LEITURAS E LEITORES


VOZES NEGRAS NA BIBLIOTECA

O acervo da biblioteca pode se tornar a porta para o contato com assuntos que fazem parte da herança histórica de uma sociedade e que precisam ser lidos, reavaliados, reescritos e refletidos a partir de olhares contemporâneos.

As populações tratadas como minorias sociais e culturais, devido às condições sócio-histórico-políticas, têm lutado contra a tentativa de apagamento de sua contribuição e formação do Brasil, como é o caso da população negra, que sofre cotidianamente as consequências do racismo.

O acesso a obras que discutam a temática pode ser uma das perspectivas para se problematizar a repercussão de mais de 300 anos de período de escravidão no país. Nesse contexto, manter o acervo da biblioteca, pública ou escolar, com a aquisição de obras recém-publicadas ainda não é realidade no país, pois faltam verbas e estrutura político-administrativa em todos os níveis da federação: federal, estadual e municipal

Assim, quando houver condições para aquisição, caberá à biblioteca ter prioridade e objetivos delineados. Em geral, quando a verba aparece, ela é insuficiente para adquirir o que se planejou.

Quase sempre, o acervo é composto por autores consagrados, faltando espaço para as novidades editoriais, para arejar e oferecer outras interlocuções ao usuário, ao aluno.

Das obras publicadas em 2020, três serão destacadas aqui. Importa esclarecer que são obras que analisam o presente, o passado e apontam para o futuro, num país que necessita abandonar a desigualdade racial institucionalizada.

Nas obras selecionadas, há predomínio da visão feminina para estruturar, pensar a questão racial, de modo a dar voz a pensadores e pensadoras que discutem a temática. A escritora/pesquisadora Ligia Fonseca Ferreira organizou a obra “Lições de resistência” com artigos de Luiz Gama. As autoras Flavia Rios e Márcia Lima organizaram a obra “Lélia Gonzalez: por um feminismo afro-latino-americano” e, por fim, a obra de Silvio Almeida, “Racismo estrutural”, que faz parte da coleção Feminismos Plurais, coordenado por Djamila Ribeiro.

A questão racial é questão de todos os brasileiros. É preciso ter acesso aos estudos, às falas de mulheres e homens negros que vêm ao longo da formação do Brasil resistindo, apontando discussões, resgatando memórias históricas, provocando reflexões no presente para que o futuro seja menos desigual.

A seguir, um pouco da polifonia apresentada pelas obras acerca do racismo estrutural, dos pensadores e ativistas como Luiz Gama, Lélia Gonzalez e Silvio Almeida.

A obra Racismo estrutural, de Silvio Almeida, tira o leitor do lugar comum da discussão da questão racial, pois tem estrutura didática, fluida, direta e oportuniza que o leitor amplie sua compreensão e, ao mesmo tempo, provoque reflexão nos âmbitos pessoal e social.
 

 

 

O escritor Silvio Almeida (São Paulo, 1976) é doutor e pós-doutor em Direito, filósofo, professor e diretor presidente do instituto Luiz Gama. Almeida aponta:

[...] o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural.” (ALMEIDA, p.50)

A segunda obra, Lélia Gonzalez: por um feminismo afro-latino americano: ensaios, intervenções e diálogos, foi organizada por Flavia Rios (professora da UFF) e Márcia Lima (professora da FFLCH-USP).
 

 

 

A organização de Flávia e Márcia conduz o leitor à imersão gradual no pensamento de Lélia Gonzalez:

[...] Neste livro reunimos, em ordem cronológica, a maior parte de ensaios, intervenções e diálogos realizados pela autora no período que compreende duas décadas _ de 1975 à primeira metade 1990 [...] (Trecho da Introdução de Flavia Rios e Márcia Lima, 2020, p.9)

Lélia Gonzalez (1935 – Belo Horizonte/1994- Rio de Janeiro) foi estudiosa e militante do movimento negro. Ao ler seus textos pela primeira vez, muito leitor haverá de se perguntar: por que até agora não conhecia essa pensadora? Por que seus escritos não chegaram até mim antes?

A filósofa, antropóloga e professora universitária Lélia é impactante em seus escritos, pois tem considerações bem argumentadas que descascam mitos sociais em relação ao racismo e, principalmente, traz a mulher negra e sua força no enfrentamento da discriminação racial, na resistência para conviver na excludente sociedade brasileira.

No período que imediatamente se sucedeu à abolição, nos primeiros tempos de “cidadãos iguais perante a lei”, coube à mulher negra arcar com a posição de viga mestra de sua comunidade. Foi o sustento moral e a subsistência dos demais membros da família. Isso significou que seu trabalho físico foi decuplicado, uma vez que era obrigada a se dividir entre o trabalho duro na casa da patroa e suas obrigações familiares. Antes de ir para o trabalho, havia que buscar água na bica comum da favela, preparar o mínimo de alimentos para os familiares, lavar, passar e distribuir as tarefas das filhas mais velhas no cuidado dos mais novos. Acordar às três ou quatro horas da madrugada para “adiantar os serviços caseiros” e estar às sete ou oito horas na casa da patroa até a noite, após ter servido o jantar e deixado tudo limpo. Nos dias atuais, a situação não é muito diferente.

Ensaio publicado em 1984 nos EUA e traduzido e modificado no Brasil em 1985. (2020, p.40)

A terceira obra, “Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro”, foi organizada por Ligia Fonseca Ferreira. A escritora é professora no departamento de Letras da Unifesp, além de ter trabalhos em universidades no exterior e outras publicações.
 

 

 

Ligia Ferreira constrói a introdução didática e criticamente de modo a que o leitor possa se preparar e contextualizar as lições de resistência presentes nos textos de Luiz Gama:

Apresentamos aqui uma coletânea de 61 artigos relacionados aos temas escravidão, abolição e república, de reconhecida autoria de Luiz Gama, publicados na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro entre 1864, data do primeiro texto encontrado, e 1882, ano do falecimento do jornalista. (Introdução/p.35)

Luiz Gama (1830 – Salvador, BA / 1882- São Paulo, SP) nasceu livre, filho da africana Luiza Mahin, mas foi levado para São Paulo, onde foi feito escravo por oito anos. Começou a ser alfabetizado aos 17 anos. Conforme Lígia Ferreira, quando faleceu em 1882 era “proeminente advogado e jornalista de 52 anos que se encontrava no auge da popularidade.”

Os artigos apresentados no “Lições de Resistência” são apoiados por notas que explicam e contextualizam a época e a situação que os envolveram. É um trabalho meticuloso de Ligia Ferreira que leva o leitor a compreender a dimensão da luta incessante de Luiz Gama.

Num artigo de 1880, intitulado “Carta a Ferreira de Menezes”, Gama denuncia o linchamento de jovens negros, no interior de São Paulo:

Foi no município de Limeira; o fato deu-se há dois anos. 
Um rico e distinto fazendeiro tinha um crioulo do norte, esbelto, moço, bem parecido, forte, ativo, que nutria o vício de detestar o cativeiro: em três meses fez dez fugidas! 
A cada volta sofria um rigoroso castigo, incentivo para nova fuga.
[A] mania era péssima, o vício contagioso e perigosíssima a imitação.
[...]
Era a décima fugida, e dez são os mandamentos da lei de Deus, um dos quais o mais filosófico e mais salutar é castigar os que erram
O escravo foi amarrado, foi despido, foi conduzido no seio do cafezal, entre o bando mudo, escuro, taciturno dos aterrados parceiros: um Cristo negro, que ia sacrificar pelos irmãos de todas as cores. 
Fizeram-no deitar chicote; e cortaram-no, a chicote, por todas as partes do corpo; o negro transformou-se em Lázaro, o que era preto se tornou vermelho. 
Envolveram-no em trapos... 
Irrigaram-no de querosene, deitaram-lhe fogo... Auto de fé agrário!... (2020, p.264)

Há muito que se estudar, que conhecer a respeito da escravidão e da sociedade racista que o Brasil se transformou, por isso obras como as apresentadas aqui são imprescindíveis para que caminhemos em direção a uma sociedade que se olhe de frente e assuma seus erros a fim de se estruturar um futuro menos desigual.

Assim, num país em que o preço do livro exorbita, as bibliotecas tornam-se possibilidades reais para o acesso da população à leitura e informação e, portanto, cabe a todos a contínua cobrança por políticas públicas que ampliem as bibliotecas e seus acervos.

Obras consultadas

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2020.

FERREIRA, Ligia Fonseca (org). Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro. São Paulo: Edições SESC, 2020.

RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (orgs). Lélia Gonzalez, por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

 


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.