LEITURAS E LEITORES


ANO DO LIVRO E DA LEITURA EM BARCELONA

Neste ano, Barcelona comemora o Ano do Livro e da Leitura. Toda a cidade está voltada para essa comemoração, em todos os eventos importantes, lá estarão falando sobre os livros. Por exemplo, na festa mais tradicional dessa região que acontece na última semana de setembro, chamada de "La Mercê", há desfiles pelas ruas da cidade com bonecos gigantes, bem parecidos com os do nordeste brasileiro. Na mão de cada boneco há uma referência a um livro, desde os autores locais até os da literatura universal. Ao todo, durante o ano foram programadas mais de 500 atividades comemorativas.

Nas ruas e nos passeios de Barcelona encontra-se sempre, pelo menos, uma livraria. A cidade "transpira" livrarias, bibliotecas e leitores. Uma livraria muito próxima da outra e há compradores para tudo. Bem, verdade é que o livro aqui não é caro, cabe perfeitamente no orçamento das pessoas. No trem é difícil não ver as pessoas lendo. Um silêncio, quebrado pelo barulho do aviso das próximas paradas. Às vezes chega a ser inquietante para nós brasileiros. Já imaginou um metrô, um ônibus sem conversa? Pois é assim, quase todos absortos num livro, revista, ou jornal.

Na abertura do programa do Ano do Livro e da Leitura, que também coincide com a comemoração do quarto centenário de publicação de Dom Quixote, Joan Clos, prefeito da cidade, afirma que quer reivindicar a condição de Barcelona como a capital histórica no campo dos livros e da edição. Com essa celebração, quer exaltar a criação literária, impulsionar o fomento à leitura, especialmente entre os mais jovens, incentivar a indústria relacionada com o livro e reafirmar os vínculos da cidade com os livros.

Uma das exposições comemorativas a esse ano chama-se "¡Personaje a la vista! Libros que crean lectores", equivalente a "Personagens à vista! Livros que criam/fazem leitores". A exposição está montada no Palau Robert, numa das principais avenidas daqui, chama-se Passeig de Gràcia. O palácio (palau em catalão) é um prédio estilo neoclássico de uma beleza ímpar.

A montagem faz com que o visitante embarque no mundo de "faz-de-conta": há uma escadaria para se subir ao primeiro andar, mas a cada degrau, decorado com três ou quatro livros dispostos no canto esquerdo, há uma frase, um verso de um escritor em várias línguas, inclusive o português. Sobe-se lentamente, tudo já vai nos levando a um outro clima, é como se fosse nos encantando passo a passo.

A exposição está dividida em quatro partes, a saber: reconhecer, identificar-se, imaginar e ler. Cada seção tem expositores/cenários de forma diferente. Na entrada, no "reconhecer", somos confrontados com aparatos os mais tecnológicos que reproduzem imagens em espelhos gigantes, ao mesmo tempo em que símbolos e signos quase "primitivos" nos remetem aos mais variados livros e personagens da literatura infanto-juvenil universal. Mais do que isso nos reconhecemos nas personagens de livros que lemos. Tudo construído de modo profissional, numa simbiose entre símbolos, texto, imagem, iluminação e som, de modo que a temática remeta o visitante, criança ou não, ao mundo adormecido nele. Para a primeira parte há o seguinte texto:

Homem ou mulher
Menino ou menina,
Cão ou gato,
Que entre
Neste espaço,
Corre o perigo de ficar
Profundamente encantado
Durante cem anos

É o que acontece com a gente ao longo da exposição. Na segunda parte, identificar-se, de um modo bastante didático mas sem ser acadêmico, há um texto de C. S. Lewis*:

A literatura me ajuda a compreender as pessoas e as pessoas me ajudam a compreender a literatura.

A idéia é que ao ler somos ajudados "a compreender a relação entre a representação da realidade e da expressão da própria realidade", conforme diz o folder da exposição. Ao ler, o leitor se envolve com as personagens, emociona-se. Nessa parte da exposição somos levados a vários símbolos das histórias, das personagens: espelho, animais, retratos de infância, objetos animados e crônicas da sociedade. Aqui é possível brincar com algumas personagens ou situações.

Na terceira parte, "imaginar", quando achamos que já vimos tudo, somos surpreendidos por um sótão com signos, caixas que simulam livros embalados que nos deixam sem saber para que direção olhar. Nos cantos menos prováveis encontramos a referência a um personagem fantástico da literatura: uma vassoura ali, o tique-taque de um relógio, uma chaminé. Do chão ao teto, tudo é muito significativo, acolhedor, como se realmente estivéssemos numa outra dimensão.

A exposição nos encaminha a "ler", uma sala com obras selecionadas, de todos os matizes da literatura para que se possa ler. Se quiser, uma poltrona, ou uma almofada. Difícil não ler, depois do caminho percorrido. Parece tudo psicologicamente organizado para que se leia e o texto de Lev Vygostky** cai bem para encerrarmos:

"Vulgarmente, imaginação se refere ao irreal, ao que no se ajusta à realidade e que, portanto, não tem o menor valor prático. Ao fim, no entanto, a imaginação se manifesta por igual em todos os aspectos da vida cultural torna possível a criação artística, cientifica e técnica. Neste sentido, tudo o que nos rodeia e surgiu da mão do homem, todo o mundo da cultura, diferente do mundo da natureza, tudo isso é produto da criação humana, baseada na imaginação".

* Un experimento de crítica literária (o nome das obras deixarei no
original)

** La imaginación y el arte em la infância


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.