[Novembro/2003]
Silvia Bortolin Borges
(co-autora)
Mesmo sem perceber narramos histórias
cotidianamente, isto por meio de uma piada, de uma amenidade no dia-a-dia, da
descrição de um capítulo da novela, de um "causo", de um desabafo no portão da
vizinha, de um relato na terapia, de um jogo de RPG e de uma conversar na
Internet.
Apesar da inovação nas formas de se narrar
histórias, essa atividade continua tendo na sua essência, a preocupação de
trabalhar a afetividade, a emoção e o imaginário do ouvinte.
E a quem cabe o papel de contar histórias? Em que
lugar deve-se contar uma história? Quando se deve contar uma história? A
resposta é: todos devem contar histórias, em todos os lugares e
sempre.
Para ser um contador de histórias, não é necessário
ter dom, como muitas pessoas afirmam, mas é necessário sensibilidade e poder de
encantamento. Assim, para se contar uma história sugerimos:
· O conhecimento antecipado do texto (escrito ou
imagético, impresso ou eletrônico), observando os elementos que o compõe,
vivenciando as emoções e familiarizando-se com os personagens;
· A escolha de um texto que dê prazer, para que se
possa transmiti-lo com prazer;
· A
utilização de "senhas" para iniciar e terminar a história. Alguns exemplos:
NO INÍCIO
"Era uma vez ... "
"Há
muito tempo atrás ..."
"No tempo em que os bichos falavam ..."
"No tempo
em que a galinha tinha dentes..."
"Numa floresta muito distante
..."
NO FINAL
Entrou por uma porta
Saiu
pela outra
Quem quiser que conte outra
Entrou por uma porta
Saiu pela
outra
Mande el rei, meu senhor
Que me conte outra.
Entrou pelo pé de um
pinto
Saiu pelo pé de um pato
Mande el rei, meu senhor
Que conte
quatro.
Minha história acabou
Um rato passou
Quem o pegar
Poderá sua
pele aproveitar.
E assim terminou a história...
ALGUMAS DICAS PARA UM CONTADOR DE
HISTÓRIAS
-
Haja com
naturalidade;
-
Opte por ler ou por contar a história,
sem mesclar;
-
Não esconda as palavras difíceis. Se o
ouvinte for criança fale a palavra naturalmente, caso seja um objeto ou
personagem fora de contexto, brinque com a palavra antes de iniciar a história.
Ex: urinol;
-
Evite utilizar a linguagem no
diminutivo, "apequenando" o ouvinte; Ex: Criancinhas, eu vou contar uma
histórinha deste livrinho, mas antes vamos cantar uma musiquinha;
-
A história não deve ser utilizada para
dar lição de moral ou para corrigir comportamentos;
-
Não apresente apenas histórias
"fechadas", pelo contrário utilize-se de histórias com facetas contraditórias.
Ex: Branca de neve (branca e bonita) Menina bonita do laço de fita - Ana Maria
Machado (negra e bonita);
-
Quando possível utilize músicas e
cantigas, porque elas seduzem as pessoas em qualquer faixa de
idade;
-
Apresente diferentes versões de uma
história, porém antes de iniciar, informe ao ouvinte, pois em especial as
crianças menores, não admitem alterações;
-
ENFIM: faça do ato de contar histórias
um momento prazeroso.
SUGESTÃO DE LEITURA
COELHO, Betty.
Contar histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática,
1986.