sobre a superfície do balcão o bibliotecário não sabia exatamente o que havia ocorrido... ficara zonzo, desnorteado, parecia extenuado e entregue à própria sorte. Lembrara-se de uma recente leitura na qual fez anotações dum trecho: “Pode-se no momento estar incapacitado para trabalhar, mas essa é a hora certa para se lembrar das realizações passadas e para se pensar que mais tarde, uma vez superados os obstáculos, sem dúvida se vai trabalhar com mais afinco e forças mais concentradas”. Acrescia, titubeante, em suas notas pessoais: contém ironia (?).

Sabia que sob sua nova forma física dificilmente seria aceito no contexto do trabalho a que tantos anos se dedicou. Após a metamorfose tinha consciência de que se unira às demais pragas indesejadas na biblioteca (e também em outros ambientes profissionais ou de descanso). Gregorius pensara nos processos de desinsetização que fizera serem realizados de forma sistemática contra os chamados “agentes biológicos” que deterioram os acervos bibliográficos: os fungos, as traças, as brocas, cupins, baratas, roedores, toda uma comunidade malquista. Gregorius se tornara um tipo híbrido: um inseto-bibliotecário. Dali em diante, por hora esmagado, refletia e vivia um repulsivo dilema pelo que outrora causara a tantos outros seres aos quais sua condição, agora, acabava de lhe alinhar. Enquanto ocorriam-lhe tais pensamentos, rastejava deixando aqui e ali vestígios da substância pegajosa e adesiva das suas passadas.

Por força das circunstâncias que causaram a metamorfose, por tal ironia ou maestria de Deus, o inseto-bibliotecário se tornara, a um só tempo afortunado e condenado: vivia o paradoxo de ser repelido do contexto de sua atuação profissional ao mesmo passo em que passava a ter todos os livros à sua disposição, sem um contrato de trabalho. Sua (sub)existência e experiência, porém, se daria e se deu, dali em diante, numa relação construída por entre as frestas das paredes e dos mobiliários, por detrás das portas dos armários, por debaixo das estantes, escondido, dependente dos livros abertos, esquecidos pelos leitores.

Por mais que possa ser definido seu destino como uma condenação, dali em diante se permitiria o prazer do texto de uma outra forma: passearia por sobre suas páginas, as sentiria pelo toque, reconheceria os livros e os identificaria pelo olfato. Permaneceria sempre à espera de alguém que partilhasse em voz alta sua leitura e ficaria sob escuta ao pé das mesas dispostas para os consulentes. Durante as palestras dos notórios professores-pesquisadores permaneceria debaixo do púlpito, camuflado. Sob quaisquer ameaças correria pelos trilhos das cortinas ou ziguezaguando pelas paredes e teto. Pobre Gregorius?!

Naturalmente, tinha agora sobre o corpo um poder muito diverso do que antes. Para sempre, um inseto-bibliotecário, um verme intelectual, amante dos livros e da leitura, que se alimentaria também das folhas que percorreria devorando cada letra como se fosse a primeira; viveria no interior duma biblioteca universitária temendo todos os dias que os produtos químicos pudessem encerrar seu deleite ou que outra visita in loco, pesadelo em todas as noites que passara acordado vagando pelo acervo, pudesse fazê-lo novamente um burocrata.

Gregorius, o inseto-bibliotecário, apesar de tudo que implicara sua mutação, apesar de todo coberto de poeira sobre as costas, apesar de arrastar consigo fios, cabelos, restos de comida no corpo, ama estar ali, no avesso e por dentro da biblioteca, liberto, luminoso, vibrante, vivendo sua metáfora kafkaniana. 

31 de janeiro de 2021
01 de fevereiro de 2021

Notas:

[1] Disponíveis em: http://inep.gov.br/instrumentos

Referência

A metamorfose, obra de Franz Kafka, originalmente publicada em 1915.

 


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MARCOS PAULO DE PASSOS

Bibliotecário com experiência e participação em projetos e pesquisas realizados no contexto de bibliotecas educativas. Bacharelado em Biblioteconomia pela UNESP/SP, com Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação pela USP/SP.