ARTIGOS E TEXTOS


MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO: UM CONCEITO ATUALIZADO

Nossa relação física, concreta, sensorial com o mundo é muito pequena. É quase inexistente se o parâmetro for a infinita possibilidade de contatos e a enorme gama de espaços a serem conhecidos. Basicamente, nosso contato resume-se aos trajetos e caminhos que usamos para chegar ao local de trabalho e à escola, no caso dos que estão estudando.

Nossos gostos nos remetem para a seleção de determinadas formas de lazer e de entretenimento. Há os que preferem o cinema, outros o videogame, outros o teatro, outros ainda a música; também há aqueles que optam pelas exposições de artes plásticas, de passeios pelos parques das cidades (quando não foram destruídos em nome do progresso ou de necessidade de espaços para moradia, etc.), de caminhadas, de viagens. Até mesmo a leitura pode ser incluída no rol dessas escolhas.

Conversar com colegas em bares ou restaurantes é uma opção frequente. Quando da decisão pelo local em que se dará o encontro, é comum que as pessoas se entreolhem buscando no outro a solução para o impasse. A indicação recai, invariavelmente, no local de sempre, o mesmo, aquele ao qual já se está habituado.

Assim, retornando, nossa relação física, concreta com o mundo é mínima. Pouco conhecemos dele. Mais um agravante: os caminhos que cotidianamente percorremos, o fazemos em um determinado período, em um horário fixo, quase sempre o mesmo. Desconhecemos como é o local trilhado em outros horários. Não sabemos, também, quem são os moradores, o que fazem, o que pensam da rua, do bairro, por que vivem ali, etc. Nada sabemos deles. Possuem cachorros (além daqueles que vemos ou ouvimos), gatos, tartarugas; são felizes; passam por problemas?

Realizamos nosso itinerário até mesmo sem o perceber conscientemente. Sou levado, de maneira automática – pensando no que me espera o dia, ou nos problemas que enfrento no momento, ou sei lá em quê –, pelos caminhos que trilho sem prestar atenção ao entorno, às ruas e aos acontecimentos daquele instante.

Os que mais viajam, mesmo assim, acabam por conhecer algumas (poucas) cidades e, nelas, passam poucos dias, reduzindo, quase sempre, suas visitas aos espaços dedicados aos turistas e estes, como é sabido, não representam nem refletem a vida dos que lá habitam.

Nas ruas que percorremos usamos a mesma calçada; em casa, sentamos no mesmo lugar nas refeições, na mesma poltrona, dentre as possíveis, na sala; dormimos no mesmo lado da cama – e outras coisas que fazemos sempre de modo idêntico. Olhamos o mundo e nos relacionamos com ele a partir de um mesmo ponto de vista.

Se nosso contato físico com o mundo é tão pequeno, como podemos conhecê-lo?

Nós o conhecemos pelos olhos dos outros; nós o conhecemos mediado pelos olhos dos outros.

Sei de fatos que ocorreram a pouco, do outro lado do mundo, pela televisão, pelo rádio; às vezes, pelo relato de um amigo ou por ter ouvido a conversa entre dois transeuntes, passageiros de ônibus, desconhecidos para mim. Os costumes, alimentos, danças, etc., de povos antigos, eu deles fico sabendo pelos livros, em sala de aula, em filmes históricos. Um agravante: muitas vezes apenas por indícios, por suposições.

Experiências de vida nos são relatadas por pessoas próximas, por biógrafos, nos depoimentos de pioneiros, de idosos, etc.

Somos dependentes dos outros na construção de nosso conhecimento. O mundo nos é dado – sempre parcialmente – a partir dos outros, na relação com os outros. Vale a pena dizer: a partir da compreensão, do entendimento que o outro faz do mundo. Ele determina a forma, os aspectos, os limites de cada fenômeno.

O mundo que nos é mostrado, não é um reflexo, mas uma refração (assim como a informação).

Isso significa que sempre veremos o mundo de maneira deformada, a partir desses olhares? A chave é essa: são vários olhares e, estes, nos permitem confrontá-los, estabelecer relações, identificar interesses. O “nosso” olhar crítico possibilita uma aproximação com o real (este é um termo complexo, mas, de maneira simplista, pode ser empregado aqui).

Em suma: nosso conhecimento se constrói mediado e, da mesma forma, somos mediadores na construção do conhecimento dos outros.

O olhar do outro é construído não só do que ele vê, mas dos seus conceitos, suas ideias, suas concepções, suas explicações do mundo, suas experiências, suas vivências. O olhar dele não existe sozinho, isolado, destacado, deslocado, como algo que ele pudesse carregar nas mãos, desvinculado de seu corpo.

As informações que recebemos do mundo, sejam elas mediadas por terceiros ou sensoriais (estas também são mediadas, embora de maneira diferenciada da anterior), nos levam a um entendimento, mesmo que inconsciente, desse mundo. Entendemos, aceitamos, nos posicionamos contrários, fazemos críticas, apoiamos ações, seguimos tendências sempre com base nas análises que nos permite a relação com o mundo. Assim, as informações são dependentes dessa relação e não nos atingem de maneira fechada ou imutável. Ao contrário, tais informações são dependentes de nossas concepções, de nosso acervo de experiências, vivências e relações com o mundo. A informação precisa de cada um de nós e de nosso coletivo para existir, mesmo que não de maneira concreta. A informação não existe “per si”. A informação não nos domina.

Da mesma forma, nós não dominamos a informação. Apropriamo-nos dela, tanto consciente como inconscientemente. Ela é objeto e sujeito, assim como, em relação a ela, também somos objeto e sujeito.

A informação vai se construindo, se impregnando de intenções, interesses, desejos, valores. A informação carrega embates, lutas por poder, por dominação, por imposições de conceitos, verdades. O ideológico não é eliminado pelo emprego de técnicas documentais, ao contrário, estas reforçam esse caráter ideológico presente na construção da informação.

Um exemplo de como as informações vão se construindo e são dependentes do acervo individual e coletivo dos sujeitos é o estereótipo do bibliotecário. Os profissionais da área acreditam que suas responsabilidades e fazeres são desconhecidos pela sociedade. Resolveríamos tal situação apenas veiculando informações sobre a importância e o valor do bibliotecário, sua imprescindibilidade para a sociedade? O estereótipo seria quebrado apenas com informações sobre o trabalho desenvolvido por esse profissional e pelos espaços em que atua?

Os alunos aprovados em vestibulares para o curso de biblioteconomia, quando se encontram com amigos, mesmo depois de alguns semestres cursados, em sua maioria, têm dificuldades para explicar, sucintamente, o que faz o bibliotecário. Titubeiam, gaguejam frente a perguntas do tipo: “O que você vai fazer depois de formado? Vai trabalhar aonde? Quais serão suas tarefas? É preciso 4 anos de estudo para fazer isso? Afinal, o que faz um bibliotecário?”.

No período em que ministrei na graduação a disciplina “Fundamentos da Ciência da Informação e Biblioteconomia”, pretendia que ao final do semestre os alunos pudessem responder a algumas dessas perguntas. No início das aulas eu apresentava uma síntese do que entendo ser o fazer do bibliotecário, mesmo que o entendimento da amplitude desse fazer não ficasse tão claro. Esperava que durante o semestre, com as discussões, leituras etc., os alunos pudessem terminar a disciplina com uma ideia mais apropriada sobre o tema

Toda tentativa de síntese é sempre simplificadora, mas, mesmo correndo esse risco, vou apresentar o que entendo ser o fazer do bibliotecário e que defendia em minhas aulas:

O Bibliotecário é o profissional que medeia a necessidade informacional e as informações que pretendem satisfazer essa necessidade.

Muitas outras ações estão embutidas, implícitas nessa síntese. A necessidade informacional de um usuário ou de um conjunto de usuários deve ser conhecida ou, ao menos, procurada. As informações que satisfazem uma necessidade informacional estão espalhadas, perdidas no universo informacional. É preciso organizá-las, armazená-las, prepará-las para que possam ser recuperadas. É voz corrente na área que muita informação é não-informação, que informações não organizadas são não-informações. O espaço onde ocorre a mediação não precisa ser, necessariamente, físico. Hoje, discutimos como atingir o usuário que não frequenta os espaços físicos da biblioteca, do centro cultural, dos equipamentos informacionais. Como atingir o aluno que faz suas pesquisas escolares sem utilizar os espaços da biblioteca, pesquisando apenas em sites, blogs, googles e outros espaços virtuais?

Os complementos da afirmação acima exposta precisam de uma discussão maior. A procura por distinguir as necessidades informacionais dos usuários é um processo complexo, que envolve muitas variáveis, boa parte delas de difícil ou impossível exequibilidade. As necessidades informacionais não são puras, isentas, provenientes apenas de interesses, desejos, proveitos, buscas, curiosidades individuais. As necessidades, informacionais ou não, se mesclam, formando um amálgama de interesses em que se sobressaem os que conseguem impor suas concepções de mundo; ocupam os espaços da verdade os interesses de uma minoria, mas que se transformam, na maioria das vezes, hegemonicamente, em interesses de todos. 

De igual modo, a armazenagem, a organização, o emprego de técnicas documentárias, ou seja, ações voltadas para possibilitar a recuperação da informação, também não são isentas, imparciais. As ferramentas e instrumentos empregados nos trabalhos de organização da informação são construídos a partir de concepções de mundo e interferem na construção da informação. A própria ideia de “recuperar a informação” parece desconsiderar o usuário. Lida-se com um perfil ideal do usuário, alguém que participa do processo, contudo sem interferir sobre ele. O perfil ideal do usuário é fruto de estudos de usuários, elaborados a partir de interesses médios.

Os espaços onde a mediação da informação ocorre, espaços esses que prefiro chamar de equipamentos informacionais, também interferem na construção da informação. Os materiais que constituem seus acervos, cada tipo deles, possuem linguagens diferenciadas, formas de acesso a seus conteúdos diferentes uns dos outros. Apropriamo-nos da informação de maneira diferente se estamos lendo um livro, um periódico, vendo um filme, lendo uma HQ, ouvindo músicas, lidando com um computador. Cada um exige um esforço, uma relação própria, distinta da dos outros.

O atendimento ao usuário, normalmente exercido nos espaços do Serviço de Referência e Informação, também interfere na construção da informação. O profissional que atua nesse setor vale-se de seus conhecimentos técnicos, específicos da área de Biblioteconomia, mas também não prescinde de seu acervo de conhecimentos gerais, de suas experiências e vivencias. Além disso, ao ingressar em seu ambiente de trabalho, não se despe de conceitos, concepções, entendimentos de mundo ou qualquer forma de preconceito. Não é possível exercer sua profissão apenas com um segmento, pretensamente chamado de “ser profissional”. Antes de ser bibliotecário, é ele um ser humano e sempre atuará como um todo e não a partir de fragmentos, como se eles pudessem existir separadamente.

Todas essas discussões me levaram a defender que a mediação não ocorre apenas no “atendimento” ao usuário, no Serviço de Referência e Informação. Ela está presente em todas as ações do bibliotecário. Nas relações que exigem e pedem a presença do usuário, fisicamente ou não, estamos no âmbito da Mediação Explícita. Já nas ações em que essa presença não é obrigatória, como nos fazeres relativos ao armazenamento e organização, estamos no âmbito da Mediação Implícita.

Importante lembrar e deixar claro: a mediação não é um momento, mas um processo. Ela envolve não só o usuário, o bibliotecário, como também o “produtor” da informação (ou da protoinformação, como prefiro chamar), os suportes com os quais o bibliotecário lida, o equipamento informacional (físico ou não), o momento em que todo o processo acontece (não um momento determinado) e a informação. Nenhum dos “personagens” elencados, vale lembrar, é neutro, isento, imparcial. Pelo contrário, todos interferem, pouco ou muito, na construção e na apropriação da informação.

Dentre os segmentos de interesse da Biblioteconomia, o Serviço de Referência e Informação tem um importante papel, embora muito aquém do espaço que merece, uma vez que a relação direta entre usuário e equipamento informacional dá-se em seus espaços. No entanto, o Serviço de Referência e Informação nunca possuiu bases teóricas que sustentassem não só o fazer dos que nele atuam como também, e principalmente, as discussões e reflexões sobre o tema. Os que se preocupam com o tema valiam-se – e continuam se valendo – de “quase metodologias” que apontavam e sugeriam formas, atitudes e comportamentos adequados para as ações realizadas em seus espaços. O vácuo teórico exigiu olhares diferenciados que não se sustentassem no fazer dos profissionais, em uma idealização do usuário e em uma relação entre informação e necessidade informacional calcada exclusivamente na oferta de materiais.

A mediação da informação surge como proposta para preencher essa lacuna teórica, apresentando bases de sustentação para as reflexões sobre o Serviço de Referência e Informação diferenciadas das até então utilizadas.

A minha preocupação com esse tema data do início da década de 1990. Muitas das leituras que fiz para elaborar o produto do curso de mestrado em Ciências da Comunicação, alteraram minhas crenças e visões sobre o objeto de análise da dissertação, as bibliotecas alternativas, como também o faziam em relação ao Serviço de Referência e Informação, já que era essa uma das disciplinas que ministrava no curso de graduação em Biblioteconomia na ECA/USP.

Findo o mestrado, as concepções ainda embrionárias - não ainda denominadas como mediação da informação – embasaram o projeto inicial de meu doutorado (enfocando dois grandes temas que sempre povoaram minhas preocupações: bibliotecas públicas e serviços de referência e informação). Na reestruturação do currículo do curso de Biblioteconomia da Universidade Estadual de Londrina, em 1996, propus a inclusão de duas disciplinas, sendo uma delas a “Mediação da Informação”. Aprovada, tal disciplina é incluída no currículo, sendo oferecida no 8º Semestre. Implantado o novo currículo em 1997, “Mediação da Informação” foi oferecida pela primeira vez em 2000. A estruturação do conteúdo programático da disciplina evidenciou a necessidade de ampliar a busca por suportes teóricos, em especial os provenientes de outras áreas do conhecimento humano, uma vez que na Biblioteconomia e na Ciência da Informação esse tema não era objeto de preocupação e interesse.

A organização de um projeto de pesquisa direcionado para esse tema, concretizado em 2001, foi quase que uma consequência natural das reflexões anteriores.

Três projetos de pesquisa, abrigados no Grupo de Pesquisa “Interfaces: Informação e Conhecimento”, contribuíram para a ampliação das bases teóricas sobre mediação da informação e apontaram caminhos para novos estudos, muitos deles desenvolvidos no âmbito dos TCCS (Trabalho de Conclusão de Curso), de monografias de cursos de especialização, de dissertações de mestrado e de teses de doutorado.

O primeiro projeto deixou clara a diferença entre o entendimento do grupo de pesquisa sobre mediação da informação e o entendimento apresentado nas respostas dadas a um questionário preenchido por participantes que aceitaram fazer parte da amostra da pesquisa. As respostas, invariavelmente, reproduziam um senso comum, um modo de entender a mediação quase que unânime, sem nenhuma explicação efetiva, como se sua conceituação fosse já dada e aceita.

O resultado das discussões do grupo de pesquisa gerou alguns textos elaborados individualmente, no caso dos professores e supervisionados, no caso dos alunos e de bolsistas.

As discussões dentro do grupo de pesquisa levaram as reflexões que já desenvolvia à percepção da importância de um conceito, mesmo que provisório e embrionário, de mediação da informação. Esse conceito formulado e divulgado em palestras a partir de 2004, mas publicado em um texto de 2006, trazia uma síntese dessas reflexões:

Mediação da informação é toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92).

Desse primeiro conceito foram destacados dois pontos principais: a interferência e a apropriação da informação.

A ideia de interferência constante no conceito de mediação da informação atende a uma conclusão das reflexões sobre o fazer do profissional da informação e do bibliotecário em especial. A interferência contradiz um entendimento por demais aceito, defendido e veiculado na área que afirma uma pretensa neutralidade do profissional em seu trabalho. As ações seriam por ele desencadeadas de maneira imparcial.

A apropriação da informação, por sua vez, também exige um novo olhar sobre o fazer do profissional da informação, uma vez que não restringe o trabalho dele a entrega de materiais que atendam a necessidade informacional explicitada. Ao acesso físico ao material, defendido hegemonicamente na área como limite das ações nos equipamentos e espaços informacionais, deve ser acrescentada a preocupação com a apropriação da informação, ou seja, além do acesso físico, o usuário (sujeito informacional) deve ter acesso ao conteúdo dos documentos, implicando nisso uma compreensão desse conteúdo. A apropriação da informação requer uma interação entre sujeito e protoinformação em que aos significados que se acumularam na construção da informação se agreguem os significados oriundos do usuário.

Um dado que me parece importante é o fato de que a apropriação se dá de maneira consciente e de maneira inconsciente. Neste último caso, os significados acrescidos pelo usuário à informação também o são inconscientemente.

O usuário não tem o poder de determinar o que é ou não apropriado. Também não tem o poder de escolher as informações que lhe interessam. Hoje, com mais intensidade, as informações “pupulam”, estão soltas, livres, invadindo nossa atenção, exigindo nossa atenção, determinando nossos interesses e nossas opções, impondo modismos e até mesmo formas de pensar. Isso não se dá de maneira consciente. Dessa forma, não temos poder sobre todas as informações. Aliás, creio que não temos poder sobre a maioria das informações. Somos dependentes, reféns delas.

Esses dois pontos, interferência e apropriação, estiveram na base da elaboração do conceito de mediação da informação. Mas, de maneira não explícita, outras concepções também contribuíram para a concretização daquele conceito:

- o conhecimento se constrói individualmente, mas sempre e necessariamente na relação com os outros, com o mundo e consigo mesmo;

- a mediação da informação não é um momento dentro do fazer bibliotecário, mas é um processo que se constrói em vários momentos;

- há sempre uma relação de diálogo no processo de mediação da informação;

- só há apropriação da informação a partir da leitura. Essa leitura deve ser entendida em seu conceito lato, ou seja, não apenas a leitura do texto escrito, mas deve-se agregar a essa, também a leitura da imagem fixa, da imagem em movimento (incluída a leitura não verbal) e do som (incluída a oralidade);

- o homem é um ser inacabado, é um ser por se fazer, assim, o conhecimento e a informação também são inacabados;

- a informação não existe a priori, antecipadamente, mas vai se construindo;

- a informação se constrói a cada momento em que se constitui seu ciclo, ela morre ainda se construindo

- quando apropriada, a informação se reconstrói, ela é sempre algo por ser;

- a informação é dependente do seu produtor, do espaço em que interage com o usuário, dos mediadores desse espaço, do ambiente, do momento, do entorno, do contexto, do tipo de suporte que a sustenta provisória e momentaneamente, do usuário;

- o usuário é dependente da informação, é dependente dos seus próprios referenciais, é dependente do mundo e dos outros;

- a informação está imersa e se constrói envolta em interesses, necessidades, poder, domínios;

- a informação não existe apenas no âmbito do racional;

- a informação é empregada como suporte ideológico na busca pela manutenção de um sistema social, político, econômico, cultural etc.;

- a informação não dirime dúvidas, nem cobre lacunas cognitivas, mas cria novas dúvidas, cria novos conflitos;

- uma necessidade informacional nunca é satisfeita integralmente, ela atende a questões imediatas, mas cria novas necessidades, novas questões, novas angústias, novas curiosidades etc.;

- a informação não está presa em paredes, o que implica em que os equipamentos informacionais não devem atuar se valendo exclusivamente dos seus acervos físicos, ao contrário, devem buscar a informação em qualquer espaço em que pode ela ser localizada, incluindo, nesse caso, os ambientes eletrônicos, virtuais, de acesso online etc.;

- os equipamentos informacionais interferem efetivamente nos seus ambientes físicos, mas também devem procurar interferir, em um contexto da informação, nos ambientes de vida e convívio de seus usuários, ou seja, em suas casas, seus trabalhos, lazer, etc., a isso chamamos de “ambiência informacional”;

- a informação destrói certezas;

- as informações são registradas, mas não permanentes; são fluidas, evaporantes, translúcidas; impalpáveis, embora concretas; não consumíveis;

- a informação não se apresenta construída, não é antecipada nem é previsível;

- a informação é sempre efêmera, apesar de se perpetuar no conhecimento, ou melhor, de se perder no conhecimento;

- a distinção entre interferência e manipulação é muito tênue;

- os equipamentos informacionais não lidam com a informação, uma vez que ela não é concreta, tangível, uma vez que ela não é coisa. Trabalha-se, nesses espaços, com a protoinformação.

- a necessidade informacional não é claramente identificada ou explicitada;

- a necessidade informacional é sempre mediada;

- a informação representa o desconhecido; sendo assim, é ela inquieta e, como tal, causa inquietações, conflitos;

- apesar de se constituir no indivíduo, a informação é dependente do coletivo;

- o próprio conhecimento é dependente do coletivo;

- não temos o total poder de controlar a informação;

- não conseguimos quantificar ou mensurar quanto de informação foi apropriada por uma pessoa

- não conseguimos identificar quanto de uma necessidade informacional foi satisfeita; podemos lidar com indícios, com possibilidades, com mudanças físicas, exteriores, mas nunca é possível afirmar que uma necessidade informacional foi totalmente satisfeita;

- o objeto ou o núcleo epistemológico da área deve passar da informação registrada para a mediação da informação.

Com base nesses pressupostos acreditei ser o momento de modificar o conceito inicial de mediação da informação. Essa alteração do conceito foi apresentada em 2014 no I EPIM – Encontro de Pesquisa em Informação e Mediação, promovido pela Universidade Estadual de Londrina, foi realizado na cidade de Londrina. Entendi ser ele o espaço adequado para sua apresentação, pois o tema discutido no evento, assim como seu próprio título, era mediação da informação.

O conceito reformulado atende aos pressupostos elencados anteriormente e faz uma adequação do conceito anterior, tendo-o como base e alterando ou incluindo partes dele atendendo as exigências que as reflexões impuseram:

“Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais.”

Além dos pontos entendidos como principais no conceito anterior (interferência e apropriação da informação e a mediação como processo), neste foram incluídos: ambiência de equipamentos informacionais, satisfação parcial e momentânea, e conflitos.

A ambiência foi apresentada entre as concepções que embasaram as alterações do conceito de mediação da informação. Foi assim, de maneira rápida, explicada: “os equipamentos informacionais interferem efetivamente nos seus ambientes físicos, mas também devem procurar interferir, em um contexto da informação, nos ambientes de vida e convívio de seus usuários, ou seja, em suas casas, seus trabalhos, lazer, etc., a isso chamamos de ‘ambiência informacional’”. A distinção entre “ambiente” e “ambiência” é fruto, em primeiro lugar, da afirmação, desta vez corroborada nas ações do profissional da informação, de que o objeto da área, mais do que os suportes, é a informação. Em um segundo lugar, aquela distinção norteia a concepção de que, não havendo condições de tolher, de prender a informação em espaços delimitados, o trabalho com ela entende que sua busca e recuperação dá-se em um espaço ilimitado. O universo informacional não se restringe ao acervo de nenhum equipamento informacional. Dentro dessas perspectivas, a interferência do profissional da informação não deve se ater apenas ao espaço em que se dá presencialmente seu trabalho, mas deve abarcar todo o universo informacional, ou seja, as áreas, físicas ou não, em que a informação (ou a protoinformação para sermos mais exatos) circula.

Outro ponto destacado no novo conceito de mediação da informação diz respeito à satisfação informacional do usuário. Nenhuma necessidade informacional é totalmente clara nem será totalmente satisfeita. Não conseguimos identificar nossas necessidades informacionais, pois não está ela isolada, dissociada de outras necessidades. Além disso, muitas das nossas necessidades não são “puras” ou geradas apenas a partir de uma relação direta de meus desejos, anseios, vontades e os objetos, espaços ou emoções que podem satisfazê-los. Boa parte do que consumimos, por exemplo, são embasados na necessidade de troca, em especial simbólica, do que na necessidade de uso. Essas necessidades são geradas pelo pertencimento a um grupo, uma comunidade, uma tribo. Nossas necessidades são mediadas. O imediatismo do mundo em que vivemos nos leva a um consumismo libidinal que no momento em que é satisfeito, deixa de existir. Mercadoria possuída implica em outra mercadoria desejada. Nosso mundo, nossa vida, talvez sejam um grande simulacro, um grande engodo.

Com base nesse entendimento, como identificar uma necessidade informacional? Como satisfazê-la? Como satisfazer algo cuja origem apenas vislumbramos? Mais do que isso, se entendemos que a informação não elimina dúvidas, incertezas, que a informação não cobre lacunas cognitivas, que a informação é a geradora de conflitos e as dúvidas e incertezas brotam delas, devemos aceitar a ideia de que nenhuma necessidade pode ser satisfeita na medida em que, satisfeita, no mesmo momento, ela gera novas incertezas e, portanto, novas necessidades. O momento da satisfação é um átimo, um instante que se evapora e forma novas nuvens no firmamento das certezas.

Gerando dúvidas e incertezas, a informação cria conflitos. A procura pelo equilíbrio tende a eliminar os conflitos, embora essa seja uma tarefa inglória, “sem maior provento/do que a caça ao vento” como diria Carlos Drummond de Andrade. Os conflitos exigem olhares diferentes para o mundo, para a relação das pessoas entre elas e com o mundo. Os conflitos exigem novas explicações pessoais para o mundo. Com os conflitos, a partir deles, tenho que reorganizar minha visão do mundo. E os conflitos ocorrem a cada instante, a cada momento. E por esse motivo, vejo o mundo diferente a cada momento, a cada instante. Talvez essa seja a grande angústia do homem. Talvez o fato de não controlar a informação, de não tê-la como coisa, como objeto, de não conseguir satisfazer plenamente necessidades informacionais que lhe são apresentadas, talvez tudo isso se constitua na grande angústia do profissional da informação.

Mesmo com a modificação do conceito de mediação da informação, mantenho os conceitos que havia elaborado anteriormente de mediação explícita da informação e de mediação implícita da informação:

A primeira, a mediação implícita, ocorre nos espaços dos equipamentos informacionais em que as ações são desenvolvidas sem a presença física e imediata dos usuários. Nesses espaços, como já observado, estão a seleção, o armazenamento e o processamento da informação. A mediação explícita, por seu lado, ocorre nos espaços em que a presença do usuário é inevitável, é condição sine qua non para sua existência, mesmo que tal presença não seja física, como, por exemplo, nos acessos a distância em que não é solicitada a interferência concreta e presencial do profissional da informação. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92-93).

Do mesmo modo, defendo as ideias sobre a alteração do objeto da área (de informação registrada para mediação da informação) e, em especial, da protoinformação. Dado que a informação não existe a priori e se constrói, em um processo, desde sua produção até sua apropriação (consciente ou inconsciente), os equipamentos informacionais e os profissionais da informação trabalham com uma informação latente, uma “quase-informação”, uma “talvez informação”. O termo “protoinformação” foi por mim gerado a partir desse entendimento.

As nossas certezas, creio, são momentâneas e se refazem, mesmo que parcialmente e de maneira reduzida, a cada instante. Nada pode ser considerado como inquestionável, solidificado, sedimentado, consolidado. As verdades se relacionam com o desconhecido e perdem suas sustentações. A procura da nova verdade é a razão de ser, também, da academia, do pesquisador. Uma busca constante embora infrutífera, pois sem fim. Mais uma de nossas angústias. 

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(Publicado originalmente em: ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo; SILVA, Rovilson José da (Org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. 278p. p. 09-32.)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.