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DESCARTES CAIPIRA

Carta do filósofo francês, roubada no século 19, é reencontrada em faculdade no interior dos EUA.

Foi o Assalto ao Trem Pagador da vida intelectual francesa: milhares de documentos de valor inestimável que desapareceram do Instituto da França em meados do século 19, roubados por um matemático italiano. Entre eles, 72 cartas escritas por René Descartes [1596-1650], o gênio fundador da filosofia e da geometria analítica modernas. 

Agora uma das cartas roubadas apareceu em uma pequena faculdade particular no leste da Pensilvânia. Datada de 27 de maio de 1641, a carta diz respeito à publicação de "Meditações sobre a Filosofia Primeira", obra célebre cujo emprego da razão e dos métodos científicos ajudou a desencadear uma revolução no pensamento. 

O documento, dizem especialistas, revela até que ponto Descartes adaptou seus escritos para responder a seus críticos contemporâneos. Frequentemente suspeito de heresia, ele enviava cópias de seus argumentos a teólogos conhecidos para avaliar suas opiniões e responder a suas objeções dentro de seu texto. 

Erik-Jan Bos, estudioso de filosofia na Universidade Utrecht (Holanda), que ajuda a editar uma nova edição da correspondência de Descartes, disse que, durante uma sessão de navegação noturna na internet, observou uma referência a Descartes em uma coleção de manuscritos do Haverford College (Pensilvânia). 

Ele entrou em contato com John Anderies, diretor de coleções especiais de Haverford, que lhe enviou uma imagem escaneada da carta. 

"Foi muito empolgante", escreveu Bos por e-mail. "Ver a letra de Descartes aparecer em minha tela foi algo que me deixou sem fôlego." Autor da frase "Cogito, ergo sum" - "penso, logo existo"-, Descartes viveu na Holanda por duas décadas. 

Descobriu-se então que a carta foi doada à biblioteca da faculdade em 1902, por Lucy Branson Roberts, cujo marido, Charles Roberts, foi ávido colecionador de autógrafos. Ele tinha comprado a carta sem saber que fora roubada. 

Assim que o reitor de Haverford, Stephen G. Emerson, tomou conhecimento da história da missiva, entrou em contato com o Instituto da França (por coincidência, em 11 de fevereiro, aniversário da morte de Descartes) e ofereceu-se para devolvê-la. 

"Francamente, fiquei chocado, porque eu nem sabia que a tínhamos conosco." 

Ladrão de livros 

Gabriel de Broglie, diretor do Instituto da França, organização que administra milhares de donativos e fundações, descreve a carta como "uma descoberta maravilhosa para a ciência". 

De Broglie explicou que, até hoje, a França recuperou apenas 45 das 72 cartas de Descartes roubadas. Uma delas foi oferecida em leilão na Suíça em 2006 e 2009. 

"Após eu ter protestado publicamente e em alto e bom som, a carta não encontrou comprador", escreveu De Broglie, "mas não conseguimos levantar o valor altíssimo que o vendedor pediu. Embora não possa ser vendida, ela permanece em mãos particulares". 

Elas fazem parte de milhares de documentos roubados pelo conde e matemático italiano Guglielmo Libri, que foi secretário do Comitê do Catálogo Geral de Manuscritos das Bibliotecas Públicas Francesas na década de 1840. 

Em 1848, ao descobrir que poderia ser preso, fugiu para Londres, levando uma coleção de 30 mil livros e manuscritos, entre eles os de Descartes, Galileu, Fermat, Leibniz, Copérnico, Kepler e outros gigantes científicos e matemáticos. 

Alegando ser refugiado político, Libri foi bem recebido na Inglaterra, apesar de os tribunais franceses o terem condenado à revelia em 1850, sentenciando-o a dez anos de prisão. 

Para levantar dinheiro, vendeu a coleção. 

Para Bos, a informação mais importante constante da carta de quatro páginas, escrita em francês, está no último parágrafo, que "mostra que, em etapa muito adiantada do processo de impressão, Descartes alterou dramaticamente a perspectiva das "Meditações"". 

Bos explicou que "a razão dessas modificações era que um visitante francês o tinha persuadido das boas intenções de Pierre Petit (1598-1677), que tinha sido muito crítico em relação à parte 4 do "Discurso do Método" - o que deixara Descartes muito perturbado". 

"Agora, ciente de que Petit mudara de ideia, Descartes não tinha mais motivo para reagir pessoalmente contra ele." 

A íntegra deste texto saiu no "New York Times".

Tradução de Clara Allain.

(Publicado no Infohome em 29/04/2010)

Autor: Patrícia Cohen
Fonte: Folha de São Paulo, Mais, p.3, 28/02/2010

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.