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O PAPEL DA BIBLIOTECA SEM PAPEL

No mês de agosto assisti a uma palestra sobre escritório sem papel. O tema tem se popularizado nos últimos anos, entretanto, não é um tema novo, apenas assume maior evidência com a ambiência digital. 

Recordo ao meu tempo da graduação em Biblioteconomia, realizada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no final dos anos de 1970, quando os professores comentavam as previsões sobre o trabalho bibliotecário em um “ambiente sem papel”. 

Em realidade, as ideias apresentadas advinham da propagação da microfilmagem, então em destaque, e do desenvolvimento e popularização dos microcomputadores, que na década de 1970, ocorria nos países desenvolvidos. 

Nesse último, os evangelistas tecnológicos, do período, vislumbravam que os computadores teriam grande impacto nos escritórios e demais segmentos de serviços, baseado na produção de textos e documentos eletrônicos e em tarefas de processamento numéricas (cálculos orçamentários ou folha de pagamento). 

Por esta época, a frase "escritório sem papel" surge em artigo da Businessweek de 1975, The Office of the Future. Nesse texto, entre outros prognósticos, salienta-se que até 1995 o ambiente das organizações seria completamente diferente. Haveria sobre as mesas de trabalho um terminal de vídeo com teclado no qual as pessoas poderiam acessar seus documentos na tela. Também poderiam receber mensagens em um correio eletrônico. Cenário em que as pessoas nem saberiam ao certo se desejariam ter uma cópia impressa em papel.

Na atualidade, o fluxo de papel diminui. As organizações enfatizam a gestão eletrônica dos documentos - GED, hoje renomeada como intelligent informatizo management – IIM. A evolução e o barateamento dos recursos tecnológicos e a geração crescente dos conteúdos digitais tornam comum ambientes isentos do impresso.

O que ouvi enquanto estudante, observo agora se realizar mais intensamente em várias tipologias de bibliotecas. Concebidas sob o conceito de “bibliotecas sem livro” impresso, também chamadas de “bibliotecas sem papel” ou “paperless library”.

Apesar das vantagens do papel enquanto suporte de registros da informação e do conhecimento, em especial da sua durabilidade, o advento e a evolução das tecnologias digitais contribuem para a estabilidade do próprio uso do papel cujo consumo, desde 2011, tem retornado ao nível registrado em 1965.

Como ilustração comenta-se alguns casos de adesão ao conceito da “biblioteca sem papel” divulgados em mídias digitais. O primeiro caso refere-se ao Condado de Bexar, no estado do Texas (Estados Unidos), onde a biblioteca pública municipal passou a se denominar BiblioTech. Possui acervo com cerca de 10.000 títulos digitais. Acessáveis por meio de uma estrutura tecnológica composta de 600 leitores eletrônicos, sendo que 200 desses dispositivos podem ser emprestados, já com os títulos pré-carregados, embora os usuários possam baixar os conteúdos para os seus próprios equipamentos. Há, ainda, disponível 400 computadores e 10 laptops para uso público. O Condado que não possuía, anteriormente, uma biblioteca pública, optou por constituir a sua totalmente digital, sob um novo conceito. 

Na própria missão da biblioteca municipal está instituída o fornecimento dos recursos necessários aos cidadãos do século 21, por meio de ações em prol da melhoria da educação, da promoção da alfabetização e da leitura. Neste sentido, a biblioteca faz uso da tecnologia em nuvem e de softwares para o gerenciamento e organização de seus recursos de informação digital. 

A equipe da biblioteca passou a orientar esforços ao fornecimento de instrução individual aos usuários, capacitando-os sobre o uso dos dispositivos tecnológicos e dos recursos digitais de informação. 

Os gestores da BiblioTech comentam que a biblioteca, para atingir seus objetivos, configura-se como interativa. A situação é uma das vantagens do paperless na medida em que a equipe da biblioteca tem mais tempo para se dedicar à construção de relacionamentos com o público, além de desenvolver outros projetos. Ainda, sobre vantagem, o ambiente sem impresso da biblioteca permite a reorientação dos espaços para áreas de trabalho, de estudo ou de colaboração entre as pessoas.

O segundo caso é o da Florida Polytechnic University (FPU), uma instituição recém criada e que tem entre as suas novidades, uma biblioteca sem acervo impresso. A biblioteca situa-se em um espaço de 11 mil metros quadrados, configurada sob design e mobiliário moderno. A equipe é formada por seis profissionais, além do bibliotecário-diretor. Há, ainda, dois bibliotecários adicionais, em tempo integral, e três membros do corpo docente, em tempo parcial; todos disponíveis para auxiliar a comunidade estudantil e docente com as pesquisas e demais demandas informacionais.

A concepção da biblioteca é embasada nos pressupostos preconizados pela OCLC no relatório: At a Tipping Point: Education, Learning and Libraries. Pressupostos que recomendam às bibliotecas repensarem seu modelo de negócio centrado no suporte livro, se quiserem continuar relevantes. 

Neste contexto, a biblioteca visa não só manter-se relevante, mas o de servir como catalisador de colaborações e como parte integrante da vida universitária. Assim, ela se insere no currículo acadêmico e um dos seus bibliotecários é partícipe da aula sobre ética, enfocando os temas: plágio, competência em pesquisa (orientados a organizarem informações por meio do ProQuest Flow, uma plataforma de colaboração em nuvem), e sobre o uso dos materiais consultados. 

Já, o corpo docente que dedica tempo parcial, na biblioteca, ajuda a promover conexão entre a sala de aula e a biblioteca, denominada como um ambiente commons

Ademais, a biblioteca por situar-se na área das exatas faz de suas ações uma transformação conceitual “STEM em STEAM”. Esse conceito relaciona-se à inovação contínua e é associada à Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (Science, Technology, Engineering and MathSTEM). O acréscimo dos termos Art + Design à equação do STEM, gera o STEAM que irá transformar a economia no século 21, assim como a ciência e a tecnologia fizeram com o século 20.

Quanto aos aspectos tecnológicos, dos recursos da biblioteca, enfatiza-se que a informação é a chave (e não a sua forma); além de seu uso apropriado pelos estudantes. A biblioteca atua para que esses estudantes reconheçam suas necessidades informacionais, possam localizar as informações relevantes para utiliza-las academicamente e/ou de forma profissional. 

Em seu processo de aquisição, orientado por patrocinadores, a biblioteca dispõe do recurso anual de US $ 60.000 (uma parte do orçamento total de US $ 500.000). Na política dessa aquisição, os estudantes e professores podem visualizar um livro eletrônico, que a universidade não tenha, uma única vez e de graça. A partir da segunda visualização, o item é automaticamente comprado.

Por ser de criação recente, a FPU não pode se beneficiar do acesso à coleção de livros eletrônicos compartilhados pela rede de biblioteca universitárias liderada pela Florida State University Library, porque as licenças de acesso foram criadas antes da FPU ser estabelecida. Mas, a biblioteca tem acesso aos cerca de seis milhões de títulos impressos disponíveis pelo consórcio interbibliotecário.

Entretanto, os estudantes e docentes têm acesso as revistas eletrônicas em mais de 65 bancos de dados disponíveis no Campus virtual da biblioteca. A equipe de bibliotecários pode ser contatada por e-mail ou chat, além da ajuda pessoal no ambiente Commons. O Ambiente conta com computadores desktop, laptops e tablets. Salas para atividades colaborativas contendo equipamentos e espaço físico para trabalhos em projetos de grupos. Computadores também estão espalhados em todo o campus. O interessante foi a herança recebida pela biblioteca de uma coleção de livros impressos de instituições acadêmicas fechadas. A biblioteca avalia como utilizar esse acervo.

Outro caso é o da escola Benilde-St Margaret de Minnesota (Estados Unidos), cuja biblioteca removeu quase todos os seus livros físicos, a partir de 2011. Entretanto, continua a ser um espaço educacional de pesquisa e, acima de tudo, de aprendizagem. Espaço no qual os estudantes se reúnem, com seus laptops, e recebem ajuda do bibliotecário e de professores. Na opinião dos gestores da escola, a biblioteca concebida como um edifício com pilhas de livros, passou a ser repensada como um espaço onde as pessoas se reúnem para compartilhar ideias, tornarem-se mais criativas, acessar informações e, até mesmo, lerem. Literalmente, um espaço mais ativo e em evolução.

O uso expansivo de ferramentas digitais, pela Escola, desempenha função importante no sucesso da biblioteca "sem livros". Desde 2010, cada aluno recebe um MacBook plus com acesso para vários bancos de dados, incluindo Gale e ProQuest. Outra chave no sucesso da biblioteca, haver uma ativa comunidade de bibliotecas escolares, universitárias e públicas municipais em um raio de 8 km da Escola. Esta proximidade com outros serviços de informação, reforça segundo os gestores que a biblioteca da escola não está renegando os livros impressos, mas operando para evitar duplicar o que as outras bibliotecas têm. 

O bibliotecário escolar, bem como os professores, ajuda os alunos a preencher pedidos on-line dos livros que eles precisam ou desejam e que estão disponíveis nessas bibliotecas da cercania.

No processo de descarte da maioria do acervo impresso, seguiu-se o seguinte procedimento: livros foram repassados para as bibliotecas vizinhas, listados em sites de doação para países da África, bem como teve professores que selecionaram obras físicas para seus currículos e as transferiram para as salas de aula. Posteriormente, a direção da escola destinou recursos adicionais para a compra de livros impressos de ficção novos e usados. Até pelo fato dos alunos preferirem ler esse gênero na forma impressa, como muitos adultos. Estes títulos, também, entraram em salas de aula.

Atualmente, a biblioteca encontra-se quase desprovida de livros impressos, exceto por alguns títulos de referência e de alguns materiais que os próprios alunos trazem consigo. No entanto, a biblioteca ainda é um conceito em desenvolvimento. Embora o ambiente contenha mesas e cadeiras para trabalho individual ou em grupos, a expectativa é de agregar mais recursos, como: quadro branco interativo, um grande monitor para os alunos projetarem coisas. No topo das prioridades, porém, está a contratação de um novo bibliotecário escolar; e o preenchimento deste cargo é crucial porque o bibliotecário atual está se aposentando. A seleção do novo profissional implica em encontrar alguém que compartilhe da visão atual para a biblioteca, na qual a aprendizagem dos alunos não se baseia unicamente em recursos digitais ou físicos, mas em um híbrido de ambos. Assim, busca-se por um profissional que entenda o papel de um bibliotecário como parceiro de instrução, um especialista em informações, um administrador de programas e um líder da escola. 

Nos casos citados, observa-se que a biblioteca passa por uma nova concepção em sua atribuição. Entretanto, a adesão ao status de biblioteca sem papel, não é 100% efetivo, um pequeno lastro de impresso se mantêm, além de poder contar, em suas cercanias, do compartilhamento dos acervos físicos de outras bibliotecas. Porém, o papel da biblioteca de disseminar e dar o acesso à informação, e à aprendizagem continuada persiste e se expande.

As substituições das capas por discos rígidos e/ou servidores deve ser uma escolha calculada pela biblioteca, para se tornarem caros projetos relegados rapidamente ao abandono. Caso da biblioteca pública: Santa Rosa Branch Library, localizada em Tucson, Arizona (Estados Unidos); em 2002, tentou ocupar uma lacuna digital na comunidade, oferecendo uma biblioteca digital. Algum tempo depois, os moradores saturados da eletrônica solicitaram que os livros digitais retornassem ao impresso, e fossem adicionados à coleção. Atualmente, a população desfruta de uma biblioteca com acesso total, pelos computadores aos recursos de informação.

Sarah Houghton, diretora da Biblioteca Pública de San Rafael, na Califórnia (Estados Unidos), salienta a existência de pessoas que, simplesmente, preferem a mídia física - elas não querem ler em um dispositivo. Assim os públicos de uma biblioteca devem ser respeitados em seus desejos e não homogeneizado em uma única categoria tecnológica. Ademais, há ainda os que não são tecnologicamente alfabetizados, e podem precisar de uma ajuda adicional com o uso dos dispositivos, fato que exigirá complexa operação e, consequentemente, um grande orçamento destinado à capacitação da equipe e treinamento desse público usuário. 

Comenta-se, que a maioria dos conteúdos não estão disponíveis digitalmente para licenciar e comprar. Muitos editores não licenciam para bibliotecas, e aqueles dispostos a fazer negócios, geralmente, são pouco realistas com a realidade orçamentária da biblioteca. Nesse cenário, prevê-se um prazo longo para as bibliotecas serem completamente digitais. Entretanto, a tendência para a “paperless library” já teve início.

Indicação de leitura:

Barack, L. School Library Thrives After Ditching Print Collection.

Cottrell, M. Paperless Libraries: When the stacks disappear.

Khrais, R. A New Chapter? A Launch Of The Bookless Library.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.