INFORMAÇÃO E SAÚDE


RESUMO DE EVIDÊNCIA EM SAÚDE: APONTAMENTOS SOBRE SUA PRODUÇÃO E SEUS PÚBLICOS

Introdução

 

No contexto acadêmico, o resumo é percebido como uma das partes mais importantes do trabalho científico, pois visa comunicar com rapidez e precisão o conteúdo de uma pesquisa. Geralmente, o resumo é a parte do artigo mais lida pela comunidade acadêmica, se não a única. Por meio de sua leitura, o pesquisador conhece o tema e a estrutura do artigo e, em seguida, decide se está interessado ou não em ler o texto integral. Já o editor científico e/ou o comitê científico de um evento podem decidir, por meio da leitura do resumo, se o artigo se adequa ou não às diretrizes propostas pelo periódico e/ou evento. Outra função importante dos resumos dos artigos científicos é a sua inserção nas bases de dados bibliográficos, sendo úteis para a recuperação dos artigos científicos. O resumo para fins científicos resulta de um processo de abstração que sintetiza em um único parágrafo um conjunto de frases que descrevem cada uma das partes do manuscrito, como objetivo, métodos, resultados, conclusões. Logo, o conteúdo apresentado no resumo deve representar o conteúdo e a estrutura formal do artigo científico integral. Não deve conter informações adicionais ou ocultar informações relevantes; não deve incluir citações, siglas, abreviaturas, tabelas, figuras e ilustrações. Por fim, o resumo deve possuir todas as qualidades de um bom texto, isto é, ser claro, coerente e coeso (DÍEZ, 2007).

 

Se de um lado, a produção de resumos de artigos científicos é uma questão bem resolvida entre os pesquisadores que atuam no contexto acadêmico, de outro lado, a capacidade para a absorção dessa produção em contextos clínicos, ou seja, nos contextos de assistência em saúde é limitada por diversos fatores. Geralmente, as características linguísticas (terminologia, tamanho e estrutura das frases) dos resumos produzidos no contexto acadêmico não consideram os diferentes perfis dos profissionais de saúde, pacientes e familiares que circulam pelo contexto clínico e que nem sempre estão familiarizados ou habilitados para compreender o discurso científico. Além disso, no contexto clínico, há uma falta de tempo destinado à leitura e à atualização de conhecimentos, já que profissionais de saúde possuem uma excessiva carga de trabalho e possuem dúvidas que demandam respostas imediatas: Qual é o diagnóstico? Qual o melhor exame a ser solicitado? Qual tratamento levará a uma melhor eficácia? Como a sobrevida desse paciente pode ser aumentada? Situação um pouco diferente, portanto, do pesquisador que, geralmente, tem mais tempo para pesquisar e encontrar respostas para suas indagações. Diante disso, pode-se concluir que os tempos e processos de busca e de uso da informação no contexto acadêmico e no contexto clínico diferem em alguma medida, o que talvez possa demandar resumos com características diferenciadas para tais públicos.

 

Pelo exposto, este texto focará especialmente nos resumos de artigos científicos que trazem evidências que possam ser empregadas no contexto clínico, aqui denominados de forma reduzida para “resumos de evidências”. Evidência é a sistematização de informações, dados e conhecimento científico que tenham potencial de melhorar a condição de saúde, a continuidade do tratamento e a resiliência; a prevenir doenças ou seu agravamento; a evitar tratamentos, procedimentos diagnósticos, intervenções preventivas ou encaminhamentos inapropriados ou desnecessários; a reduzir preocupações sobre tratamentos, procedimentos diagnósticos ou intervenções preventivas; e a aumentar o conhecimento de profissionais, pacientes ou de seus familiares. Evidências também podem auxiliar os gestores da saúde no estabelecimento de políticas públicas.

 

Para citar um exemplo, em 2015, um artigo científico demonstrou que os pacientes que não usavam capacetes no momento do acidente de trânsito tinham custos hospitalares cerca de R$ 46.000,00 a mais e precisavam de mais cuidados após a alta. Além disso, esse artigo observou uma menor gravidade da lesão e melhor evolução hospitalar na população que usava capacete no momento do acidente de trânsito (KIM et al., 2015). Em tese, essa evidência poderia gerar alguma mudança de comportamento e uma diminuição de acidentes graves envolvendo motociclistas, se fosse conhecida pelos profissionais de saúde ou pelos pacientes e seus familiares.

 

Resumo de evidência

 

Como é de conhecimento amplo, a Cochrane é uma organização internacional, sem fins lucrativos, que tem por objetivo auxiliar pessoas para a tomada de decisões baseadas em informações de boa qualidade na área da saúde.

 

No documento denominado Cochrane handbook for systematic reviews of interventions (HIGGINS; GREEN, 2011), essa organização esclarece que os resumos de evidências devem conter no máximo 400 palavras, devem ser breves, mas sem sacrificar o conteúdo importante do texto integral, pois são publicados em bases de dados bibliográficos, além de serem disponibilizados gratuitamente na Internet. Portanto, é importante que eles possam ser lidos como documentos isolados, ou seja, devem possuir começo, meio e fim. Os resumos de evidências devem contemplar os principais métodos, resultados e conclusões e não devem conter qualquer informação que não esteja no texto integral. Links para referências, tabelas e figuras não podem ser incluídos no resumo. Os resumos de evidências devem considerar como público-alvo tomadores de decisão sobre a saúde em vez de apenas pesquisadores. A terminologia empregada no resumo deve ser razoavelmente compreensível para o público geral em vez de ser inteligível apenas para um público de saúde especializado. As abreviaturas devem ser evitadas, a menos que elas sejam amplamente conhecidas, como HIV. Quando for necessário empregar abreviaturas, na primeira ocorrência no resumo, deve-se apresentar a forma estendida do termo seguida de sua abreviatura entre parênteses. Nomes de medicamentos e intervenções que podem ser compreendidos internacionalmente devem ser empregados sempre que possível. Já os nomes comerciais não devem ser empregados.

 

Estrutura do resumo de evidência

 

Na perspectiva da Cochrane (HIGGINS; GREEN, 2011), o resumo de evidência deve contemplar:

 

Antecedentes: Uma ou duas frases que expliquem o contexto ou que discorram sobre o propósito do estudo. Se a versão estudo é uma atualização de um estudo anterior, é útil incluir, nessa parte do resumo, essa informação.

 

Objetivos: Trata-se de uma declaração precisa do objetivo principal do estudo, de preferência em uma única frase. Quando possível, o estilo da redação dos objetivos deve empregar a seguinte forma: "Para avaliar os efeitos da [intervenção ou comparação] para [problema de saúde] para/na [tipos de pessoas, doença ou problema - se especificado]". Assim, tem-se: “Objetivo: Avaliar o impacto da caminhada na diminuição de peso de mulheres obesas pobres”, onde caminhada é a intervenção, obesidade é o problema, e mulher pobre se refere ao perfil dos participantes do estudo.

 

Métodos de pesquisa: Por exemplo, no caso das revisões sistemáticas de literatura, deve-se incluir as fontes nas quais os artigos científicos e/ou outros documentos foram buscados e incluir o intervalo de datas da busca de cada fonte. Assim tem-se: “Consultou-se a base de dados MEDLINE (janeiro de 1966 a dezembro de 2015)”. Se houver restrições do estudo, com base na língua ou publicação, estas devem ser indicadas. Se indivíduos ou organizações foram contatados para localizar estudos isso deve ser mencionado e é preferível usar a seguinte forma "Entrou-se em contato com empresas farmacêuticas" em vez de incluir uma lista de todas as empresas farmacêuticas contatadas. Se periódicos foram especificamente acessados manualmente, e não por meio de uma base de dados, isso também deve ser mencionado no resumo.

 

Critérios de seleção: No caso das revisões sistemáticas de literatura, devem ser mencionados o tipo de estudo incluído, o tipo de intervenção ou comparação, e a doença, o problema e/ou o perfil da população que foi priorizada na revisão.

 

Coleta e análise de dados: No caso das revisões sistemáticas de literatura, deve-se apresentar a forma como os dados foram extraídos e avaliados, especificando se a extração de dados e avaliação de risco foram realizadas por mais de uma pessoa. Se os autores dos artigos originais foram contatados para fornecerem informações adicionais, essa informação deve ser mencionada nessa parte do resumo.

 

Principais resultados: Deve citar o número total de estudos e número de participantes incluídos na revisão, e breves detalhes pertinentes para a interpretação dos resultados. Deve mencionar os principais resultados qualitativos e quantitativos, geralmente não incluindo mais que seis resultados. Os resultados mencionados devem ser selecionados com base na possibilidade de ajudar alguém a tomar uma decisão sobre se deve ou não usar uma intervenção específica. Os efeitos adversos devem ser mencionados se esses foram objetos de estudo na revisão. As estatísticas devem ser apresentadas de uma forma padrão, como: odds ratio 2,31 (95% intervalo de confiança 1,13-3,45).

 

Conclusão: No caso das revisões sistemáticas de literatura cujo objetivo principal é o de apresentar informações, ao invés de oferecer conselhos ou recomendações, a conclusão deve ser sucinta abarcando os principais resultados. Suposições sobre as circunstâncias práticas, valores, preferências, vantagens e desvantagens não devem ser feitas; e a inclusão de conselhos ou recomendações deve ser evitada. Quaisquer limitações importantes de dados e análises devem ser observadas. Implicações importantes para as futuras pesquisas científicas devem ser explicitadas se não estiverem óbvias ao longo do resumo.

 

Resumo de evidência em linguagem simples

 

Além do resumo da revisão mencionado anteriormente, a Cochrane (HIGGINS; GREEN, 2011) recomenda também a elaboração de um segundo resumo em linguagem mais simples, denominado “plain language summary”. Este resumo é elaborado em uma linguagem que possa ser compreendida pelos pacientes e população em geral. De igual modo que os anteriores, tais resumos são disponibilizados gratuitamente na Internet, e, por isso, poderão ser lidos como documentos isolados.

 

Os resumos em linguagem simples são constituídos por duas partes: um título e um corpo de texto. O título do resumo em linguagem simples deve traduzir o título do estudo original para uma linguagem mais simples, quando necessário. Assim, um estudo que tenha o título “Drogas anticolinérgicas comparadas a outros medicamentos para a síndrome da bexiga hiperativa em adultos" pode ter o título traduzido para seguinte linguagem simples: "Medicamentos para a síndrome da bexiga hiperativa”. O título do resumo em linguagem simples não deve refletir as conclusões da revisão. Ele deve ser escrito em forma de sentença, ou seja, iniciando por uma palavra cuja primeira letra é maiúscula, seguida por palavras com letras minúsculas, e não deve possuir mais que 256 caracteres de comprimento. A segunda parte, ou do corpo do resumo em linguagem simples, não deve ter mais que 400 palavras e deve incluir: uma afirmação sobre a importância da revisão, contemplando, por exemplo, a conceituação do problema de saúde, sinais e sintomas, a prevalência, a descrição da intervenção e as razões para o seu uso; as principais conclusões da revisão, incluindo os resultados numéricos, mas em um formato geral e de fácil compreensão, como o número de estudos considerados na revisão sistemática e o número de participantes envolvidos em tais estudos; comentário sobre quaisquer efeitos adversos; e, breve comentário sobre quaisquer limitações da avaliação (por exemplo, ensaios em populações muito específicas ou estudos incluídos com métodos deficientes). No final do resumo em linguagem simples, podem ser acrescidos links da web como o link da revisão sistemática original. Gráficos ou imagens não devem ser incluídos nesse tipo de resumo (HIGGINS; GREEN, 2011).

 

Na perspectiva da Cochrane, o primeiro esboço do resumo de evidência em linguagem simples deve ser escrito pelos próprios autores do artigo científico e submetido à análise por uma equipe editorial especializada em linguagem simples. Esse processo pode estar sujeito a várias interações entre os autores do artigo e a equipe editorial (HIGGINS; GREEN, 2011).

 

Resumo de evidência no Século XXI

 

Apesar da Cochrane ser uma instituição de grande prestígio, na minha análise, os resumos de evidência poderiam contemplar não apenas linguagem verbal simples, mas também ajudas visuais (fotografias, gráficos, tabelas e desenhos), arquivos sonoros, ou arquivos audiovisuais, pois temos na atualidade tecnologia disponível para incrementar e passar informações sintéticas e mais inteligíveis empregando múltiplos recursos. Além disso, o resumo em linguagem verbal escrita pressupõe a alfabetização do leitor, excluindo, portanto, uma grande parcela da população mundial.

 

Dito de outra forma, a cultura e a alfabetização são dois fatores importantes que precisam ser considerados na produção de textos e materiais que tenham o objetivo de comunicar mensagens sobre saúde. De acordo com a Avaliação Nacional de Alfabetização de Adultos lançado, em 2006, pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos, 30 milhões de adultos daquele país tinham alguma dificuldade com a leitura básica. Além disso, observou-se que apenas 12% da população estadunidense possuía competências proficientes sobre saúde, sugerindo que quase nove em cada dez adultos não possuem muitas das habilidades necessárias para gerenciar sua própria saúde. Sem dúvida, as dificuldades para leitura e as baixas competências em saúde podem afetar a capacidade de uma pessoa para localizar serviços de saúde, preencher formulários de saúde, compartilhar informações pessoais de saúde com os profissionais de saúde, gerenciar doenças crônicas e envolver-se no autocuidado. Logo, produzir resumos de evidência que sejam compreensíveis para um maior número de pessoas parece ser uma necessidade (CENTERS, 2010).

 

Nesse sentido, estudo recente destaca que, para diminuir a desigualdade no acesso à informação entre diferentes grupos populacionais, se faz necessária a produção de sínteses de evidência em formatos não escritos, como na forma de livros falados ou de vídeos. Além disso, ressalta a utilização conjunta de estratégias menos dependentes da comunicação escrita, como a divulgação de notícias por meio do rádio ou por plataformas disponíveis na Web. (DIAS et al., 2015). Obviamente que para essa produção seja efetiva, a sociedade requer profissionais habilitados para a produção de resumos de evidências em linguagens multimodais.

 

Conclusão

 

Este texto apresentou as diferenças entre os resumos de artigos científicos com foco no contexto acadêmico e os resumos de evidência cujo uso está mais voltado ao contexto clínico no qual interagem profissionais de saúde, pacientes e familiares de pacientes. Destacou-se a importância da produção de resumos de evidência que tenham por foco diferentes públicos, pois a síntese do conhecimento científico em linguagem acessível é de grande utilidade para toda a população. Discutiu-se, finalmente, a necessidade de se produzir resumos de evidência que incorporem linguagens que não apenas a linguagem verbal escrita.

 

Em acréscimo ao apresentado no texto, é importante destacar que, no Brasil, os cursos de graduação em biblioteconomia e documentação possuem a disciplina denominada “elaboração de resumos”. Longe de estar “fora de moda”, os conhecimentos passados e adquiridos nessa disciplina são de grande valia para a prática da saúde baseada em evidências. Nesse sentido, deve-se dar grande atenção ao seu processo de ensino-aprendizagem, pois bibliotecários que produzem resumos com qualidade possuem maiores chances de sucesso no setor da saúde. Se eles foram capazes de produzir resumos em diferentes linguagens e para diferentes plataformas Web, tanto melhor.

 

Referências

 

CENTERS for Disease Control and Prevention. Simply put: a guide for creating easy-to-understand materials. 3ed. Atlanta: CDC, 2010. Disponível em: http://www.cdc.gov/healthliteracy/pdf/simply_put.pdf Acesso em: 10 fev. 2016.

 

DIAS, R.I.S.C. et al. Estratégias para estimular o uso de evidências científicas na tomada de decisão. Cadernos de Saúde Coletiva, v. 23, n.3, p.316-322, 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-462X2015000300316&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 10 fev. 2016.

 

DIEZ M., B.L. El resumen de un artículo científico: qué es y qué no es. Invest. Educ. Enferm, v.25, n.1, 2007. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-53072007000100001&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 29 fev. 2016.

 

HIGGINS, J.P.T.; GREEN, S. (ed). Cochrane handbook for systematic reviews of interventions. Ed.5. [s.l.]: The Cochrane Collaboration, 2011. Disponível em: www.cochrane-handbook.org Acesso em: 1 mar. 2016.

 

KIM, C.Y. et al. The economic impact of helmet use on motorcycle accidents: a systematic review and meta-analysis of the literature from the past 20 years. Traffic Injury Prevention, v.16, n.7, p.732-738, 2015. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25919856 Acesso em: 10 fev. 2016.

 

Como citar este texto

 

GALVAO, M.C.B. Resumos de evidências em saúde: apontamentos sobre sua produção e seus públicos. 10 de março de 2016. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2016. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=963


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.