BIBLIOCONTOS


A MÃE DA BIBLIOTECÁRIA: HISTÓRIA CARIOCA

A bibliotecária viaja, com sua mãe, em férias para a cidade do Rio de Janeiro. Férias merecidas, esperadas para quem havia passado um ano tenso, atendendo um público exigente. 

Ia em companhia da mãe, uma senhora de 80 anos, residente em uma pequena cidade do interior, de pouco mais de dez mil habitantes. Uma típica senhora de tradicional família, católica fervorosa, defensora dos bons costumes e que, apesar da idade de vida, era um tanto ingênua em relação às realidades sociais das cidades grandes brasileiras. Para ela, como para a comunidade na qual vivia, o mundo chegava pela televisão.

Sua filha, ao contrário, sendo bibliotecária e até pela característica de sua formação e profissão, tinha uma vivência cosmopolita e internacional muito mais ampla.

Na chegada à cidade maravilhosa, como planejado, hospedaram-se em um hotel na orla de Copacabana. Sua mãe, que mal acabara de se instalar no quarto, cantarolava antigas músicas alusivas à cidade e a praia. Enquanto a bibliotecária optou por relaxar com um cochilo da tarde que caia, a mãe eufórica preferiu realizar uma caminhada pelo famoso calçadão de Copacabana. Dormir ela tinha o dia todo, após as férias ao retornar para sua cidade, agora era hora de aproveitar.

Porém, mal iniciara seu passeio, seus olhos curiosos fixam-se para os fatos alheios. 

E eles avistam, ao longe, um casal que parecia discutir, no que ela supunha ser uma discussão. 

Como seguia na direção dos mesmos, mentalmente fazia a representação descritiva da moça que estava bem arrumada, com um vestido lilás, salto alto, bolsa de mão do mesmo tom do vestido, mas que pelo gestual do corpo parecia incomodada. 

Já, o seu interlocutor, não acompanhava o estilo da moça, era um rapaz de camiseta regata branca, bermuda e chinelos, e que a todo instante segurava as mechas de cabelo da moça, ou deslizava as mãos pelo seu tronco.

A medida que a mãe da bibliotecária se aproximava do casal, ela se dava conta que o rapaz era estrangeiro. Não teve dúvidas, na sua astuta conclusão, de que o "gringo" perturbava a pobre moça, indefesa, que sorria nervosa retraindo o corpo a cada corte do rapaz.

Já, praticamente ao lado do casal, e sem pedir licença ou dar qualquer aviso prévio, interfere na suposta discussão. A moça se assusta e tenta correr, retida pelos braços fortes da senhora. O rapaz se surpreende com uma exclamação: Who are you?

A mãe da bibliotecária de dedo em riste interpela o rapaz para que parasse de perturbar sua "filha". A moça tenta se desvencilha, mas está segura nos fortes braços da mãe da bibliotecária. O Rapaz num português sofrível grita:

- Who você maluca? - A mãe da bibliotecária grita que irá chamar a polícia. A moça pede para soltá-la e que não precisa de ajuda, mas segue segura. 

O rapaz tenta se afastar, mas está cercado pelos passantes que se acumulam em volta, curiosos pelo acontecimento. No mesmo instante em que uma dupla de policiais, alertados pelo tumulto, chegam interpelando a todos.

Estava armada a confusão. O policial segura o rapaz que tenta correr sem direção. A moça tenta mais uma vez escapar, mas sem sucesso diante das mãos seguras da mãe da bibliotecária e, agora, também da policial, que lhe indaga:

- A senhora foi ameaçada pela dupla?

A mãe da bibliotecária sentindo-se dona da situação, cobra uma atitude da polícia sobre o assédio do rapaz sobre a moça, no qual ela defendeu como sendo sua "filha". E emenda uma pregação contra a licenciosidade do homem diante de uma moça indefesa. 

Um outro policial indaga a moça sobre o acontecimento, e esta dizia não saber o que a "velha maluca" queria com ela. O rapaz só dizia ao policial: Can you help me! 

A policial ainda indaga à mãe da bibliotecária sobre que programa estava ela fazendo ali. 

Ela sem entender o sentido da pergunta, responde que estava em um programa de férias com sua filha. E questionou os policiais, que o rapaz estava abusando das moças na praia, enquanto apontava o dedo ao rapaz que, de olhos arregalados, balbuciava palavras sem tradução.

Os passantes em voltas se divertindo com o acontecimento, gritavam em coro: 

- Prende as putas!

A mãe da bibliotecária que não era de levar desaforo para casa, devolve prontamente o insulto:

- Puta é a mães de vocês!

Para encurtar a história, conforme padrão da polícia brasileira, tudo vai ser resolvido na delegacia, com a chegada de uma rádio-patrulha.

Na delegacia, o Delegado repreende o rapaz, e o atua por proxeneta e o libera após pagamento da fiança.

A mãe da bibliotecária fica indignada, mas como não entendia o significado de proxeneta, calou-se. Não iria demonstrar ignorância. 

Mas o pior, segundo ela, foi o delegado dar-lhe uma repreensão, ao dizer como uma senhora na sua idade, ainda trabalhar como cafetina do filho.

A mãe da bibliotecária que já não havia entendido o termo "proxeneta" ouvia, agora, outro termo "cafetina", se ela não trabalhava com produção ou comércio de café por que "cafetina", pensou. Porém, logo percebeu o "mico" que havia se envolvido, ao notar que a moça que tentou ajudar como sua filha era um travesti.

A bibliotecária avisada no hotel, chegou envergonhada na delegacia para buscar a mãe, pagou-lhe a fiança e lhe chamou a atenção pela mania de se meter na vida alheia.

A mãe, visivelmente constrangida, até tentou consultar a filha dobre os dois termos: proxeneta e cafetina, mas silenciou. Sua preocupação, agora, diante dos acontecimentos, era com os seus vizinhos. Afinal, e se o caso tivesse vazado na sua cidade, como ficaria a sua reputação.

A filha retrucou que vazar, provavelmente não, mas certamente, os programas policiais da TV iriam noticiar um fato inédito:

- Senhora curiosa do interior protege travesti de abuso sexual, na praia de Copacabana.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.