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FRBR-LRM: MAIS UM REQUISITO PARA REMODELAR O CATALOGADOR

Dentre os clássicos da literatura universal, certamente, a obra Os Três Mosqueteiros, criada por Alexandre Dumas (pai), destaca-se como principal na categoria dos romances escritos de capa-e-espada. Aliás, uma das obras cuja expressão pode ser encontrada em um sem número de traduções, relacionados à diversas versões e adaptações e que podem ser encontradas em variadas manifestações (impresso e digital). Cada um dos personagens tinha um perfil que se somava aos demais.

 

Também, pode-se destacar, na área dos HQs, o Quarteto Fantástico que é uma equipe de super-herói de histórias em quadrinhos publicadas pela Marvel Comics, e criado pelo escritor-editor Stan Lee e o ilustrador Jack Kirby, os quais inauguraram um novo nível de realismo no meio. Em todos eles, havia uma equipe de personalidades independentes, cujas competências se completavam, quando associadas.

 

Por analogia com o reino da catalogação, na atualidade, temos novos protagonistas da fundamentação teórica do registro bibliográfico. São compostos por três diferentes modelos, para aspectos específicos do universo bibliográfico, desenvolvidos de maneira independente por grupos de trabalhos vinculados à IFLA, ao longo dos últimos anos, estes modelos são:

 

·         Requisitos funcionais para registros bibliográficos (FRBR), com relatório final aprovado em setembro de 1997;

·         Requisitos funcionais para dados de autoridade (FRAD), com relatório final aprovado em março de 2009.

·         Requisitos funcionais para dados de autoridade de assunto (FRSAD), com relatório final aprovado em junho de 2010.

 

O modelo dos “requisitos funcionais” pretende servir de referência conceitual estruturado no conceito de entidade-relacionamento. Além dos já existentes, novos modelos estão sendo desenvolvidos na medida que o universo bibliográfico se expande digitalmente.

 

Assim, um quarto requisito está oficializado como novo integrante da família FR dos modelos conceituais. Denomina-se Functional Requirements for Bibliographic RecordsLibrary Reference Model, ou, traduzido como: Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos – Modelo de Referência Bibliotecária, FRBR-LRM – também conhecido como “modelo consolidado” [se um era pouco, dois estava bom, e três era demais, o quarto é para complicar ainda mais a catalogação].

 

Certamente que os três modelos criados adotam pontos de vistas e soluções distintas para problemas bibliográficos comuns.

 

O objetivo agora é o de concentrar os três modelos funcionais em um só, de forma a ser aplicado na solução para problemas complexos, com pouca orientação dada pelos modelos preexistentes.

 

Apesar do FRAD e FRSAD terem sido finalizados respectivamente em 2009 e 2010, constatou-se a necessidade de combinar ou consolidar a família FR em um modelo único e coerente de forma a facilitar a compreensão geral dos modelos e eliminar obstáculos para a sua adoção.

 

Neste sentido, o Grupo de Revisão do FRBR, desde 2010, iniciou a elaboração do modelo consolidado. Por meio de uma série de reuniões de trabalho se redigiu, em abril de 2012, o primeiro desenho de consolidação das tarefas do usuário, sobre o qual se estrutura os fundamentos do FRBR-LRM. Em 2013, em evento na cidade de Singapura, o Grupo de Revisão do FRBR constituiu o Grupo Editorial de Consolidação (CEG), centrado na reformulação detalhada dos atributos e relacionamentos, e na redação do modelo.

 

Entre os anos de 2014 e 2015, informes foram emitidos sobre os progressos alcançados pelo Grupo de Revisão do FRBR. O último esboço do relatório final, referente ao trabalho do CEG se constitui em um primeiro informe público sobre o modelo, até então denominado, provisoriamente, pela sigla FRBR-LRM, bem como, os princípios que foram aplicados em seu desenvolvimento.

 

O FRBR-LRM, a exemplo dos demais requisitos funcionais, é um modelo de referência conceitual baseado na estrutura de modelagem entidade-relacionamento. Em termos gerais de enfoque e metodologia, o processo de modelagem, que resultou no FRBR-LRM, decorre da abordagem adotada no estudo original do FRBR. Entretanto, na seleção das tarefas do usuário que proporcionam o enfoque do modelo, foram consideradas as necessidades de uma ampla variedade de usuários dos dados bibliográficos e de autoridade.

 

Entendeu-se que os dados poderiam ser utilizados por leitores, estudantes, pesquisadores e outros tipos de usuários, além dos próprios bibliotecários, e por outros agentes inseridos na cadeia da informação bibliográfica, como os editores, distribuidores, provedores, etc.

 

Semelhante aos modelos FRBR e FRSAD, o FRBR-LRM se ocupa dos dados e funcionalidades que necessitam os usuários, denominados na literatura de usuários finais (e os intermediários que atuam na representação destes usuários finais) no que se refere à satisfação das suas necessidades informacionais.

 

Da mesma forma, também se ocupa das necessidades dos agentes: bibliotecários, e de outros responsáveis pela criação e manutenção dos dados bibliográficos e que, basicamente, desenvolvem tarefas similares no exercício de suas funções.

 

No contexto brasileiro, a comunidade bibliotecária envolvida com o processo de compreender as tarefas dos usuários, determinadas pelos novos princípios da catalogação, necessita dedicar melhor atenção ao entendimento e discussão de suas funções e demandas, enquanto agente enfocada pelo novo modelo.

 

Uma restrição inicial ao FRBR-LRM se refere à necessidade de metadados administrativos, e aos relativos à gestão de dados bibliográficos e de autoridade que também possam satisfazer as necessidades dos usuários. A associação destes dados e das suas tarefas administrativas são vitais para a prestação de serviço. Entretanto, estas tarefas não se encontram tratadas no âmbito e nem no objetivo do modelo consolidado.

 

Outro aspecto, é que o modelo FRAD difere dos outros dois modelos originais e do FRBR-LRM. O FRAD considera em seus propósitos tanto as necessidades dos usuários finais, como as necessidades dos dados de usos administrativos pelo bibliotecário aplicados na definição das tarefas do usuário.

 

Neste sentido, o FRBR-LRM se baseia em cinco tarefas genéricas do usuário, que confirmam a sua orientação às necessidades do usuário, a saber:

 

§  Encontrar: buscar segundo critérios pertinentes a fim de reunir informação sobre um ou vários recursos de interesse.

§  Identificar: entender a natureza dos recursos encontrados e distinguir entre os recursos similares.

§  Selecionar: determinar a pertinência dos recursos encontrados e escolher (aceitando ou excluindo) recursos específicos.

§  Obter: acessar o conteúdo do recurso.

 

As tarefas do usuário são formuladas sob o enfoque do apoio à capacidade do usuário em realiza-las. Na descrição das tarefas, o termo "recurso" é usado de forma ampla para representar a qualquer das entidades definidas no FRBR-LRM, assim como, aos recursos reais da biblioteca.

 

A decomposição do processo de busca da informação contido nas cinco tarefas pretende extrair os aspectos básicos deste processo. Ainda que as tarefas se enumerem em uma ordem determinada, a intenção não é a de indicar que estes são passos obrigatórios no processo de busca realizado pelo usuário.

 

Em realidade, a busca é um processo iterativo e tangencial em qualquer das etapas. Algumas tarefas do usuário podem ocorrer de maneira simultânea na sua mente (identificar e selecionar, por exemplo).

 

As quatros tarefas (encontrar, identificar, selecionar, obter) podem ser vistas, também, como generalizações das tarefas do FRBR, até por terem os mesmos nomes. As tarefas encontrar e identificar também aparecem no FRAD e FRSAD.

 

O FRBR-LRM inclui, também, a tarefa explorar definida no FRSAD, bem como a tarefa contextualizar constante do FRAD. Entretanto, a tarefa justificar do FRAD, em sendo uma tarefa relacionada com o trabalho do bibliotecário, não se encontra abordada no âmbito de aplicação do FRBR-LRM.

 

Um aspecto específico do Modelo é a definição de uma entidade única de nível superior denominada res (ou "coisa" em latim, uma generalização da entidade do FRSAD denominada thema). As outras dez entidades constantes no Modelo são definidas como subclasses diretas ou indiretas do res. Das dez entidades, oito são consideradas subclasses diretas do res, são elas: obra, expressão, manifestação, item, agente, nomen, lugar, período de tempo. No quadro 01, compila-se estas entidades e suas relações.

 

 

Quadro 01: Entidades do FRBR-LRM

Entidade

Definição

Fonte

Res

Qualquer entidade no universo do discurso

Renomeado do FRSAD: Thema

Obra

Mantido do FRBR

Expressão

Mantido do FRBR

Manifestação

Mantido do FRBR

Item

Mantido do FRBR

Agente

Entidade que exerce relações de responsabilidade com a Obras, Expressões, Manifestações ou Item.

Nova: superclasse de Pessoa e Grupo

Pessoa

Ser humano individual

Mantido do FRBR

Grupo

Coletivo ou organização de pessoas que utiliza um nome particular e atua como uma unidade.

Nova: inclui os tipos Família e Entidade Corporativa

Nomen

Qualquer signo ou disposição de signos pelo qual uma entidade é conhecida

Fusão de FRSAD: Nomen; e FRAD: Nome e Ponto de acesso controlado (inclui o tipo Identificador)

Lugar

Extensão de espaço dada

Readaptado do FRBR: Lugar

Período de tempo

Extensão temporal com um princípio, um final e uma duração

Nova

Fonte: Compilado do Relatório do FRBR-LRM

 

As duas entidades finais (lugar e período de tempo) são subclasses da entidade agente que é composta de pessoa e grupo.

 

Por último, no FRBR-LRM estão predefinidos três tipos específicos de entidades: família e entidade corporativa, que são tipos de grupos, e o identificador que é um tipo de nomen.

 

Ainda, diferente dos modelos FR existentes, o FRBR-LRM estrutura suas entidades mediante relações hierárquicas. Significa que algumas entidades se declaram como superclasses de outras entidades que, portanto, têm relações de subclasse com aquelas.

 

Qualquer instância de uma entidade subclasse é também uma instância da superclasse. Esta relação é expressa como IsA (é um/a). Isto permite simplificar o modelo e evitar a repetição dos atributos e as relações que se definem.

 

Por exemplo, no FRBR-LRM a entidade pessoa é uma subclasse da entidade agente; isto pode expressar-se como: Pessoa ßàIsAßàAgente.

 

Posto que todas as pessoas são agentes, qualquer relação ou atributo que se aplica à entidade agente, também será aplicada à entidade pessoa, sem necessidade de ser definidos explicitamente para a entidade pessoa.

 

Isto não se cumpre no sentido inverso; as relações ou atributos definidos explicitamente para as entidades subclasse não se aplicam automaticamente a toda a superclasse. Assim, por exemplo, a entidade pessoa tem com a entidade lugar a relação: é o lugar de nascimento de; esta relação não se mantém para aqueles agentes que são grupos (os tipos família e entidade corporativa).

 

No geral, com exceção daquelas entidades relacionadas por hierarquias IsA, as entidades declaradas no modelo não estão articuladas. As entidades não articuladas não podem ter nenhuma instância que às vezes sejam uma instância de mais de uma destas entidades.

 

Estes últimos parágrafos, procuram ilustrar a abordagem geral do modelo, indicando que a finalidade do FRBR-LRM não é de um simples processo de encaixar os três modelos em um único conjunto, mas um exercício de modelagem para resolver as diferenças entre os modelos. Ele requer um olhar atento dos profissionais aos modelos existentes, com vistas a incorporar os conhecimentos adquiridos desde suas publicações, e por meio dos quais se possa subsidiar o processo de pesquisa realizada pelo usuário, além da experiência com a aplicação dos modelos conceituais no ambiente de trabalho bibliotecário.

 

Entretanto, observa-se que o Modelo tem recebido questionamento por parte da comunidade bibliotecária. Dentre os questionamentos, comenta-se a existência de muitas hipóteses por trás do relatório apresentado e que não são compartilhados com a comunidade profissional, incluído o contexto global do FRBR-LRM.

 

Por exemplo, indaga-se se ele pretende ser um modelo para sistemas de bibliotecas reais? Também, a exemplo do FRBR, as tarefas do usuário são consideradas inadequadas para expressar a complexidade das necessidades dos utilizadores a quem o catálogo bibliográfico deve satisfazer.

 

Nota-se, nas primeiras discussões, que o FRBR-LRM apresenta pouca clareza em relação ao modelo de entidade e a finalidade de um modelo conceitual, dentro desse contexto. Há dúvida se o FRBR-LRM é um modelo descritivo do universo bibliográfico, ou se tem a intenção de ser prescritivo dos dados bibliográficos que descrevem os recursos da biblioteca.

 

Enfim, como no HQ, aguardemos os próximos capítulos; e como nos romances de capa-e-espada esperemos que nos capítulos finais, se chegue a um bom termo na compreensão da história.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.