INFORMAÇÃO E SAÚDE


BIBLIOTECA VIVA: UM PROJETO DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIA PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Introdução

Até meados do século XX, o termo biblioteca indicava um espaço, sobretudo físico, para guarda de livros e outros suportes informacionais. Com o advento dos computadores e da Internet, o termo biblioteca foi sendo revisto e atualizado. Já no final do século XX, surgem termos como biblioteca virtual, livro eletrônico, e-book, redes sociais e, mais recentemente, passamos a ter contato diário com os termos big data, big science, open science, fake news. Ou seja, as novas tecnologias transformaram a forma de relacionamento com a informação e com o conhecimento, bem como têm transformado a sociedade, as relações de poder, as formas de participação social, os relacionamentos afetivos, as instituições públicas e privadas, os espaços culturais e educacionais como escolas, bibliotecas, museus, centros culturais. Nesse contexto, o termo biblioteca começa a ser dissociado de espaço físico para instituição que provê informação e conhecimento nas mais variadas formas.

Em relação ao conceito de informação, ele também tem sofrido alterações. Em sentido amplo, podemos assumir que o termo informação tem por significado aquilo que altera o estado da nossa consciência, ou seja, toda e qualquer coisa que afeta o pensamento, o comportamento ou a ação pode ser considerado informação. Porém, a qualidade da informação recebida diariamente é muito variável. Um boato virtual sem fundamentação científica ou evidência real disponibilizado via rede social, por exemplo, tem baixa qualidade informacional. Logo, as pessoas podem sofrer alterações em seus pensamentos ou comportamentos baseadas em uma informação de má qualidade. Por outro lado, acessar informação de qualidade nos dá a possibilidade de aperfeiçoar, alterar e rever nossos pensamentos, comportamentos e ações, gerando um crescimento cognitivo, comportamental, social. Dessa forma, é fundamental que os cidadãos do século XXI saibam analisar a qualidade da informação.

Nesse mundo problemático em que vivemos, uma das lendas urbanas atuais é a de que informação demais faz mal para a saúde. A princípio, não existe nenhum problema em consumir informação todos os dias ou várias vezes ao dia. Que bom seria se os brasileiros frequentassem mais bibliotecas, livrarias, museus e demais ambientes culturais, não? De forma geral, informação é realmente poder. Quanto mais artigos jornalísticos e científicos, livros, revistas e jornais a pessoa conseguir ler com atenção e dedicação, mais terá um senso crítico refinado diante da vida e mais conexões poderá estabelecer entre diferentes conteúdos e contextos. Assim, o uso excessivo da informação seria prejudicial apenas se a pessoa deixasse de comer, de tomar banho, de trabalhar para ficar lendo e estudando 24h por dia, ou seja, se o uso da informação prejudicasse a realização das demais atividades da vida. Do contrário, selecionar, acessar e usar informação faz parte do cotidiano do século XXI. Muitas atividades profissionais inclusive demandam alta quantidade de acesso à informação, sobretudo, aquelas com melhor remuneração e reconhecimento social.

No caso de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com condições crônicas de saúde, o domínio das competências informacionais é fundamental, pois auxilia processos de tomada de decisão, de compreensão da informação e de resiliência frente aos problemas encontrados (World Health Organization, 2016). Inevitavelmente, viver no século XXI demanda estar bem informado: ler e estudar em todas as faixas etárias são atividades integrantes de nossa realidade e necessárias para nossa sobrevivência.

Considerando esse contexto, o projeto Biblioteca Viva, acolhido pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, objeto deste texto, visa apresentar ao público, especialmente às crianças e adolescentes com condições de saúde crônicas e assistidos no HC Criança, hospital pediátrico localizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HC-FMRP-USP), possibilidades de acesso à informação que aperfeiçoem suas percepções informacionais e tragam boas emoções, sentimentos e incrementem seu bem estar. 

Origem

No contexto nacional, o Programa Biblioteca Viva foi criado em 1994 por meio de uma parceria entre instituições públicas e privadas, com o objetivo de levar possibilidades de leitura a crianças e adolescentes (Fundação Abrinq, 2005). No contexto do HC-FMRP-USP, o projeto Biblioteca Viva, tomando por base aquele Programa, foi iniciado há mais de uma década e tem levado aos pacientes e acompanhantes a possibilidade de acesso à leitura e à informação durante a estadia nesta unidade de saúde.

Tradicionalmente, no HC-FMRP-USP, o projeto Biblioteca Viva foi desenvolvido e gerenciado pelos profissionais do Serviço Social. Porém, pela falta de contratação e reposição de profissionais, o projeto, a partir de setembro de 2019, sofreu uma transição de sua gestão passando a ser coordenado por docentes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, bem como passou a ter um maior envolvimento de alunos de graduação como bolsistas e voluntários.

Atualmente, o projeto Biblioteca Viva conta com a participação dos Professores Doutores Maria Cristiane Barbosa Galvão e Fabio Carmona, respectivamente, na coordenação e vice coordenação do projeto, e com as discentes Letícia Barbosa do Curso de Graduação em Informática Biomédica, Isabela Calandrin do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional e Giovanna Ribeiro do Curso de Graduação em Enfermagem. Colabora ainda com o projeto o Professor Doutor Ivan Luiz Marques Ricarte da Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas. A ideia, sem dúvida, é ampliar a equipe e as parcerias nas próximas etapas do projeto.

Objetivos

Considerando que o suporte papel traz várias problemáticas para sua limpeza e desinfecção no ambiente hospitalar e que há muitas tecnologias que são mais seguras no contexto da saúde a fim de que os pacientes possam ter contato com informações e leituras, a partir de setembro de 2019 o projeto Biblioteca Viva passa a ter por objetivos:

  • Incrementar tecnologicamente o projeto dando-se prioridade para o acesso e disseminação de recursos informacionais de qualidade disponíveis na Web e acessíveis via smartphones ou tabletes que possam ser facilmente higienizados após cada uso com álcool isopropílico;
  • Selecionar, organizar, disponibilizar, disseminar e avaliar recursos informacionais disponíveis na Web que sejam adequados, especialmente, para crianças e adolescentes;
  • Envolver alunos de graduação, pós-graduação, professores e comunidade externa no projeto Biblioteca Viva por meio de voluntariado;
  • Priorizar conteúdos que estimulem a alegria, o bem estar, a resiliência, a confiança, a esperança e a superação;
  • Treinar, acompanhar, avaliar e certificar as atividades desenvolvidas pelos integrantes do projeto, de seus bolsistas e voluntários.

MATERIAIS E MÉTODOS

Antes do período da pandemia de COVID-19, ou seja, de setembro de 2019 ao dia 17 de março de 2020, o projeto Biblioteca Viva empregava histórias e conteúdos informacionais disponíveis na Web, tais como: histórias de ninar; histórias do folclore internacional; histórias folclóricas brasileiras; histórias indígenas; histórias infantis; histórias juvenis; lendas brasileiras; visitas a diversos museus com conteúdo virtual; vídeos interativos e vídeos com realidade virtual que pudessem “transportar o participante para um novo mundo”, além do contexto hospitalar. Esses conteúdos eram apresentados no ambulatório do hospital ou na beira do leito da criança e do adolescente que, por sua vez, podia escolher o conteúdo informacional a partir de um menu visual de opções informacionais. Após ver o conteúdo desejado, o participante avaliava o projeto por uma escala de 0 a 10, bem como podia emitir sua opinião, críticas e sugestões ao projeto. Para realizar essas atividades, os alunos passavam por um treinamento sobre infecção hospitalar, diferenças de riscos entre cada leito, processo de limpeza das mãos antes e após ter contato com cada paciente, processo de limpeza dos equipamentos empregados no projeto, formas de ação em situações clínicas diversas, além de treinamento sobre formas comunicacionais para envolver a criança ou o adolescente com os conteúdos e as histórias selecionadas pelo projeto.

Com o advento da pandemia, o projeto Biblioteca Viva sofreu uma transição em seus modos de ação, pois já não era possível ir ao ambulatório do hospital ou à beira do leito de cada paciente. Assim, foi criado o canal Biblioteca Viva, na plataforma Youtube, e se passou a produzir conteúdos do próprio projeto, sendo estes conteúdos autorais ou baseados em livros de outros autores. Essa transição tecnológica implicou em um treinamento de toda a equipe na contação de histórias via redes sociais, na definição do figurino, cenário a ser usado no canal, bem como no aperfeiçoamento da identidade visual (Figura 1) a fim de que o projeto pudesse ser reconhecido mesmo com o distanciamento social e via redes sociais.

 

 

Figura 1 Logotipo do projeto Biblioteca Viva, 2020.

Resultados

De setembro de 2019 a março de 2020, o projeto Biblioteca Viva atendeu 145 pacientes, sendo paciente sozinho 73,6%, paciente com acompanhantes 26,4%, pacientes do sexo masculino 55,0%, pacientes do sexo feminino 45,0%, pacientes ambulatoriais 80,7% e pacientes internados 19,3%. O grau de satisfação do público com o projeto foi: nota 8 para 9,6% dos participantes, nota 9 para 6,7% dos participantes e nota 10 para 71,9% dos participantes. Eis alguns comentários dos participantes: “Achei da hora”, “Colocaria um sapo em vez de uma minhoca na história”; “É tão legal que faz parte do próprio tratamento”; “É um projeto importante porque a espera pelo atendimento às vezes é muito difícil”; “Em vez de ficar jogando no celular, as crianças conhecem historinhas”, “Gostei da parte que a Mônica estava brincando”.

Durante a pandemia, foram produzidos pelo projeto Biblioteca Viva 36 vídeos com contação de histórias, que começaram a ser disponibilizados ao público a partir do dia 10 de novembro de 2020, obtendo 323 acessos iniciais. Logo, faz-se necessária a divulgação do projeto a fim de que os conteúdos produzidos  cheguem até seu público-alvo.

Como resultados indiretos, os alunos de graduação integrantes do Projeto Biblioteca Viva relatam a importância de realizarem atividades acadêmicas que vão além da grade curricular, a aprendizagem sobre a comunicação e mídias sociais, a possibilidade de ver o mundo com outros olhos, o desafio de selecionar, entender e memorizar histórias para serem gravadas sem erros, a possibilidade de aproximar as crianças e adolescentes da literatura, ocupando um espaço em que elas muitas vezes utilizam apenas para ver jogos ou outras atividades que talvez não complementem no seu desenvolvimento cognitivo ou emocional.

Conclusão

Ao longo do tempo, o projeto Biblioteca Viva tem se transformado e se adaptado. É um projeto resiliente e de muito aprendizado. Assim, convidamos toda a comunidade de biblioteconomia e ciência da informação para conhecê-lo e divulgá-lo a fim de que o projeto possa alcançar mais crianças e mais adolescentes. O canal do projeto Biblioteca Viva pode ser acessado, na Plataforma Youtube, no seguindo endereço:

https://www.youtube.com/channel/UC6ihUvYPHOlFjYGMwQiFqnw/videos

Finalmente, a equipe do projeto Biblioteca Viva também está à disposição da comunidade para que esta iniciativa seja desdobrada em outras instituições e contextos.

Referências

Fundação Abrinq. Biblioteca viva: fazendo história com livros e leituras. (São Paulo: Abrinq, 2005?). Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fa000014.pdf Acesso em: 21 nov. 2020.

World Health Organization. Health literacy. Shanghai: WHO, 2016. Disponível em: https://www.who.int/healthpromotion/conferences/9gchp/health-literacy/en/ Acesso em: 23 maio 2020.

Como citar este texto

GALVÃO, M.C.B. Biblioteca Viva: um projeto de contação de história para crianças e adolescentes. 03 de dezembro de 2020. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2020. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1263


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.