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O CDS/ISIS MORREU? VIVA O CDS/ISIS LIVRE

A história dos sistemas para automação de bibliotecas não pode ser contada sem abrir um amplo espaço ao CDS/ISIS (Computarized Documentation System / Integrated Set for Information System), popularmente conhecido como Microisis (versões MS/DOS) e Winisis (versões MS/Windows). O sistema promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) para apoiar projetos de informatização de bibliotecas nos países em desenvolvimento tem, certamente, impactos significativos nestes sistemas de informação.

 

No Brasil, em especial, é reconhecida a sua importância na promoção dos serviços de informação e na organização e gerenciamento das bases de dados bibliográficas. Ao longo de duas décadas, o software tem servido como ferramenta de trabalho de muitos bibliotecários na informatização de suas funções. Mesmo com a adoção de sistemas comerciais de maior complexidade, o espaço para utilização do Isis não se esgotou. Isto decorre de suas qualidades e características como um poderoso gerenciador de bases de dados (ainda que não relacional) e ao mesmo tempo de fácil uso e baixo custo.

 

A sua popularidade também decorre do baixo requisito de hardware para instalação e operação. Já, na sua primeira versão (Microisis 1.0), operava nos computadores IBM PC-XT, com 150 Kb de memória e disco rígido de 10 MB. Algo considerado ridículo nos dias atuais. No primeiro ano de distribuição, realizada pela UNESCO, houve uma enorme aceitação e demanda pelas bibliotecas e instituições de todo o mundo. Ademais, era gratuito sendo um produto freeware. A procura pelo programa gerou uma sobrecarga na capacidade de distribuição por uma única entidade. Fato que forçou a UNESCO a ceder distribuição às organizações relacionadas com os seus objetivos. Este processo englobou três categorias de distribuidores:

 

Nacionais: responsáveis pela difusão do programa em escala nacional no país. No Brasil, foi uma atribuição assumida pelo IBICT em um determinado período. Atualmente, segundo dados da UNESCO, os distribuidores nacionais somam 95 países:  África (16); América Latina e Caribe (25); Ásia e Pacifico (18); Estados Árabes (4); Europa (32).

 

Regionais: distribuem o programa e coordenam as atividades relacionadas do mesmo com uma comunidade de países de mesmo âmbito geográfico que careçam de distribuidores nacionais.

 

Especiais: formado por instituições coordenadoras de redes de informação que adotaram o CDS/ISIS, caso da BIREME responsável pela distribuição do programa entre os integrantes de sua rede de saúde.

 

A primeira descontinuidade do software deu-se com a versão para MS/DOS (Microisis 3.08). Em realidade, a demanda era por um sistema de interface gráfica, compatível com o sistema operacional MS/Windows (3.1 e superiores). A mudança de plataforma também gerou uma série de atualizações (a versão atual é o Winisis 1.5), bem como fizeram surgir aplicativos para uso no ambiente Web.

 

Atualmente, na página eletrônica do CDS/ISIS, localizado no portal da UNESCO, há diversos utilitários baseados na família ISIS, alguns são distribuídos como freeware e outros com o código fonte de sua interface. Alguns, inclusive, atendem aos anseios dos usuários em tornar seus dados acessíveis na Internet.

 

Freeware:

 

WEBLIS: sistema integrado de biblioteca para ambiente Web baseado no CDS/ISIS.

 

GENISIS: software para desenvolvimento de interface de consulta de bases de dados CDS/ISIS disponível em formato para ambiente Web ou em CD-ROM.

 

JAVAISIS: pacote cliente-servidor TCP/IP para bancos de dados de CDS/ISIS.

 

 

Fonte aberta:

 

XML2ISIS: utilitário de importação de dados no formato XML para um banco de dados CDS/ISIS.

 

IsisMarc: interface de entrada de formulário MARC para CDS/ISIS.

 

Nenhum software tem uma evolução autônoma. Em realidade, a evolução é sempre pautada pela demanda do mercado consumidor. O CDS/ISIS não está e nem nunca esteve isento desta influência.

 

Nos últimos tempos, consolidou-se a filosofia do software livre que reformulou o modelo de desenvolvimento e comercialização de programas. Estes acontecimentos também se fazem sentir na comunidade de usuários da família Isis.

 

Uma reunião de especialistas, ocorrida em 15 de maio e 2006, na sede da UNESCO, em Paris, debateu o futuro do software. Considerando as expectativas e os anseios da comunidade, uma nova forma de desenvolvimento e distribuição foi proposta baseada no modelo do software livre.  A sugestão dos participantes foi para a reestruturação do CDS/ISIS baseada em linguagens de programação atuais, interface multiplataforma e compatibilidade com as versões existentes, além da adesão aos formatos de marcação como o XML. É estimado que o desenvolvimento e distribuição da nova concepção do software leve entre um a dois anos. O prazo dependerá da participação de instituições convidadas e dos aportes financeiros empregados no projeto.

 

Este acontecimento, reforça o posicionamento de usuários Isis, em encontro anterior, realizado na cidade alemã de Eschborn, em 2003, que recomendou o estabelecimento de um ‘Grupo de Coordenação ISIS' (ICG) para coordenar atividades de desenvolvimento relativas a uma nova geração de software CDS/ISIS. Nesta proposta, comporia o grupo de coordenação a UNESCO, FAO e Bireme. Junto aos participantes institucionais seriam convidados mais 8 membros individuais por um período renovável de 2 anos.   Este Grupo estabeleceria em seu entorno uma força-tarefa para atuar nas ações planejadas. Considerou-se que todos os especialistas em CDS/ISIS (nível técnico e/ou de gerenciamento) devessem ser convidados ou compartilhar das responsabilidades na força-tarefa. Entretanto, esse processo não será realizado desprovido de controle ou coordenação.

 

Além dos atores principais e colaboradores envolvidos na iniciativa, documentos de eventos recomendam que outros trabalhos relacionados ao sistema Isis, existentes pelo mundo, possam ser coletados e os seus avanços aproveitados visando não reescrever as necessidades já prontas. É o caso de projetos como OpenIsis / Malete /  GNI, se considerados, dariam boas contribuições nas especificações de necessidades ao novo software.

 

 

OPENISIS / MALETE / GNI

 

Como mencionado, o software CDS/ISIS, suas ferramentas de desenvolvimento e seus utilitários são sistemas proprietários e, em grande parte, fechados. No contexto do movimento do software livre, a tendência é dispor do código fonte.

 

A comunidade usuária, desde muito tempo, se manifesta por recursos abertos e livres que permita trabalhar e interagir com bases de dados Isis em ambiente Linux e MS/Windows. Neste sentido, nasceu o projeto OpenIsis. A primeira geração de recursos desenvolvidos teve essa denominação. A segunda geração é denominada Malete, que é um servidor de bases Isis com características consideradas superiores às ferramentas do CDS/ISIS, como: tamanho da base estimada em vários gigabytes e interface de busca baseada no protocolo Z39.50. Adota várias linguagens de programação como: PHP, Java e Perl que possibilitam projetar interfaces Web para bases Isis. A terceira geração é uma proposta para desenvolvimento de um sistema de banco de dados denominado Selene, totalmente independente do CDS/ISIS e com uma estrutura de dados no formato XML. Entretanto, para se diferenciarem do projeto CDS/ISIS e evitar pressão da UNESCO pela cobrança de royalties, o projeto  OpenIsis e sua continuidade se rotulam como GNI para expressar que GNI não é Isis e, assim, marcar a aderência da sua comunidade ao movimento do software livre (GNU não é Unix). Atualmente, são destacados também outros sistemas originados ou baseados nestes projetos:

 

CLABEL: software livre para a criação de catálogos públicos de acesso em linha em unidades de informação. Em seu desenvolvimento foi empregado o WXIS e o PHP-OpenISIS, como sistemas gestores de bases de dados; para o intercâmbio de informação adotado o formato MARC 21.

 

IGLOO: é uma aplicação livre distribuída sob licencia GPL para a publicação de bases de dados ISIS na Web.

 

PHP-Openisis: interface em linguagem PHP que permite ler bases de dados CDS/ISIS.

 

Finalizando

 

Seja o CDS/ISIS um programa livre de fonte aberta ou não, é fato que muitas empresas e profissionais em todo o mundo vivem da prestação de suporte, assessoria, desenvolvimento e customização do mesmo. Aspecto característico dos sistemas de software livre, um modelo de negócio que se oxigena não pela comercialização, mas pela prestação de serviços.

 

Acrescente-se, também, a decisão de vários governos em baixarem medidas a favor da adoção do software livre.  Na América Latina, países como a Venezuela, Peru e Equador têm determinado às instituições estatais migração para sistemas livres. Tais fatos colaboram como elemento de persuasão a abertura do código do CDS/ISIS.

 

Com certeza, a adesão ao modelo livre, o estabelecimento de um Comitê de coordenação parecem ser a solução perfeita para que o programa e sua grande comunidade enfrentem o futuro com segurança, integração de esforços e menos aprisionamento tecnológico.

 

 

 

Fontes consultadas

 

Especialista em sistemas de informação ISIS faz apresentação na BIREME. Newsletter BVS 056 10/agosto/2006.

 

ISIS y SW Libre - Algunas respuestas. Electronic user-group for Unesco's CDS/ISIS. 13 May 2005

 

Report - Two-day consultation of the potential CDS/ISIS funding partners to elaborate a project proposal for the development of a new open source CDS/ISIS and to set up the funding mechanisms. UNESCO HQ, 15-16 May 2006.

 

UNESCO e BIREME apóiam desenvolvimento de nova plataforma ISIS. Newsletter BVS 051 07/julho/2006

 

Expert group makes proposals for future of UNESCO’s CDS/ISIS software. News

Communication and Information Sector's daily news service. 26-06-2006 (Paris)


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.