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AÇÃO CULTURAL E BIBLIOTECA PÚBLICA: MITOS E NECESSIDADES
[Fevereiro/2009]

Ricardo Queiroz Pinheiro

"O processo de ação cultural resume-se na criação ou organização das condições necessárias para que as pessoas inventem seus próprios fins e se tornem, assim, sujeitos da cultura e não seus objetos", o enunciado é de Francis Jeanson (1973), em seu trabalho L´action culturelle dans la cité. Esse conceito é básico para se entender, sem ilusões, que é ação cultural. Básico, mas não simples, pois implica em enfrentar uma série de pré-conceitos enraizados no nosso fazer e no próprio desenvolvimento das instituições culturais. Ação cultural, como bem sinalizado no conceito, é um processo e como tal não se resume à atividades culturais soltas e descontextualizadas.

 

A biblioteca pública, instituída como local de preservação e armazenamento de acervo, não costuma dar muito espaço para se praticar e desenvolver a ação cultural. Ação cultural, o termo, tem sido usado em vão sempre que se fala em dinamizar o papel da biblioteca pública. A ligação da biblioteca com a ação cultural, não raro, é ambígua e contraditória. Programação cultural da biblioteca costuma ser vista como perfumaria, penduricalho de conveniências, e não uma ação procedente dentro de um processo de aproximação e autonomização das necessidades e decisões do usuário.

 

Longe de ser panacéia universal para os problemas da biblioteca, a ação cultural pode ser determinada, ainda que seja um reducionismo, como um dos fatores de adensamento da relação entre o freqüentador e a equipe de mediadores e ,claro, algo que venha a dar sentido e coerência às atividades culturais promovidas dentro e fora do espaço. A relação entre mediador e usuário está no alicerce do trabalho de ação cultural, daí parte toda a lógica e o rumo do processo, a qualificação dessa relação depende diretamente do conhecimento mútuo e da clareza de objetivos.

 

O conhecimento estabelecido concretamente na biblioteca é o conhecimento organizado e disponibilizado sem distinção que evita conflitos, atritos, está sempre preparado para ser consumido e descartado. A ação cultural retém o conhecimento na biblioteca ao mesmo tempo em que o espalha transformando-o em outros conhecimentos. Assim ela permite a produção de conhecimento e de valores culturais, aproxima as pessoas, desvenda o indivíduo para si e para o outro.

 

Instrumentalizar a programação cultural para mero preenchimento de estatística, ou pensá-la como uma lei da física, na qual uma ação terá necessariamente uma reação contrária, poderá custar o distanciamento com as diversas demandas de público e desperdício de uma rara oportunidade de qualificação nas atividades da biblioteca. A aproximação com o público deverá estar em cada elemento, em cada decisão da biblioteca. Portanto, é extremamente importante que ação cultural esteja integrada no cotidiano da biblioteca e não entre apenas como fator pontual.

 

Em geral os eventos culturais em bibliotecas públicas se encerram em si, não há uma ação interativa entre espaço, mediador e público. Logo após o fim de uma atividade o indivíduo sai do espaço biblioteca guardando para si as impressões que acumulou. Leva para si tudo, não compartilha, não problematiza, não expande. A biblioteca continua vazia, depósito de acervo e de informações estáticas, não agrega a energia, todo o diálogo desenvolvido se esvai.

 

Novamente chegamos ao ponto convergente de todo projeto de biblioteca pública que não ocupa o terreno dos simulacros: praticar um suposto trabalho de ação cultural sem a devida aproximação com as pessoas é caminhar rumo ao vazio e ao isolamento. Ação cultural não pode ser utilizada como um termo marqueteiro e sofístico, não se pode brincar de agente cultural, seria apenas mais uma história do reino do faz de conta de nossas instituições culturais, e uma história um tanto repetida.

 

Ação cultural dá bastante trabalho, pois expõe as contradições, problematiza as matizes do desejo individual e coletivo. Se a biblioteca é o espaço do conhecimento, esse conflito deveria ser trivial para ela, mas não é. A biblioteca organiza, separa, seleciona e é no conflito, nessa possível "desorganização", que ela se depara com seu lado mais interessante e profícuo. Ela se fragiliza para se fortalecer e o público de fato a utiliza e a transforma.

 

A ampliação do espectro dos fazeres dentro da biblioteca é uma das saídas que a instituição pode contemplar nesse momento em que sua identidade está sendo questionada e reavaliada pela sociedade. A ação cultural é um dos ingredientes que pode provocar essa mudança de horizonte, mas antes deve ser bem entendida, e não usada como cortina de fumaça. Enfrentar os desafios impostos pela ação cultural é não deixá-la fazer companhia a outras tantas distorções e precariedades que habitam os espaços da biblioteca pública há dezenas de anos.

 

Ricardo Queiroz Pinheiro, bibliotecário em São Bernardo do Campo






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