LEITURAS E LEITORES


MANIAS DE LEITOR

Ler, como qualquer outra atividade humana que provoque prazer, estimula nas pessoas comportamentos ou manias que vão particularizando cada vez mais o leitor e sua leitura. De início cada leitor acredita que seus comportamentos ou manias são exclusivos, mas à medida em que nota outros leitores, percebe que seu comportamento é muito parecido com o dos demais, a começar pela disposição dos livros em casa até chegar a visita a uma livraria.

Em casa, o leitor gosta que seus livros fiquem à mostra ou que tenham um ambiente especial, que preferencialmente estejam presentes em outros cômodos e não só no mais habitual. Geralmente gosta de falar de seus livros. Já se o leitor está do outro lado, se é aquele que visita a casa, terá a curiosidade aguçada por conhecer a biblioteca do anfitrião. Acabará folheando, lendo lombadas, encontrando livros que também possui e livros que gostaria de possuir.

Há leitores que têm preferência por determinados períodos do dia para ler, uns optam pela manhã, outros pela tarde e há aqueles que preferem ou só podem ler à noite. Mas não pára por aí, pois ler em dias nublados e com chuva cria uma atmosfera diferente dos dias ensolarados. Por exemplo, Crime e Castigo de Dostoiévski pode parecer mais "trágico", concentrar mais ainda o conflito em dias turvos. É como se o leitor e Raskolnikov compartilhassem ainda mais os crimes cometidos, pois parece que ajuda o clima tenso, angustiante da história.

Há dias que se está mais propenso para ler poesias, noutros só romance e contos, noutros só a releitura de pequenos trechos. Olhar para os próprios livros e resolver buscar aquele livro comprado há tempos e ainda sem ler.

Ler durante as refeições também é um dos comportamentos mais "naturais" dos leitores, embora haja aqueles julguem "fazer mal" ler com o estômago cheio. O leitor por seu lado não se preocupa com o estômago, pois sabe que o seu alimento completo inclui estômago, emoção, imaginação. Sabe que o cérebro tanto quanto o resto do corpo, precisa de alimento.

O que dizer daqueles dias que não se tem nenhuma programação para ler e nos esbarramos com um livro que estava ali há tempos? E nos chama a atenção uma palavra, sua sonoridade e "perdemos" horas pensando em seu significado. Ou ainda a entrevista de quem consideramos, ou não, sobre uma determinada obra, nos leva a lê-la.

Nem a hora de dormir "escapa" do bom companheiro, o livro. Perto da cama, dá alento, faz bem. Às vezes uma palavra ou uma frase basta. Noutras, são páginas e páginas. A noite toda num defluir de letra por letra, até o sono, inexorável, aparecer.

Leitor tem mania de passear por livraria e, quase sempre, não tem o objetivo inicial de comprar um livro. Faz parte do ritual embrenhar-se pelas "veredas" das estantes e pelas capas multicores. Um nome conhecido, outro desconhecido ao lado. Segue a imaginação, vida paralela, vida real.

Muitas vezes é aparência externa do livro que chama a atenção e que promove o encontro do leitor com o livro, com autores que ele nem sequer imaginara antes. Noutras, o comentário de alguém, o ouvir da conversa alheia. Às vezes, lemos um livro por curiosidade, aliás, por ver uma pessoa lendo e querer saber o que ela lia.

Em outros momentos podemos encontrar textos que nos remetam a autores que ainda não conhecíamos, como no poema de João Cabral de Melo Neto:

A literatura como turismo*

Certos autores são capazes
de criar o espaço onde se pode
habitar muitas horas boas:
um espaço-tempo, como o bosque.

Onde se ir nos fins de semana,
de férias, até de aposentar-se:
de tudo há nas casas de campo
de Camilo, Zé Lins, Proust, Hardy.

A linha entre ler conviver
se dissolve como em milagre;
não nos dão seus municípios
mas outra nacionalidade,

até o ponto em que ler ser lido
é já impossível de mapear-se:
se lê ou se habita Alberti?
se habita ou soletra Cádis?


*in Agrestes (1981-1985).


No passeio por uma livraria é bastante comum nos depararmos com outros leitores, amigos, ex-alunos, professores, ou ex-professores, ex-amores. E aí é uma troca de informações, de frases, de trechos, de versos, da própria vida em meio aos livros. Ir à livraria sem saber a quem encontrará se uma pessoa de papel ou de carne e osso, ou as duas situações. Duas conversas, duas maneiras de ver o mundo.

Leitor que se preze, dificilmente, vê alguém lendo e não começa a realizar acrobacias para identificar o título. A impressão que se tem é que o título está propositadamente escondido, para dar trabalho àquele que quer descobrir. E o pior: aquele que lê sabe que o outro deseja saber o quê e, às vezes, dificulta mais ainda, só para ter o gostinho de manter a atenção do leitor presa ao livro. Um prazer meio mórbido. Mas que é bom. Até que se decide virar um pouco a capa para que se possa ver com nitidez o título, pois os dedos, até então em cima da capa, agora jazem inertes na lombada.

Ler não é a melhor coisa do mundo, da existência humana, no entanto, não há dúvida que seja uma das melhores e só aquele que é leitor pode ter uma melhor dimensão desse legado cultural da humanidade.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.