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BIBLIOTECA ESCOLAR: O CALCANHAR DE AQUILES DA ESPANHA

O poeta Homero (século IX a. C – século VIII a.C) imortalizou Aquiles nos versos de Ilíada. Herói que guarda em si a contradição humana, força e fragilidade. Na Guerra de Tróia, ninguém podia imaginar que o soldado, aparentemente, invencível, temido por todos, terminasse vencido por um estratagema tão simples. Mais do que isso, que aquela parte mais insignificante de seu corpo, o calcanhar, pudesse ser mais letal que sua própria espada.

 

Assim como Aquiles, a Espanha tem um calcanhar frágil quando se refere à Biblioteca Escolar, foi o que demonstrou um estudo publicado no mês passado. No entanto, as bibliotecas públicas daqui são impecáveis. Bem estruturadas, possuem uma verba invejável e funcionam a todo vapor.

 

Há sempre um programa a ser oferecido ao usuário, além disso, o atendimento é realizado por pessoal qualificado. A arquitetura e mobiliário, à primeira vista, impressionam muito, mas basta buscar o acervo para impressionar-se mais ainda: acervo atualizado, bem conservado, variedade de material. Ainda há que se destacar as bibliotecas com obras específicas, antigas, próprias para pesquisa de filologia, história, língua, literatura e documentos antigos.

 

Por outro lado, quando se fala em biblioteca escolar, começa a aparecer a vulnerabilidade do calcanhar de Espanha. Mas isso não quer dizer que falte pesquisa sobre o assunto. Há grupos bem estruturados de pesquisa que vêm, paulatinamente, realizando investigações a respeito do tema. E é claro que para os governos, em geral, nem sempre é bom divulgar notícias que exponham as administrações públicas ao julgamento do popular.

 

Acaba de ser editado mais um estudo sobre as bibliotecas escolares na Espanha*. O estudo é minucioso e envolveu uma equipe dos maiores pesquisadores na área, dentre eles, Teresa Maña e Mònica Barò. A pesquisa passeia pelas bibliotecas de ensino primário e secundário, num total de 401 escolas públicas e particulares, mas nos deteremos mais nos dados sobre o primário (ensino fundamental).

 

Um dos dados curiosos é que 90% das escolas primárias possuem biblioteca central e biblioteca de aula, como chamam aos livros que ficam na sala de aula. Essa prática é comum no Brasil também. Mas o que chama a atenção é que mais de 60% dos professores entrevistados dizem usar a biblioteca de aula. Parece bom, mas se pensarmos que a biblioteca de aula tem acervo restrito e, além disso, o aluno não é levado a fazer suas próprias buscas, a embrenhar-se por universos que, nem sempre a seleção feita para a sala de aula, contem.

 

Mais adiante, quanto ao plano de trabalho realizado na biblioteca, mais de 60% das escolas primárias disseram ter um plano, no entanto, praticamente a mesma porcentagem afirma que na prática o plano é incompleto ou ineficiente. E as escolas públicas apresentaram maior desenvolvimento do projeto de biblioteca do que as particulares. Também as primárias apresentaram melhores resultados que as secundárias. 

 

Em relação à utilização do espaço da biblioteca da escola, apenas 20% usa a biblioteca exclusivamente para suas atividades. As demais utilizam para reunião (53%), aulas de reforço (41%) e até como castigo (16,5%).

 

Quando se refere às instalações e equipamentos da biblioteca, o espaço cumpre apenas o que a legislação exige: está localizado mais ou menos na região central do prédio, sem acesso ao exterior. Apenas 16,5% dos entrevistados declaram que o espaço da biblioteca era muito adequado, os demais o classificaram como parcialmente e pouco adequado. Além disso, a biblioteca não está bem sinalizada no conjunto escolar e seu espaço não permite a realização de atividades simultâneas tais como: empréstimos, leitura, trabalho, em grupo.

 

Mais de 60% das escolas pesquisadas disseram que as condições para desenvolver o trabalho na biblioteca são parcialmente aceitáveis, ou seja, não são condições ideais, mas também não impedem de que se realizem atividades no espaço.

 

As principais cidades espanholas estão equipadas com os mais modernos aparatos tecnológicos e fica difícil imaginar que 57,1% das bibliotecas escolares estão com insuficiência deles. Cada biblioteca tem, no máximo, um computador que não está disponível para o uso dos alunos e muito menos tem acesso à internet para pesquisas. Somente 8,9% das escolas públicas consultadas se consideraram muito bem equipadas.

 

Em relação ao acervo, os livros ainda constituem a maior parte dele. Por outro lado, permanece a carência de materiais de informação detectada na pesquisa realizada há quatro anos atrás. Também não são confortáveis os dados sobre a quantidade de livro por aluno (de acordo com a IFLA, a coleção básica deve conter, no mínimo, 2.500 volumes): 31% das escolas pesquisadas não estão seguindo a recomendação internacional de 10 itens/aluno. Existem áreas como as de tecnologia e educação física que são as piores dotadas de exemplares na biblioteca da escola.

 

Aqui, como no Brasil, predominam professores no trabalho na biblioteca da escola. As escolas que têm bibliotecário são porque contrataram a parte, com a colaboração da associação de pais. O tempo de funcionamento da biblioteca deixa a desejar, mas a escola possui uma equipe que trabalha em conjunto para a realização das atividades na biblioteca. Aqui, até a direção da escola está envolvida no trabalho pedagógico com a biblioteca. Numa das escolas públicas que visitei, naquela tarde, era a vez da diretora compartilhar o momento de leitura com os alunos da 4ª série.

 

Enfim, de tudo isso, pode-se ficar com a impressão de que as coisas não funcionam, de abandono. Não é bem assim, problemas existem, mas há grupos de pesquisadores como os que realizaram esse estudo e que estão a mostrar dados, a confrontar, a exigir mudanças das autoridades e não há dúvidas que essa situação vai mudar num período curto. Além do mais, a presença das bibliotecas públicas é muito forte, o que pode impulsionar o desenvolvimento necessário à biblioteca escolar.

 

A biblioteca escolar ainda é o calcanhar de Aquiles da Espanha, mas um calcanhar descoberto, que mostra suas fragilidades e busca meios para fortalecer-se contra o soldado intempestivo da ignorância.  

 

*disponível em http://www.fundaciongsr.es/


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.