LEITURAS E LEITORES


A ESCRITA, UMA INVENÇÃO HUMANA

A escrita é uma invenção recente se comparada ao percurso da humanidade. Pode-se pensar na invenção da escrita há, aproximadamente, 6 mil anos pelos sumérios, na Mesopotâmia, região atualmente conhecida como Iraque. Nesse período, a escrita foi chamada cuneiforme, pois era feita em tabuletas de argila e os registros mais antigos dela são as Tábulas de Uruk (região do Iraque). Pareciam com livros de contabilidade ou documentos administrativos, pois continham listas de cabeças de gado e de sacos de grãos.

 

 

(Tablet from Uruk III (c. 3200–3000 BC) recording beer distributions from the storerooms of an institution, British Museum/Jim Kuhn in Wikipedia.org)

Em cada período, em regiões distintas do mundo, a escrita foi executada em suportes que estavam disponíveis na sociedade: argila, pedra, plantas, até chegar ao mundo eletrônico de hoje. Na Pré-História, por exemplo, os desenhos nas cavernas (pinturas rupestres) podem até ser entendidos como uma das primeiras manifestações de escrita do ser humano. Assim como uma criança hoje rabisca paredes, o ser humano também passou pela formação pré-histórica da escrita.

Nesse período inicial de formação, a escrita era chamada pictórica, pois era o desenho daquilo que se queria dizer, ou seja, quando se desenhava gato, queria dizer gato mesmo.

Com o tempo, com a aquisição da linguagem e amadurecimento do uso da escrita, veio a necessidade de escrever mais coisas, com elaboração mais complexas. Além de boi, o ser humano precisava escrever boiada, carne. Desse modo, o desenho começa a ser tornar uma ideia, mais que uma única coisa. Nasceram os primeiros símbolos, e em decorrência deles, a escrita ideográfica.

Assim, a escrita foi se desgarrando da representação fiel do que significava e começava a ser apresentada por símbolos que, no futuro, seriam chamados letras e que formariam as palavras, também designadas signos

Do extenso e contínuo percurso de transformação da escrita, das viagens entre os povos, do comércio, do intercâmbio cultural, nações vão se influenciando e criando novos suportes para registrá-la. Desde a escrita realizada pelos sumérios (mesopotâmios/babilônios) no barro mole (argila) com um bastão para fazer as marcas (letras) até hoje essa evolução não parou.

Próximos dos sumérios havia os egípcios que gravavam na pedra a escrita hieroglífica. Era próprio da cultura egípcia o registro em suporte que pudesse durar uma eternidade. Posteriormente os egípcios inventaram o papiro. Esse novo suporte era feito da planta que era abundante na região do Rio Nilo. Logo, o registro da escrita torna-se mais fácil em comparação aos registros em pedras, tanto para escrever quanto para manusear e armazenar.

 

 

(https://www.descobriregipto.com/papiro/)

Com isso, os egípcios acabaram simplificando a quantidade de hieróglifos e criaram outras maneiras de escrita: a hierática e a demótica. A escrita hierática é a derivação da escrita hieroglífica cursiva. Era usada para escrever cartas, contabilidade, fazer listas, era muito comum no comércio.

Era redigida da direita para a esquerda. E essa escrita passou a ser utilizada em composições religiosas e literárias.

Posteriormente, surgiu a escrita demótica ou popular, muito mais abreviada, mas que também foi escrita em pedra, como é possível constatar na Pedra de Roseta, que tem o texto gravado em três escritas distintas: primeiro hieróglifo tradicional; o texto do meio é o exemplo de escrita demótica. A parte final é em grego antigo.

 

 

(https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta )

A civilização egípcia valorizou a escrita e os trabalhadores que exerciam essa função eram chamados escribas. Eles tinham prestígio social e econômico naquela cultura, eram muito valorizados pelos faraós.

A evolução da escrita egípcia chegou à escrita fonética, embora não tenha sido valorizada. Essa escrita era parecida com a existente hoje no mundo ocidental: cada letra-símbolo tinha um som. Assim, foram mais de três mil anos de civilização registrados pelos egípcios e que impactaram as civilizações do mundo antigo, o que reverbera até hoje. Até então, a escrita não era fonética.

Mais tarde, os fenícios (libaneses) adaptaram o alfabeto fonético egípcio e criaram o alfabeto com 22 letras, predominantemente consoantes, que foi usado por cerca de mil anos e influenciou outras civilizações, dentre elas, a grega.

Os gregos adaptaram o alfabeto fenício, deram-lhe novas letras, acrescentaram as vogais e instituíram a regra de escrever da esquerda para a direita, diferente do que existia até aquela época. Portanto, o processo da escrita tornou-se um pouco mais parecido com o sistema atual. Posteriormente, os romanos em contato com o alfabeto grego também fizeram adaptação, em especial no formato das letras. Assim, o alfabeto romano se disseminou e se tornou o sistema de escrita alfabético mais usado em nosso planeta, um dos mais importantes.

Para Fischer (2009, p.10):

A escrita é, no entanto, muito mais que “a pintura da voz” como queria Voltaire. Tornou-se a suprema ferramenta do conhecimento (ciência), agente cultural da sociedade (literatura), meio de expressão democrática e informação popular (a imprensa) e uma forma de arte em si (caligrafia), para mencionar apenas algumas manifestações.

A escrita é uma invenção humana utilizada para ampliar a comunicação, para provocar encontros do ser humano consigo mesmo e com o outro, com sua história, com seu presente, com seus antepassados, com a herança cultural produzida ao longo da História, principalmente, para provocar encontros entre a leitura e os leitores.

Consultas

DESCOBRIR O EGITO. In: Descobrir o Egito. Disponível em: < https://www.descobriregipto.com/papiro >. Acesso em:05 mai 2021.

FISCHER, Steven Roger. História da escrita: tradução Mirna Pinsky. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

PEDRA DE ROSETA. In: WIKIPEDIA: enciclopédia livre. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta>.Acesso em:06 mai 2021.

ROCHA, Ruth; ROTH, Otávio. O livro da escrita. São Paulo: Melhoramentos, 2008.

TABLET FROM URUK III (c. 3200–3000 BC) recording beer distributions from the storerooms of an institution, British Museum. In: WIKIPEDIA: enciclopédia livre. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Uruk#/media/File:Pictographs_Recording_the_Allocation_of_Beer_(London,_England).jpg .Acesso em:06 mai 2021


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.