AO PÉ DA ESTANTE


AO PÉ DA ESTANTE… EM MEIO À SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Diante da crise que atravessa o mundo, com guerras, terroristas, refugiados das balas, da fome, do preconceito e da intolerância, parece haver, na literatura e nos filmes documentários, uma revivescência da 2ª Guerra Mundial, talvez para nos lembrar dos horrores ou para não nos deixar esquecê-los. Três belíssimos livros, três autores, três vivências apresentam três aspectos diferentes desse momento, um dos grandes "divisores de águas" da humanidade.

Inicio pela obra por assim dizer mais leve, intitulada Peças em fuga, editada em 1996 pela escritora e poetisa canadense Anne Michaels, nascida em 1958. Este seu romance narra duas histórias de vida que se sucedem e complementam, ambas marcadas pela Segunda Guerra. Em seu estilo poético, delicado, sensível, de fácil leitura, a autora conta na primeira parte a trajetória de Jakob, menino judeu que, em 1940, perseguido pelos nazistas, é salvo por um geólogo grego, que o cria como filho. Na segunda parte, o personagem principal é Ben, poeta preferido de Jakob, agora já adulto. A história conclui-se nos anos 1990. Desse romance originou-se um filme, feito no Canadá.

A segunda obra, Uma mulher em Berlim, é de autoria Anônima e transcreve o diário de uma berlinense entre os dias 20/04/1945 e 22/06/1945, quando o exército soviético entra na capital alemã, carregando o ódio de seus milhões de mortos com a invasão nazista da URSS. Por incrível que pareça, hoje, diante de tantas loucuras vistas na televisão, no cinema, nas histórias verídicas de detetives, o relato pode não nos causar tanto impacto, talvez por serem verdades quase esperadas. Sua comovente história trata de fato da necessidade de sobrevivência, e, sobre isso, mesmo não sendo de nosso feitio contar partes isoladas dos livros, há um pequeno exemplo que vale a pena destacar: uma médica alemã, para proteger as meninas e mocinhas mais jovens e ingênuas, colocou-as todas em um hospital, dizendo que estavam doentes, com tifo ou algo tão contagioso, o que afastou os soldados russos.

A terceira indicação, literariamente uma obra-prima, é Vida e destino, de Vassili Grossman, romance que tem sua própria história. Até a edição – póstuma – transcorreram a bem dizer três décadas (1960 a 1989). Como relatou Grossman, o livro (e não o autor) foi preso pela KGB. Escreveu suas mais de 900 páginas ao longo de uma década. Passados mais dez anos, Khruschov recusa a publicação, por considerar, à época, que o Prêmio Nobel conferido a Boris Pasternak e seu Dr. Jivago já prejudicavam suficientemente o regime soviético. Vassili Grossman falece em 1964, porém antes distribui algumas cópias completas entre os amigos, que se encarregaram de microfilmar a obra. Finalmente, após mil peripécias e a chegada de Gorbatchov e da Perestroika em 1989, publica-se o livro.

Pode-se dizer que, basicamente, trata-se da resistência de Stalingrado, onde esteve Grossman por longo tempo como correspondente de guerra para um jornal do exército soviético. Mas o autor vai muito além dos relatos dessa resistência heróica, que mudou o curso da 2ª Guerra. Vida e Destino vem sendo comparado ao Guerra e Paz, de Tolstói, mas a meu ver há naquele tanta força dramática, tanta beleza em suas considerações, tantos fatores humanos envolvidos, tanta contundência em suas histórias paralelas, que sentimos muito por Tolstói, mas Grossman é ainda melhor. Ele esteve lá, no front, viveu esses tempos, embora quase todos os personagens sejam fictícios. Sua leitura é trágica: imagine-se uma cidade sitiada de um lado por nazistas e, do outro, oprimida pela ditadura stalinista, com dois campos de prisioneiros, um de cada facção. Há o relato dos expurgos de Stalin, assim como o embarque de todos os judeus em um trem, a partir do campo nazista, destinados ao extermínio. Ao lê-lo, percebemos quanto a própria guerra em si (como qualquer outra) não tem sentido algum e quanto as ditaduras sempre são péssimas, sob qualquer ideologia. Os russos perderam vinte milhões de pessoas durante a 2ª Guerra. Calcula-se em 60 milhões de seres humanos as perdas mundiais. Trata-se sem dúvida de um livro para nos alertar e nos tornar pacifistas, tolerantes e solidários!


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SARASVATI

Nascida e criada na Índia, estudou na Universidade de Madras, morou em Goa (onde aprendeu português) e viajou pelo mundo em busca de autores e compositores diferentes. Apaixonada pela música brasileira, fixou-se em São Paulo, pela convivência pacífica entre religiões as mais diversas.