LITERATURA INFANTOJUVENIL


PAI, ME CONTA UMA HISTÓRIA? QUEM, EU!?

As pessoas que me conhecem sabem que, para mim, contar histórias é uma terapia, pois essa atividade desenvolvo com muita alegria e prazer.

Numa conversa com um pai interessado em contar histórias aos seus filhos, ele me perguntou:

- "Por que não é comum um pai contar histórias?"

A minha resposta poderia ser superficial e tender para as corriqueiras respostas - "a mulher é mais maternal e isso combina com as histórias...", mas parei e de repente começou a passar um filme em minha cabeça. Lembrei-me da minha infância, do meu avô em sua charrete, e do meu pai em sua bicicleta, contando histórias.

Voltei aos diferentes encontros com escritores que promovi e estava lá, entre outros, o Luis Camargo e Hardy Guedes, contando histórias.

Recordei-me que na história das bibliotecas infantis brasileiras, consta que as crianças cercavam Monteiro Lobato para ouvi-lo contar histórias que escrevia.

Lembrei-me do meu amigo Rovilson José da Silva nas escolas municipais em Londrina, narrando inesquecíveis histórias.

Em seguida imaginei o Oswaldo Francisco de Almeida Junior (mantenedor deste site) inventando histórias com seus filhos (há mais de 20 anos) pelas ruas de São Paulo, de personagens que saiam das rachaduras das calçadas (essa história foi ele que me contou).

Imaginei também o meu oftalmologista William Procópio dos Santos contando histórias para seus filhos fazendo sombras na parede do quarto (essa história ele me contou há muito tempo).

De repente, como num passe de mágica voltei em 1998 quando iniciei meu mestrado em Marília e via meu amigo Paulo Henrique Coiado Martinez, todas as noites, contando histórias para a pequena Mariana (isso mesmo, a garota que escreveu o texto comigo no mês de janeiro).

Nesse instante percebi que ele, o Paulo Henrique, pode mais do que eu responder a pergunta que me foi feita:

"- Por que não é comum um pai contar histórias?"

Assim, a coluna desse mês será uma entrevista com um pai contador de histórias e esperamos que ela (a coluna) e ele (o pai) possam motivar outros homens a entrarem no saudável mundo de histórias, fantasia e imaginação.

SUELI: Contaram histórias para você na infância?

PAULO: Histórias de livro, propriamente, não. Minha família é grande (somos em dez irmãos) e meu pai foi um grande contador de "causos", sempre narrando fatos extraordinários que, geralmente, teriam ocorrido com ele. Mas eram histórias contadas à mesa, com toda a família reunida ou então quando tínhamos visitas. Que eu me lembre, meu pai nunca contou histórias exclusivamente para mim, como na hora de dormir, por exemplo. Eu sou quase a "rapa do tacho" e eram minhas irmãs, e não meus pais, que cuidavam de mim e de meu irmão mais novo. Passei a maior parte da infância na área rural e minhas irmãs contavam muitas histórias orais, do folclore ou dos contos de fadas (do jeito que elas lembravam, eu acho), pois não tínhamos acesso a livros. A maioria das histórias, porém, eu ouvia sozinho, através de uma "vitrola". Não sei a qual dos meus irmãos pertencia, mas havia em casa uma "vitrola" (vermelha, eu acho), daquelas portáteis, se não me engano modelo "Sonata", e uma boa quantidade de discos de histórias infantis, da série "Disquinho" (que foi relançada recentemente em CD) e alguns discos antigos, tipo Long Play, daqueles pesadões de 78 rpm. Havia a história do Junco e o Carvalho, da Formiguinha e a Neve, do Burro e o Grilo, Peter Pan, entre outras. Eu me lembro até hoje do prazer que essas histórias me davam, bem como o pavor que eu sentia ao ouvir a história do Barba Ruiva. Todas as noites uma de minhas irmãs me punha para dormir, ligava a vitrola e me deixava no quarto ouvindo as histórias.

SUELI: O que motivou você a contar histórias?

PAULO: Primeiro, porque eu gosto. Não sou um grande contador de "causos" como meu pai, apesar de já ter contado para a Mariana a maioria das histórias que ouvi dele e outras que aconteceram comigo (juro!), mas minha imaginação e memória não são tão prodigiosas como as de meu pai, por isso tenho que recorrer mais aos livros. Ademais, eu acho importante esse tipo de contato entre pais e filhos. Você cria uma cumplicidade e consegue estimular na criança a imaginação e o hábito da leitura de forma natural. É lógico que demanda muito boa vontade, pois não é todo dia que você está a fim de contar histórias. Mas o resultado é compensador. Eu tenho duas filhas, a Mariana, com oito anos e pouco, e a Paula, com um ano e pouco. A Mariana já foi infectada pelo vírus da leitura, tanto que quando a gente vai passear no Shopping (aqui em Marília também tem, viu!?), o local preferido dela é a livraria. Ela dificilmente pede para comprar brinquedos ou roupas, mas é raro o dia que ela não peça um livro. O maior castigo que podemos impor-lhe é colocá-la para dormir sem ouvir ao menos uma história. Ela diz não saber ainda qual outra profissão terá, mas escritora será com certeza. A Paula, pelo jeito, vai pelo mesmo caminho. Ela já tem seus próprios livros (repassados pela Mariana, após criteriosa e bem cuidada seleção) e adora ficar olhando as figuras e "adivinhar" qual virá na próxima página. Ela imita os sons dos animais e objetos e aceita ficar pacientemente deitada na cama ou no tapete observando as ilustrações. Acho que estamos cumprindo bem nossa missão.

SUELI: Você começou a contar histórias apenas após o nascimento da sua primeira filha?

PAULO: Não. Acho que aprendi a gostar de contar histórias para crianças com a Marisa (para quem não nos conhece, a Marisa [Luvizutti] é minha esposa). Desde a época de namoro ela esteve envolvida com literatura infantil (com certeza por influência de uma chefe "chatíssima" que ela teve no SESC: você). Nós sempre gostamos de ler, e como temos muitos sobrinhos, passar a contar histórias para eles foi uma coisa natural. A Marisa, inclusive, tinha muitos livros infantis que ela adquiriu para "consumo próprio", que depois foi repassando para a sobrinhada e para a Mariana. Era muito gostoso realizar atividades culturais com as crianças da família. Chegamos inclusive a fazer teatro de fantoches, com palco construído de caixa de geladeira e tudo.

SUELI: Há algum segredo para ser um contador de histórias? É preciso fazer um curso?

PAULO: Eu não sou propriamente um contador de histórias, sou mais um leitor em voz alta. A Mariana, inclusive, não deixa muita margem para minha "verve criativa", pois quando estou lendo histórias, ela não gosta sequer que eu altere o tom de voz de acordo com o personagem, por exemplo. Agora, nas histórias orais, acho que é necessário um pouco de jeito, sim, porque senão a história fica sem graça e a criança perde o interesse. Eu acho recomendável que as pessoas que tenham interesse em realmente contar bem uma história façam um curso de "contação". Há muitas pessoas sem o mínimo "senso de noção" que não se tocam que são sem graça e não entendem porque não agradam as crianças. Posso inclusive recomendar uma ótima "dadeira" de cursos: você. Tem gente que nasceu para a coisa mesmo, e os outros devem se espelhar.

SUELI: Como você escolhe o livro/história que irá ler/contar?

PAULO: Felizmente, temos uma amiga que é especialista em literatura infantil e que muito nos ajuda na tarefa de selecionar bons livros para as crianças (novamente: você!). Eu acho que, além de buscar informações sobre bons autores com quem entende do riscado, tem que haver uma empatia entre o contador e o livro. O livro infantil deve ter um texto inteligente, que instigue a imaginação e a curiosidade das crianças. Eu procuro, sempre que possível, respeitar os gostos da Mariana, e somente "sugiro" que ela escolha outro título quando considero o livro muito ruinzinho.

SUELI: Eu conheço você há muito tempo. Sei que é um homem com os "pés no chão", mas para ser contador de histórias é necessário ter a "cabeça nas nuvens"? Isso é mentira ou contradição?

PAULO: Não é mentira nem contradição - é um paradoxo. Acho que a leitura permite que a gente ande nas nuvens, sem sair do chão. Não podemos nos afastar da realidade, mas através da leitura podemos encontrar um "resting place", uma boa válvula de escape para as agruras do cotidiano. Quando a gente conta uma história deve se permitir "viajar" por outras paragens e embarcar, junto com o ouvinte, nas aventuras narradas, caso contrário não há sentido em se abrir um livro. Eu gosto muito de literatura infantil e, muitas vezes, me empolgo tanto que continuo lendo o livro mesmo depois que a Mariana adormece (principalmente as histórias do Monteiro Lobato).

SUELI: Qual sua opinião a respeito do homem deixar, prioritariamente, para a mulher contar histórias? Ou isso não ocorre?

PAULO: Acho que essa pergunta está diretamente relacionada com a pergunta seguinte. Em casa não ocorre tal fato (eu sou muito bem mandado). Sempre que possível eu faço questão de contar histórias para as crianças. Mas acho que isso existe, sim. Talvez pelo fato de a mãe dar banho na criança, trocá-la e colocá-la para dormir, acabe sendo determinante para que, na seqüência, a própria mãe conte a história para a criança dormir. Além é claro, de que muitas vezes a própria criança tem preferência pela mãe.

SUELI: A última frase do livro - "Se as coisas fossem mães" de Sylvia Orthof, é assim: "tem até pai que é 'tipo mãe' - esse, então é uma beleza". Qual sua opinião a respeito disso? Será que pai contador de histórias tem que ser "tipo mãe" ou isso é preconceito?

PAULO: Eu acho que essa frase encerra uma realidade. A base cultural da nossa sociedade é o patriarcalismo e ainda existem homens babacas que acham que contar histórias e trocar fraldas não é papel de macho. Felizmente essa mentalidade está mudando. Hoje em dia, há muitos casais que conseguem dividir de forma equilibrada os afazeres e responsabilidades domésticos, tornando bem mais fluida essa divisão do papel da mãe e do pai. Os pais estão mais participativos e as mães mais "mandonas". Eu me considero um pai "tipo mãe", assim como considero a Marisa uma mãe "tipo pai", sem que deixemos, com isso, de conservar para nossas filhas os referenciais masculino e feminino. Na minha concepção, as tarefas, diversão e obrigação devem ser divididas. Eu me sentiria extremamente frustrado se tivesse participado menos na criação e educação de minhas filhas. Atualmente vivo esse drama, porque moro em Marília e trabalho em São Paulo. Fico fora de segunda a quinta e não posso dedicar à minha família o tempo que eu gostaria e elas merecem. Em contrapartida, e, em função de minha ausência, a Marisa acaba assumindo, em muitos casos, responsabilidades que poderiam ser consideradas exclusividade do "homem da casa". São as vicissitudes da modernidade.

Voltando a questão - "Por que não é comum um pai contar histórias?", fico boquiaberta e emocionada com as respostas do Paulo Henrique e confesso que não sei "arrematar" esse texto e, então pergunto "Será que é preciso?"

Um beijo e Boa Leitura para você que é mãe (maio mês das mães) e para você que é pai do "tipo mãe".


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.