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Colunas Sueli Bortolin

SOS: O QUE FAZER COM A POESIA NA SALA DE AULA?
[Julho/2009]

Adriano Messias

 

O desafio da poesia - Esta é uma pergunta que muitos professores já devem ter feito a si mesmos, afinal, trabalhar poesia na sala de aula pode ser um grande desafio. Tão grande, que chega a assustar e desanimar algumas vezes. Não que haja uma delimitação muito clara do que chamamos de poesia ou prosa em literatura: muitos são os textos que se enquadram na deliciosa posição limítrofe da prosa poética. Porém, de uma forma mais intuitiva do que teórica, sabe-se muito bem que a poesia, quase sempre, é uma expressão literária muito próxima à musicalidade, à sinestesia e ao lúdico e, por trazer tantas vezes um texto curto, que apela à abstração, fica difícil “ensiná-la” aos alunos. Creio que aí está um problema inicial. Poesia não é para se ensinar nada em princípio, como qualquer elemento artístico. Foi pensando nas dificuldades que os professores enfrentam com textos poéticos que resolvi escrever este artigo.

 

O que lhe disseram ser poesia? - Muitos professores, quando se deparam com um texto ou um livro totalmente poético, encontram os fantasmas de sempre: “o livro é lido por mim e pelos meus alunos mas... e depois? Por quais duras penas passarei e por quanto tempo deverei e conseguirei trabalhar o livro de poesias com meus alunos?”

 

Retrocedendo em nosso processo educacional pessoal, confrontamo-nos com uma pergunta elementar: “eu gosto ou não de poesia?” Se gosto, um ponto positivo. Se não, fica realmente difícil fazer qualquer coisa com ela. Uma segunda pergunta seria: “o que entendo ou me fizeram entender por poesia?” Se você ainda crê que a poesia é uma forma textual que traz tudo rimadinho, dividido em estrofes e versos, pode vir a encontrar problemas ao se deparar com um poema em versos livres e brancos (1). Concordo que, na formação do professor do ensino fundamental e médio, ainda há lacunas que devem ser preenchidas: uma delas é a da abrangência e da compreensão dos gêneros e estilos literários, da profusão de autores e textos, tudo isso tendo de casar muito bem com o programa a ser cumprido, com as horas de trabalho, com a relação muitas vezes conturbada entre aluno e professor.

 

Assim, é muito comum um professor, entre escolher um texto em poesia ou em prosa, preferir o segundo. É algo aparentemente mais fácil, pois um conto pode apresentar a estrutura clássica que os gregos nos legaram: início, meio, fim... e ponto final. A poesia também pode fazê-lo, porém, ela pode prescindir de pontuação, a leitura pode parecer quebrada, truncada, confusa, e o aluno pode não entendê-la. Ou então o próprio professor pode se sentir inseguro com um texto deste tipo. Há tempos que os textos em prosa, em poesia e em prosa poética não estão muito preocupados com estas questões estruturais mais “clássicas”. Por isso, o entendimento de um texto poético como sendo mais “abstrato” ou mais “difícil” do que um texto em prosa é puro preconceito. Há que se ter mais intimidade com o fazer poético.

 

A partir destas abordagens iniciais, sinto-me à vontade para fazer algumas considerações que podem ajudar no trabalho do professor.

 

Quais noções de poesia você usa com seus alunos? - Primeiramente: poucas pessoas sabem que a estrutura brasileira de se adotar um livro didático exclusivo e único em um disciplina (neste caso, a de Língua Portuguesa ou seu equivalente) não é regra geral em outros países. Há projetos pedagógicos em outros lugares que vão preferir mais de um livro didático para uma determinada disciplina, ou então livro algum. É que a relação entre professor – aluno e livros é diferente da nossa, dependendo da cultura e da história da educação. Porém, este não é o objeto de nossa discussão. Mencionamos este dado para pensarmos qual noção de poesia e quais exemplos de textos poéticos os livros didáticos que usamos com nossos alunos nos oferecem. É muito comum o professor e, por conseguinte, o aluno, ficarem acostumados com a ideia de poesia que é oferecida pelos livros didáticos. Não que tais modelos e exemplos não sejam corretos ou bons, mas temos de nos lembrar que o livro didático presta-se aos seus objetivos pedagógicos e, assim, pede uma economia de tempo e de espaço, sem poder usar de todos os recursos que gostaria. Basta você se lembrar de seu contato com a poesia quando criança. É muito comum as gerações dos professores que hoje têm 25, 35, 45 anos ou mais terem passado por experiências de leitura em que os livros didáticos de língua portuguesa traziam poesias com finalidades específicas: ensinar um tema, tratar de uma data comemorativa, mostrar a presença das rimas e até mesmo alguma questão sintática, ou simplesmente “equilibrar” o predomínio quase absoluto dos textos em prosa – contos, crônicas, cartas, etc. Desta maneira, sem que percebemos, vamos repetindo essas mesmas fórmulas já cansadas, sem cumprirmos o papel que creio ser o de todo professor: abrir caminhos e mostrar possibilidades.

 

Quando a poesia servia para moralizar - Chamo também a sua atenção aqui, professor, para que não se sinta culpado por nada disso que tenha vivido: a forma como o Brasil se abriu pouco a pouco para o que chamamos de literatura infanto-juvenil se deu de forma muito lenta e tímida. Os primeiros textos escritos para crianças, no final do século XIX e início do XX, tinham a finalidade de moralizar, ensinar os bons costumes e valorizar a pátria, a língua e o povo. Eram muito presentes as poesias que ilustravam alguma data comemorativa, como Dia da Bandeira ou Independência, e que faziam parte dos repertórios de declamações nos eventos escolares. Foram muitas as gerações de alunos que aprenderam poesia como as que estavam impressas nos livros de autores bem intencionados, como a senhora Júlia Lopes de Almeida. Imagine um menino de nove anos, nas primeiras décadas do século passado, lendo um poema com estrofes assim:

 

“O que é bom produz bondade

E que é que produz a guerra

Da pátria e da humanidade

         O homem desterra.” (2)

 

Ou então, aquele poema famoso de Olavo Bilac em versos dodecassílabos, que começa desta forma:

 

“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! Não verás nenhum país como este!” (3)

 

Quebrar um paradigma tão consolidado é difícil, mas não impossível. É por isso que gostaria de discutir alguns elementos que podem ser pensados e adotados por você, professor. Um deles é: a poesia não precisa ser usada como elemento didático, como pretexto para se ensinar, por exemplo, regras gramaticais. É muito comum o uso que os professores fazem da poesia como um recurso meramente instrumental. O processo do “ensino” de uma poesia muitas vezes adota “passos” como: a leitura em voz baixa, a leitura em voz alta - coletivamente ou não -, a “interpretação” do texto – quando o professor acha isso possível – com perguntas óbvias e questionários para serem respondidos, prosseguindo com a cópia do poema ou a memorização do mesmo, ou alguma outra atividade relacionada a ele: criar um novo poema, contar os versos e especificar as estrofes, discutir rapidamente a presença das rimas ou não. Há ainda os professores que se preocupam com o ensino da contagem métrica e terminam por enfatizar em excesso esta característica.

 

Por meio de atividades assim, é muito fácil o professor ser “enganado” pelos alunos, que terão dentro de si – desde então – as sementes do ódio à poesia pela forma como aprenderam a se relacionar com ela.

 

Pessoalmente, penso que levar poesia para a sala de aula e, o mais importante, para a vida do aluno, pode prescindir de tudo isso que relatei. É preciso um “esvaziar” das antigas técnicas e procedimentos para se permitir o contato com um novo paradigma: o da poesia e prazer.

 

Sem medo de errar - A poesia, como qualquer texto literário e, em maior extensão, qualquer objeto simbólico com valor artístico e capaz de sensibilizar, pode nos permitir um mergulho sem fim e múltiplo, uma descoberta atrás da outra e, com isso, um gozo e um eterno brincar com as palavras, sons e sentidos. Este mergulho se dá ao sentir a poesia, pensar a poesia, discutir a poesia, brincar com a poesia, mas tudo sem as velhas angústias de acertar ou errar. O professor tem de se lembrar que, em se tratando de interpretação de texto, não há resposta certa ou errada. Um livro de poesias, ao ser lido, não tem de ser necessariamente verbalizado em toda a sua totalidade pelo aluno, como se ele fosse um anatomista tentando dissecar uma rã e denominar todas as suas partes. A poesia reside no plano do simbólico e, como tal, pode ter vários entendimentos, e é essa plurissignificação que marca o fazer poético.

 

Deixo aqui como sugestão um excelente momento para uma reunião de professores que quiserem entender melhor o que estou dizendo: é a exibição do filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989), em que um professor de literatura nada ortodoxo, representado por Robin Williams, tenta “abrir” a cabeça de seus alunos que estão sendo educados e “amestrados” para serem “os grandes homens do futuro”. A primeira atitude polêmica que o catedrático terá ao entrar na sala de aula é mandar os alunos abrirem um livro que se propõe a ensinar poesia e mandar que eles arranquem um prestigiado capítulo que tentava matematizar e diagramar o fazer poético para ensinar ao leitor analisar se uma poesia era boa ou ruim, se tinha qualidade ou não...

 

Quando você, professor, se deparar com um livro de poesia, ou simplesmente com um poema, e quiser trabalhar o mesmo com os alunos, deixe, antes de tudo que o texto fale por si mesmo. Observe as reações dos alunos, o impacto que as palavras e os sentidos das frases causam na classe, antes de se proteger com perguntas que deveriam ser respondidas para preencher os “espaços” da sua angústia. A poesia, assim, terá uma proximidade mais natural com a criança ou o adolescente que está descobrindo o mundo. E esse descobrir tem de ser o mais tranquilo possível, sem cobranças e sem passar ideias de que poesia é x ou y. O aluno consegue, com sua própria capacidade, ir norteando a si mesmo, mostrando seus achados e estabelecendo suas dúvidas ou conclusões.

 

Uma sugestão - Mais do que propor um texto poético em comum, entretanto, acho mais produtivo e mais fértil simplesmente expor os alunos aos livros de poesia. É uma excelente alternativa levá-los à biblioteca da escola ou trazer para a sala de aula ou para a sala de leitura alguns livros de poesia e pedir que os folheiem, leiam algumas delas (não precisam ler o livro todo, nem ler do início para o fim). Procure observar e depois perguntar o que os alunos sentiram, o que pensaram, como as palavras brincaram na cabeça e na boca de cada um. Ninguém precisa ter medo de ler “errado”, de entender “errado”. Assim, você conseguirá se perceber como responsável pela imagem que os alunos guardarão da poesia e do fazer poético, especificamente, e do processo educacional, como um todo. Tenha como exemplo o trecho deste conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade, “O Elefante”:

 

“Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.”

 

Você pode se dizer: “mas este poema pode ser difícil para alguns meus alunos”. A questão, professor, é entender que todo texto é, na verdade, um palimpsesto. Na Idade Média, não havia papel para escrever, apenas couro de animais e pergaminhos. Quem escrevia, ou melhor, quem copiava os livros importantes da humanidade eram os monges católicos. Ante a escassez de suporte para a escrita, de tempos em tempos eles tinham que, infelizmente, passar um estilete sobre a superfície escrita do couro e registrar sobre ela outro conhecimento. E assim era feito sucessivamente, até que surgiu a invenção da imprensa. Hoje, os antropólogos e arqueólogos descobrem estes documentos medievais e percebem, sob a última camada, a sombra de outros escritos, um tanto apagados. E desenvolveram uma técnica que recupera o texto anterior. Mas eis que então descobrem um texto ainda mais antigo por trás daquele, e por aí em diante. Ou seja: um palimpsesto é um texto em camadas, permitindo muitas leituras, muitos significados, diversas informações. A poesia, como texto, se comporta também assim: ela é como uma grande cebola de diversas camadas e, de acordo com a “fome”, cada camada é retirada. Ora, esta fome é justamente a capacidade que cada um tem de compreender. Há alguns que verão no poema de Drummond um poema lindo e delicado a respeito de um elefante fabricado artesanalmente, um tanto nostálgico. Outros verão a desilusão drummondiana com o mundo em que o poeta estava inserido, vislumbrando um contexto de guerras e miséria humana, em que a poesia só teria como função dar-nos uma frágil e impotente esperança. Hoje, seu aluno de nove anos lerá este poema e o compreenderá de um jeito; daqui a dez anos, poderá lê-lo de novo e cada leitura será uma nova descoberta. Assim, deixe seus alunos lerem o poema de Drummond, o pedaço que mais gostarem ou ele todo, e falarem dele, dizerem o que sentiram, ou, de repente, nada dizerem – se não quiserem ou não sentirem que devam dizer.

 

É lógico que muitas atividades podem surgir da leitura de um poema: uma oficina de desenho, de artesanato, um teatro de marionetes, a pesquisa da intertextualidade com outros textos ou mesmo com outras disciplinas que também tratem de elefantes (como, por exemplo, as aulas de ciências (4))... O mais importante você terá feito: não reprimir a leitura, não obrigar a leitura e não passar seus medos e paradigmas antigos para os alunos. Até porque, se estiver conseguindo fazer isso, é porque tais medos e paradigmas já estarão se transformando em novos pontos de vista.

 

Professor: a diversidade dos textos poéticos é muito grande. Hoje, existem livros para o leitor infantil e juvenil que trazem a poesia como matéria-prima bem trabalhada, com ilustrações de qualidade alta e diagramação excelente. Tudo para que os processos pedagógicos também sejam mais fáceis. Não tenha, portanto, receio de adotar a poesia ou um livro de poesias como atividade em sua classe: eles enriquecem, trazem imagens, musicalidade, cultura, intertextualidade. E o essencial disso tudo é que proporcionam prazer, ludismo, reflexão e socialização.

 

Notas:

1 - Versos brancos ou soltos são os que não têm rima. Os versos livres são os que não têm preocupação métrica, nem com rimas, nem com estrofes. São uma solução modernista para a liberdade poética.

2 - Este poema está no texto “Depois da batalha”, que faz parte do famoso “Histórias da nossa terra”, de Júlia Lopes de Almeida. Este eu tirei de uma edição do ano de 1922: a 16ª.

3 - Trata-se do “Soneto à Pátria”, em estrutura parnasiana.

4 - Lembramos aqui que poesia não é exclusividade da língua portuguesa. Qualquer disciplina pode trabalhar com poemas.

 

 

Adriano Messias - Escritor, tradutor e adaptador. Fez graduação em letras, jornalismo e concluiu mestrado em comunicação. Dentre seus livros voltados para crianças e jovens, estão: Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha; Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão, Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta, Histórias mal-assombradas do Caminho Velho de São Paulo (Biruta), O Elefante Infante (da obra de Rudyard Kipling) (Musa), Antes de Colombo chegar/ Antes de la llegada de Colón (Alis), Minha tia faz doce no tacho (Cuca Fresca), 20 Histórias de Bichos do Brasil (Cuca Fresca), A Vaca Fotógrafa (Positivo), Que bicho está no verso? (Positivo). Estes dois últimos trabalham essencialmente com a linguagem poética. Contatos com o autor podem ser feitos pelo email: adrianoescritor@yahoo.com.br



 Sobre Sueli Bortolin
Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.

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