[Julho/2004]
A forma de condução deste processo está equivocada e
o governo age de forma irresponsável ao correr o risco de acirrar os ânimos e
transformar o rio da integração nacional no rio da discórdia nacional [...]
Seria fundamental que o presidente Lula retomasse a sua promessa de campanha
quando afirmou que o projeto de transposição não iria prosperar sem um amplo
diálogo e que passássemos a construir um consenso progressivo...
(Luís.Carlos
da Silveira Fontes, Secretário Executivo do Comitê da Bacia Hidrográfica do São
Francisco).
O tempo esquentou cá por estes lados do São
Francisco e no início do mês de agosto o governo recuou temporariamente (leia-se
temos eleição daqui a sessenta dias) da sua disposição autoritária da questão
transposição. Não se trata da reinvenção da terra, nem da salvação do homem, mas
a similitude da existência de uma dupla cujo um chama-se Abel provoca um
determinismo bíblico afinal o Rio São Francisco, objeto do filme aqui proposto
para análise, encerra uma perspectiva de vida e morte tal qual os personagens
religiosos.
Abel e Sidó, ele remeiro de quatro costados,
conhecedor dos cantos e encantos do eflúvio, ela canoa feita de uma só peça de
madeira, o que lhe confere certa vaidade, conhecedora de estórias e histórias, e
velha companheira o que a torna inseparável, são os personagens principais desse
híbrido roteiro de ecologia e romance em que partilham a vida e a morte de um
dos principais rios brasileiros.
Sidó, a velha e boa canoa, sabe tudo do São
Francisco, e cabe a ela assumir o comando do filme. Embora a trama conduza para
um insosso romance entre atores pontuados por uma visibilidade global. Aí que o
filme se perde. O que inicialmente aparenta ser um filme engajado, uma proposta
de defesa da revitalização do Rio, não passa de um ensaio. Nas primeiras cenas
um líder ribeirinho (Severo D'Acelino) defende a vida do Velho Chico, exortando
a população a lutar pela preservação sob pena de no futuro não mais ser possível
a pesca e a navegabilidade, o que de certa forma já acontece dependendo da
região.
Na contramão dessa defesa aparecem as lentes de
Henrique, fotógrafo carioca, que enchem de glamour as publicações do
Sudeste/Sul, com fotografias que mostram um rio resplandecente, um verdadeiro
espelho d'água. O problema é o que está acontecendo por baixo desse espelho. A
luta política que se trava entre o governo que quer a transposição de um rio
agonizante, e ambientalistas que defendem que antes se faça a revitalização. É o
embate entre o imaginário das fotografias e a dura realidade da população
ribeirinha.
Esperava-se por isso um filme que confrontasse a
insistente cantilena política a favor da transposição e a discussão acadêmica
pautada em estudos ambientais apontando para a necessidade de revitalização. Mas
o cinema brasileiro vive outra fase, e a ideologia ficou para trás (o obvio
ululante). Portanto o filme desemboca (já que falamos de rio) em uma busca
romanesca de um naufrago. O barco em que o fotógrafo que retrata o espelho
d'água viaja é traído por um banco de areia, o que determina a condição ruim de
navegabilidade. Mas tal fato não é explorado.
O naufrágio dá o pretexto para cenas em que aparecem
histórias, fé, milagres crendices, lendas, superstições, mistérios e folclore do
povo ribeirinho e da região. É a resistência cultural, tão profusamente
arraigada no nordestino e tão incompreendida pela elite cultural das outras
regiões (excluindo-se o Norte).
A agonia do Rio São Francisco, em espelho d'água
cada dia mais quebrantável, faz reflexo no cotidiano da população: trechos não
navegáveis - prejuízos para canoeiros e balseiros; diminuição na quantidade de
peixes - prejuízos para pescadores; assoreamento - prejuízo para o meio
ambiente. O filme mostra como a deterioração do Rio tem interferido inclusive na
crendice popular - o pagamento de promessas com cabaças que tem um destino e
devem ser recolhidas e levadas a uma determinada Igreja.
Enquanto isso, nas publicações e no Planalto Central
o São Francisco é um espelho d'água que não reflete o que está acontecendo. Mais
poderia se esperar desse filme, pois isso o próprio dá a entender. Mas é um
filme que merece ser visto.
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Espelho d'água - uma viagem pelo Rio São
Francisco. Brasil. 2004. Direção de Marcus Vinícius César. Com Fábio
Assumpção, Regina Dourado, Francisco Carvalho, Carla Regina e Severo
D'Acelino.