A BIBLIOTECA DO BIBLIOTECÁRIO


  • Coluna voltada para a discussão de textos que abordem temas de interesse da área da Ciência da Informação

A ATUALIDADE DE RUBENS BORBA DE MORAES

A partir de março de 2009 o sítio Infohome, baluarte em defesa e divulgação da biblioteconomia brasileira, passa a contar com uma nova coluna intitulada “A Biblioteca do Bibliotecário”. Essa coluna pretende comentar as fontes de informação, impressas ou digitais, nacionais ou estrangeiras, julgadas importantes para o bibliotecário tanto para o exercício dos seus fazeres profissionais, bem como aquelas úteis para o seu aprimoramento cultural.

 

Nesta primeira contribuição escolhi falar sobre Rubens Borba de Moraes (23/1/1899-2/9/1986). Ele foi, em 1936, juntamente com Adelpha de Figueiredo, um dos responsáveis pela criação da segunda escola de biblioteconomia brasileira. Vale lembrar que o primeiro curso da área foi o da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, implementado em 1915. Mas o Professor Rubens também deixou marcas da sua influência em outras ações: na Semana de Arte Moderna de 1922; na construção da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; na modernização da Biblioteca Nacional; na direção da biblioteca das Nações Unidas em New York; no levantamento exaustivo da bibliografia brasileira e na divulgação das nossas obras raras.

 

Essas e outras histórias sobre o Professor Rubens são saborosamente contadas por Suelena Pinto Bandeira em obra lançada no final de 2007 [O mestre dos livros: Rubens Borba de Moraes. Brasília: Briquet de Lemos Livros, 2007. 129 p. ISBN 978-85-85637-33-0]. Nessa obra, dividida em quatro capítulos, a autora inicia abordando Rubens Borba de Moraes e sua geração, depois as suas facetas como bibliotecário, bibliófilo e bibliógrafo. Em anexo foi incluído um importante levantamento bibliográfico de e sobre o Mestre paulista.

 

Suelena nos mostra que é muito difícil conhecer a história da biblioteconomia brasileira sem abordar o papel exercido por Rubens Borba, podendo, sem sombra de dúvidas, ser denominado o “bibliotecário dos bibliotecários brasileiros”. A autora nos apresenta inúmeras passagens enfrentadas pelo para convencer às autoridades da importância da leitura e da biblioteca para o aprimoramento educacional e cultural do cidadão. Para atingir essa meta era necessário “dotar São Paulo da maior biblioteca pública do país, onde pudesse abrigar toda a população que a ela recorresse (...) O início das obras deu-se em maio de 1938 (...) Começou a funcionar efetivamente em abril de 1943” (p. 32).

 

Borba de Moraes planejou também a criação de uma rede de bibliotecas, inclusive para atender as crianças. O seu espírito pioneiro pode ser visto pela introdução da primeira biblioteca ambulante instalada num carro adaptado e que comportava 900 volumes. “O carro-biblioteca foi desativado, em 1942, pelo prefeito Prestes Maia sob a alegação de que o automóvel ficava imobilizado, horas a fio, (...) proporcionando romances policiais a uma dúzia de vagabundos escanchados nos bancos da Praça da República” (p. 35). Esse serviço, avançado para o final da década de 1930, somente foi reativado em 1979, 37 anos depois! O engraçado é que, por ironia da história, esse mesmo prefeito foi tempo depois, homenageado com o nome de uma biblioteca da rede municipal [situada à Av. João Dias, 822, bairro de Santo Amaro].

 

A primeira associação da nossa classe, a Associação Paulista de Bibliotecários, criada em setembro de 1938, também foi resultado da ação do Professor Rubens. Ela “serviu de modelo para a criação de outras associações nos vários estados, a maioria delas com os mesmos objetivos da precursora” (p. 49). Mas, o Mestre paulista foi arguto ao pronunciar em 1975, no discurso de abertura do Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, realizado em Brasília, que não via “as associações de bibliotecários representarem no Brasil o papel e a influência que associações semelhantes representam em alguns países desenvolvidos. (...) Se tivessem, não teriam deixado a Biblioteca Nacional chegar ao ponto que chegou (...) Não teriam deixado a Biblioteca Municipal de São Paulo tornar-se um caos. (...) O nosso atraso em matéria de biblioteca é a prova da falta de cooperação entre bibliotecários e governo” (p. 49-50).

 

Em 1944 Rubens Borba vai para o Rio de Janeiro, sendo encarregado da reorganização da Biblioteca Nacional (BN). Ele preparou um relatório minucioso onde reportou a difícil situação de conservação do acervo, a precariedade dos serviços, o mau estado de conservação do prédio e o despreparo dos funcionários. Esse é um dos documentos clássicos na área do planejamento bibliotecário brasileiro [posteriormente foi divulgado na Revista de Biblioteconomia de Brasília, v. 2, n.1, p. 91-106, jan./jun. 1974]. A carreira do Mestre Rubens na Biblioteca Nacional seria curta, pois, em dezembro de 1947, “o diretor-geral do ministério mandou chamá-lo e, constrangido, disse-lhe que precisava do cargo para oferecê-lo a uma outra pessoa, indicada ao ministro por um político” (p. 69).

 

Tendo deixado a BN, o Mestre Rubens foi convidado a trabalhar na biblioteca da sede das Nações Unidas em Nova York. Em 1949 foi transferido para o Centro de Informações da ONU em Paris, onde ficou até 1955, quando retornou à sede para ser o novo diretor da biblioteca. Nesse cargo permaneceu por seis anos, até atingir a idade-limite de aposentadoria (p. 75).

 

Em 1967 ele mudou-se para o Planalto Central, onde foi convidado para lecionar no curso de Biblioteconomia da Universidade de Brasília, ficando até 1972. Aos 73 anos resolveu voltar para São Paulo, indo morar em Bragança Paulista, numa casa ajardinada e com a sua magnífica coleção brasiliana.

 

Suelena aborda no capítulo três a faceta de bibliófilo do Mestre Rubens. Ela comenta que, no início a biblioteca do Mestre “era universalista, representando o gosto literário do colecionador. Só começou a colecionar brasiliana (...) quando, em seu retorno ao país, percebeu que não tinha conhecimento da cultura e da história brasileiras. (...) Para isso, começou a comprar, ler e guardar os livros sobre o Brasil” (p. 80). O Mestre escreveu o Bibliófilo aprendiz [4ª. edição. Brasília: Briquet de Lemos; Rio de Janeiro; Casa da Palavra, 2005. 187 p.] onde fala sobre o prazer de colecionar livros.

 

Como bibliógrafo Rubens Borba “contribuiu para o avanço bibliográfico nacional com a inventariação de estudos brasileiros” (p. 85). Ressaltam-se aqui as obras: com a colaboração de William Berrin, o pioneiro Manual bibliográfico de estudos brasileiros [Rio de Janeiro: Ed. Souza, 1949. 895 p.; republicado sob a forma de CD-ROM pelo Senado Federal em 1999]; a monumental Bibliographia brasiliana [2nd ed. Los Angeles: UCLA; Rio de Janeiro: Liv. Kosmos, 1983. 2 v.] com a análise de mais de 10 mil obras raras brasileiras publicadas de 1504 a 1900; a importante Bibliografia brasileira do período colonial [São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1969. 437 p.] com análise das obras de autores nascidos no Brasil e publicadas até 1808; a sua obra póstuma, Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro, em co-autoria com Ana Maria Camargo [São Paulo: USP, 1993. 2 v.], onde analisa os documentos editados pela Impressão Régia em decorrência da vinda da Família Real em 1808.

 

A autora finaliza a sua obra lembrando que “a lição que Rubens Borba de Moraes nos deixa, para além do limite da biblioteconomia, da bibliofilia e da bibliografia, faz-nos crer que o entusiasmo, a capacidade e o amor ao trabalho são os fatores que impulsionam o homem para que este se faça dono do seu próprio destino, e, como tal, útil aos seus contemporâneos e modelar para quem vem depois. (...) fundador de cursos e reformador de bibliotecas, pode servir como exemplo. Se agora os problemas são outros, mas nem tanto assim, em face do nosso atraso – as soluções passam pela mesma acuidade de visão e pela mesma determinação. Nesse aspecto, os pioneiros não envelhecem” (p. 104). A importância e o pioneirismo de Rubens Borba de Moraes precisam ser conhecidos e difundidos. O Mestre dos livros, portanto, é uma obra básica para a biblioteca do bibliotecário brasileiro!


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MURILO BASTOS DA CUNHA

Murilo Bastos da Cunha é professor do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília (UnB). Fez doutorado em biblioteconomia na University of Michigan (EUA) e mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais. Dentre as atividades que exerceu na UnB estão a de diretor da Biblioteca Central, Faculdade de Estudos Sociais Aplicados e chefe do Departamento. Foi presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal (ABDF) e do Conselho Federal de Biblioteconomia. Publicou: Uso de informações científicas e técnicas no Brasil, com Victor Rosenberg (1983); Bases de dados e bibliotecas brasileiras (1984); Documentação de hoje e de amanhã (1986 e 1994), com Jaime Robredo; Para saber mais: fontes de informação em ciência e tecnologia (2001); Dicionário de biblioteconomia e arquivologia (2008), com Cordélia Cavalcanti.