PRÁTICA PROFISSIONAL E ÉTICA


  • A prática profissional e a ética voltadas para a área da Ciência da Informação.

PRÁTICA PROFISSIONAL E ÉTICA: BIBLIOTECÁRIO PRIVATIZADO: IDENTIDADE E AUTOESTIMA.

A possibilidade de se estabelecer a polêmica é proporcional ao sentimento de incômodo que uma mensagem produz nos destinatários preferenciais ou em quem acidentalmente a lê. E o propósito desta coluna é promover a difusão de textos que possam abrir, alimentar e transformar ideias que ao longo do tempo parecem ter se enraizado na categoria bibliotecária brasileira a ponto de cristalizar a inércia política atual.

 

E uma ideia foi cristalizada e sobre ela pretendo falar aqui! A que tenta definir o bibliotecário, desde os anos da década de 1960, como possuidor de uma única identidade profissional. Tal ideia foi fortalecida ao longo dos últimos anos, até o final do século XX, pela existência do “currículo mínimo” como modo de compor o conteúdo para a formação de bacharéis, mas que se estende no século XXI, ainda que trabalhe-se com a noção de “diretrizes curriculares”.

 

Embora houvesse várias formas de competição dentro do espaço social e econômico do país, determinando perfis distintos de bibliotecários, não se viu esses perfis estabelecerem, ao longo de todos esses anos, as especialidades profissionais, como se deu em outros campos como o da Medicina, Engenharia e mesmo Administração, que lidam em seu cotidiano com casos ou públicos distintos.

 

O experimento dos Grupos especializados nas associações de bibliotecários ou as Comissões especializadas na FEBAB, com poucas exceções, murcharam na medida em que os profissionais foram desprezando as suas entidades. Efetivamente, não há no país associações de bibliotecários por ramos de especialidade. Ouve-se, porém, a menção a uma tipologia profissional que suscita a ideia da necessidade de formação direcionada para os respectivos ramos identificados por ela, assim como especificidades no mercado de trabalho que requereriam na fase de formação na graduação bacharelados de perfis distintos, assim como a formação de licenciados em Biblioteconomia. Segundo essa tipologia há no país bibliotecários públicos (que prestam serviços para as comunidades de um bairro, município ou estado), bibliotecários escolares (que prestam serviços para as comunidades escolares, para atender a especificidade dos projetos pedagógicos de um estabelecimento de ensino), bibliotecários universitários (que prestam serviços para as comunidades universitárias, constituídas num ambiente integrado de ensino de graduação, pós-graduação e pesquisa), bibliotecários empresariais (que prestam serviços para as comunidades formadas em torno da produção de atividades economicamente lucrativas)  e bibliotecários governamentais (que prestam serviços para as comunidades constituídas pelos agentes estatais nos poderes executivos, legislativos e judiciários e nos âmbitos federal, estadual e municipal).

 

Entretanto, quando se olha mais detidamente o que ocorre cotidianamente como realidade de mercado de trabalho, parece haver, de fato, uma categoria de profissionais bibliotecários cujas ações têm duas dimensões: bibliotecários privatizados em que seus empregadores os tomam como agentes de atividades fins específicas, em que contariam como centrais os interesses estritos desses empregadores ou de seus prepostos dirigentes e atingem os tipos escolar, universitário, empresarial e governamental e bibliotecários coletivizados, cuja missão realizada pelas Bibliotecas públicas, constituídas como prestação de serviço social pelo estado, estão igualmente obrigados dar cumprimento aos interesses políticos dos dirigentes de estados e municípios.  

 

Possivelmente, essa matriz política que faz do bibliotecário, majoritariamente, o empregado dos interesses discricionários dos dirigentes públicos privatistas e dos proprietários de negócios privados, não foi devidamente interpretada pela escola de biblioteconomia e pelos próprios bibliotecários brasileiros. Essa lacuna, que é de natureza política, ao mesmo tempo em que impede a categoria profissional de sentir a necessidade de articular-se com base na especificidade de uma virtual especialidade profissional, também impede que os bibliotecários constituam uma escola de biblioteconomia que os prepare para atender a mercados correspondentes a essas especialidades.

 

E por conta dessa má leitura, parece configurar-se como quase natural uma única forma, com pequenas nuances, de compor a grade curricular do Curso de graduação em Biblioteconomia no Brasil. O resultado disso é que muita gente (estudantes atuais e egressos) reclama de uma má qualidade e inadequado ou insuficiente conteúdo ministrado na formação do bibliotecário. Porém, a essa reclamação nem sempre segue   um discurso capaz de propor os aperfeiçoamentos devidos. Daí a crise de identidade que há muitos anos se instalou no interior da categoria profissional (um estéril ser ou não ser bibliotecário) e uma paralisia da representação política da escola e dos docentes de Biblioteconomia. Paralisia que se manifesta na falta de força da entidade que representa os docentes e os cursos de Biblioteconomia brasileiros – antes a ABEBD, hoje a ABECIN ‒ o que, certamente, não se dá por desinteresse de seus dirigentes, mas pelo individualismo dos docentes e dos cursos de Biblioteconomia.

 

Parte desse individualismo pode ser creditada ao fato de que as políticas governamentais a partir dos anos 1970 alimentaram a ideia de que o desenvolvimento do país requeria um grande acento na organização da informação científica e tecnológica - ICT e que bibliotecários deviam ser formados para atuar nesse campo. Na medida em que, paralelamente, a ICT envolveu progressivamente Governo e Empresas e, mais tarde, Governo, Empresa e Universidade houve um certo ônus para os Cursos de Biblioteconomia. Eles foram cada vez mais sendo forjados como ambiente  “multidisciplinar”, constituídos por docentes originários de vários campos de conhecimento; com isso, maior se fez a “babelização” do discurso e da pedagogia biblioteconômica, acentuando a crise de identidade profissional, o enfraquecimento da Associação dos docentes e dos Cursos de Biblioteconomia e, significativamente, se fortalecendo a queda na autoestima de alunos e egressos desses Cursos.

 

Trocando em miúdos, é urgente uma mudança nesse horizonte. Torna-se necessário que as especialidades profissionais do bibliotecário sirvam de norte para sua ação política e para a reorganização do ensino de Biblioteconomia no Brasil.


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FRANCISCO DAS CHAGAS DE SOUZA

Docente nos Cursos: de Graduação em Biblioteconomia; Arquivologia; Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação da UFSC; Coordenador do Grupo de Pesquisa: Informação, Tecnologia e Sociedade e do NIPEEB