INFORMAÇÃO E SAÚDE


PROJETO EVID@SP: AVALIANDO AS EVIDÊNCIAS EM SAÚDE COM FOCO NA PRÁTICA CLÍNICA

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Ivan Luiz Marques Ricarte

Fabio Carmona

Pierre Pluye

Roland Grad

Danielle Alves Fernandes dos Santos

 

Introdução

 

O presente texto apresenta o projeto Evid@SP, cujo título por extenso é Impacto de informações disponibilizadas no Portal Saúde Baseada em Evidências na prática clínica dos profissionais de saúde do Estado de São Paulo.

 

No contexto da saúde, se de um lado, há muitas informações disponíveis na Web, por outro lado, uma dificuldade que se apresenta é sabermos se a informação disponibilizada pelas diferentes fontes são efetivamente usadas pelos profissionais da saúde, pela população em geral e pelos pacientes. Outra dificuldade atual é sabermos se as informações em saúde que foram acessadas impactaram positivamente na vida das pessoas, ou seja, agregaram alguma melhoria na qualidade de vida.

 

No caso dos profissionais de saúde, sabermos quais informações impactam positivamente em suas práticas clínicas é uma necessidade para:

 

·       o melhor delineamento das políticas públicas relacionadas à produção e à disseminação de informação em saúde;

·       a verificação das lacunas de conhecimento clínico;

·       a adequação dos recursos disponibilizados para a compra de bases de dados nacionais ou internacionais; e

·       a produção de bases de dados brasileiras de informação e evidências em saúde compatíveis com as necessidades informacionais dos profissionais de saúde que atuam em nosso país – marcado por diferenças sociais, educacionais e econômicas.

 

É importante notar que o Brasil possui iniciativas na disseminação de evidências sem saúde. Uma iniciativa mais expressiva é o Portal Saúde Baseada em Evidências, disponibilizado pelo Ministério da Saúde no endereço http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/periodicos. Este Portal viabiliza para todos os profissionais de saúde registrados no Brasil, assim como para bibliotecários e bibliotecas, o acesso a várias bases de evidência (Embase, ProQuest Hospital Collection, Micromedex, Dynamed, Best Practice British Medical Journal, Rede Brasileira de Avaliação de Tecnologias em Saúde, Access Medicine, Access Medicine Emergency, Access Physiotherapy, McGraw Hill Anatomy e Physiology, BMJ Learning e Sports Medicine and Exercise Science in Video, etc). Todavia, os estudos sobre o efetivo uso dessas bases pelos profissionais de saúde brasileiros são ainda embrionários.

 

Objetivos

 

Diante deste contexto, o projeto Evid@SP tem por objetivo analisar o impacto de informações disponibilizadas pelo portal Saúde Baseada em Evidências na prática clínica dos profissionais de saúde do Estado de São Paulo, verificando:

 

1 se a informação disponibilizada causou melhoria no conhecimento de diagnóstico, terapêutica, prevenção ou prognóstico; se gerou aprendizado de conteúdo novo, reforçou o conhecimento já existente ou aumentou a segurança cognitiva do profissional de saúde;

 

2 se a informação disponibilizada possui relevância clínica para o profissional de saúde, ou seja, se a informação é relevante para a assistência de pelo menos um paciente;

 

3 se a informação disponibilizada modificou a assistência prestada ao paciente; se ajudou a justificar algum tipo de escolha durante a assistência prestada ao paciente; se ajudou a entender melhor a condição de saúde do paciente; se a informação foi usada para discutir a condição de saúde com o paciente ou com outros profissionais de saúde;

 

4 se a informação melhorou a condição de saúde do paciente, ou a prevenção de doenças, ou evitou o agravamento da condição do paciente, ou evitou tratamentos e procedimentos desnecessários.

 

Metodologia

 

O projeto Evid@SP possui uma abordagem transdisciplinar (ERICKSON, BUTTERS, 2011) e está sendo desenvolvido por pesquisadores com experiência nas áreas da informática, informação e saúde. O estudo foi aprovado por comitê de ética em pesquisa com seres humanos, possuindo o seguinte Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE): 37030414.0.0000.5440.

 

Na primeira fase do estudo (dezembro 2014-dezembro 2015), estão sendo incluídos como participantes da pesquisa profissionais de saúde, com nível superior, que atuem no Estado de São Paulo, que possuam registro no respectivo conselho regional de sua profissão, do sexo masculino ou feminino, com qualquer idade, que sejam atuantes no SUS, estejam registrados no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES), que possuam acesso à Internet e conta de correio eletrônico, e que atuem diretamente na assistência ao paciente. Segundo o CNES, em outubro de 2013, atuavam no Estado de São Paulo, dentro do SUS, 147.652 profissionais de saúde com nível superior. Assim, o projeto pretende alcançar, pelo menos, 2363 profissionais da saúde a fim de que o estudo tenha um nível confiança de 95% com intervalo de confiança de 2%.

 

Os profissionais de saúde que aderirem ao projeto receberão por correio eletrônico, durante 48 semanas, o total de 144 conteúdos informacionais retirados do portal Saúde Baseada em Evidências. Tais conteúdos terão cerca de 500 palavras, sendo distribuídos às segundas, quartas e sextas, exceto em feriados. O profissional de saúde poderá avaliar ou não o conteúdo informacional recebido, a depender de sua vontade. Se quiser avaliar, ao final de cada conteúdo informacional haverá um link para o instrumento de avaliação do impacto da informação.

 

O benefício direto para o profissional de saúde participante neste estudo é receber em seu correio eletrônico informações potencialmente úteis para a prática clínica e refletir sobre o impacto destas informações em sua prática clínica, incrementando sua consciência sobre a prática baseada em evidências (SACKETT, 1997; MAJID, 2011; PRASAD, 2013). O benefício indireto para o participante é contribuir para que as informações distribuídas por instituições governamentais sejam adequadas à necessidade da prática clínica dos profissionais de saúde atuantes no contexto do Estado de São Paulo. O principal risco para o participante é o desconforto psicológico que pode advir de leitura de informações que afetem seu conhecimento e sua prática clínica.

 

Os conteúdos informacionais a serem empregados no estudo abordarão temáticas em saúde relacionadas ao contexto do Estado de São Paulo, tais como: insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, cardiopatias congênitas, risco cardiovascular, violência doméstica, violência sexual, acidente de trânsito, lesões traumáticas acidentais, lesões traumáticas não acidentais, exposição a poluentes ambientais, doenças alérgicas, obesidade, tabagismo, antimicrobianos, infecções, febre amarela, febre maculosa, leishmaniose, esquistossomose, hanseníase, tracoma, HIV/AIDS, hepatite, tuberculose, saúde mental, crack, gestação, parto, puerpério, cesárea, populações vulneráveis, humanização em saúde, educação em saúde, comunicação em saúde, saúde bucal, câncer bucal, equipamentos de medicina nuclear, hipertensão arterial sistêmica, tecnologias relacionadas a portadores de necessidades especiais, micoses, HPV, norovírus, viroses respiratórias, raiva, anemia falciforme e esclerose múltipla.

 

Em relação à metodologia de disseminação de evidência em saúde, neste estudo, será empregada a metodologia PUSH (envio), na qual são enviadas (por exemplo, por e-mail) ao profissional da saúde periodicamente evidências que possam impactar na prática clínica. No caso, as evidências a serem enviadas e avaliadas serão selecionadas a partir do Portal Saúde Baseada em Evidências.

 

Em relação ao instrumento para a avaliação das evidências, será empregado o Information Assessment Method (IAM) (GRAD, PLUYE e BEAUCHAMP, 2007; PLUYE et al., 2009). Este instrumento tem sido desenvolvido e empregado pelos autores do presente projeto para avaliar outras fontes de informação de evidência em saúde (GALVAO et al., 2013).

 

Em relação ao cálculo do impacto das informações na prática clínica será empregado o Índice de Relevância Clínica da Informação, apresentado em Galvao et al. (2013) e já adotado pela Canadian Medical Association para avaliar o impacto das evidências distribuídas no contexto canadense. Cabe ressaltar que este Índice foi desenvolvido no contexto dos projetos FAPESP 2010/11992-6 e FAPESP 2010/11866-0.

 

Todos os dados coletados pelo estudo serão reunidos em plataforma tecnológica adequada para pesquisa clínica envolvendo seres humanos, localizada na Universidade de São Paulo, por meio da qual será possível relacionar qual informação foi avaliada por cada um dos participantes na pesquisa. Os dados coletados serão arquivados por no máximo 10 anos. Após este período, serão destruídos definitivamente. O participante que desejar sair do projeto terá seus dados integralmente retirados desta plataforma. Em nenhuma hipótese, a identidade dos participantes na pesquisa será revelada em publicações e informativos de qualquer natureza. Por razões éticas, só terão acesso à plataforma da pesquisa os pesquisadores do estudo.

 

Profissionais de saúde interessados em participar do projeto devem acessar o link http://redcap.fmrp.usp.br/surveys/?s=kDGrctJdUQ, para iniciar o seu registro na plataforma do projeto.

 

Resultados esperados

 

O projeto Evid@SP auxiliará a promoção do uso de evidências na prática clínica dos profissionais de saúde do Estado de São Paulo. Adicionalmente, por meio das análises qualitativa e quantitativa das respostas dos participantes do estudo, será possível traçar um diagnóstico sobre as principais barreiras que esses profissionais encontram na percepção das evidências e sua aplicação na prática cotidiana, os conteúdos informacionais de maior relevância para a prática clínica, bem como as lacunas de conhecimento existentes.

 

Integrantes e parceiros do projeto

 

Integram o projeto os pesquisadores da Universidade de São Paulo (Cristiane Galvão e Fabio Carmona), da Universidade Estadual de Campinas (Ivan Ricarte, coordenador do projeto), da McGill University (Pierre Pluye e Roland Grad), bem como uma bolsista (Danielle Santos).

 

O projeto conta ainda com o apoio das seguintes instituições: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FAEPA); Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP); Coordenadoria de Ciência, Tecnologia e Inovação (CCTIS-SES-SP); Núcleos de Avaliação de Tecnologia em Saúde (NATS) do Estado de São Paulo (SES-SP); Diretorias Regionais de Saúde (DRS) do Estado de São Paulo; e Ministério da Saúde.

 

Novas parcerias são igualmente bem-vindas para divulgação ampla e êxito do projeto. Gradativamente, esperamos contar com o apoio dos conselhos regionais e federais de profissionais de saúde, das associações relacionadas às diferentes profissões da saúde, das unidades de saúde e das secretarias municipais de saúde do Estado de São Paulo, bem como com profissionais e instituições que produzem ou divulgam informações no campo da saúde.

 

Maiores informações do projeto estão disponíveis no vídeo Evid@SP disponibilizado no link http://youtu.be/NfpvwXwpG6Q. Já os profissionais de saúde, que atuam no Estado de São Paulo, interessados em participar do projeto devem acessar o link http://redcap.fmrp.usp.br/surveys/?s=kDGrctJdUQ.

 

Referências

 

ERICKSON, P. G., BUTTERS, J. E. Methodological notes on conducting transdisciplinary research. In M. Kirst, N. et al. (ed). Converging disciplines. New York: Springer, 2011. p. 83–95.

GALVAO, M. C. B., et al. The Clinical Relevance of Information Index (CRII): assessing the relevance of health information to the clinical practice. Health Information & Libraries Journal, v.30, n.2, 110–120, 2013.

GRAD, R. M., PLUYE, P., BEAUCHAMP, M. E. Validation of a Method to Assess the Clinical Impact of Electronic Knowledge Resources. e-Service Journal, v.5, n.2, p.113–135, 2007.

MAJID, S., et al. Adopting evidence-based practice in clinical decision making: nurses’ perceptions, knowledge, and barriers. Journal of the Medical Library Association, v.99, n.3, p.229–36, 2011.

PLUYE, P., et al. IAM: A Comprehensive and systematic Information Assessment Method for electronic knowledge resources. In: DWIVEDI, A. (ed). Handbook of Research on IT Management and Clinical Data Administration in Healthcare. Hershey: IGI Publishing, 2009.

PRASAD, K. Teaching evidence-based medicine in resource-limited countries. Journal of the American Medical Association, v.308, n.21, p.2248–2249, 2013.

SACKETT, D. L. Evidence based medicine. Seminars in Perinatology, v.21, n.1, p.3–5, 1997.

Como citar este texto

GALVAO, M.C.B. et al. Projeto Evid@SP: avaliando as evidências em saúde com foco na prática clínica. 27 de novembro de 2014. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2014. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=873


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.