LEITURAS E LEITORES


LIVROS EM SUPERMERCADOS

Nas primeiras décadas do século XX, o escritor Monteiro Lobato tornou-se proprietário de editora e enfrentou dificuldade em distribuir livros para o interior do país, pois os cerca de 30 pontos de vendas existentes (livrarias) estavam concentrados nas grandes cidades. Em busca de uma solução, o visionário Lobato escreveu cartas a vários estabelecimentos comerciais para oferecer um produto diferente... o livro. Conforme aponta Hallewell (1985, p.235-307), ele escreveu:

 

[...] a todos os agentes postais do Brasil (1.300 ao todo) solicitando nome e endereço de bancas de jornal, papelarias, farmácias ou armazéns que pudessem estar interessados em vender livros. Quase cem por cento dos agentes postais, orgulhosos de que alguém da cidade grande pudesse estar necessitando de sua ajuda, responderam. Para os endereços que eles sugeriram e para outros obtidos de amigos e conhecidos em todo o país [...].

 

De forma direta, de fácil compreensão, Lobato redigiu aos comerciantes:

 

Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender uma coisa chamada ‘livro’? [...] Se vender os tais ‘livros’, terá uma comissão de 30 p.c.; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa. (LOBATO apud HALLEWELL, 1985).

 

De farmácias a padarias, foram quase dois mil pontos de vendas que formaram uma rede de distribuição das edições lobatianas. Hoje, quase um século depois da arrojada estratégia comercial, a distribuição ainda é desafio para que o livro chegue a preços compatíveis nas mais remotas localidades do país. Conforme Earp (2004, p.120) constatou em pesquisa há uma década:

 

É inconcebível que, num país do tamanho do Brasil, uma remessa de livros saia de São Paulo e tenha que ir de caminhão até o Acre. Com a tecnologia de hoje, é possível abrir gráficas em outros Estados, enviar as provas dos livros por computador e imprimir os exemplares no local. É uma forma de gerar emprego e baixar o preço final.

 

No início do século XX existiam poucas livrarias no Brasil, essa realidade ainda não mudou muito. Claro que, atualmente, estamos melhores do que estivemos no passado, mas isso não significa que, proporcionalmente, haja um número maior de livrarias. O porcentual desses estabelecimentos, considerando a população e o número de municípios, ainda é pequeno. Em pesquisa realizada em 2006, a Associação Nacional de Livrarias (ANL), apontou que o país possuía 2.980 lojas concentradas, principalmente, nos grandes centros. Em 2012, a pesquisa “Diagnóstico ANL do Setor Livreiro” apontou que 2/3 das livrarias do país estão concentradas na região Sudeste.

 

Se as livrarias ainda são em número deficitário no universo dos 5.561 municípios brasileiros, não se pode dizer o mesmo dos demais estabelecimentos comerciais. Portanto, a iniciativa de Lobato ainda é válida. Tanto que as prateleiras com livros estão presentes nos mercados, desde os pequenos de bairros da periferia até os mais sofisticados de grandes redes.

 

Eles estão dispostos em espaços estratégicos, nas proximidades dos caixas mais disputados. Nas filas para serem atendidos, os clientes aguardam diante de prateleiras com livros de capas multicoloridas. Estão ali como que convidando o consumidor a folheá-los. E isso acontece.

 

Já existem empresas de distribuição de livros e revistas especializadas em abastecer supermercados, nas quais é possível encontrar uma mescla de editoras, das mais modestas as maiores. Também é possível encontrar uma variedade de títulos, autores e gêneros: obras de autores consagrados, de autoajuda, religiosas, obras infantis e juvenis dividem o mesmo espaço, sem nenhuma hierarquia, tudo à vontade para que o cliente busque o que lhe apetecer. Todos convivendo na mais comercial harmonia.

 

Dispostas, em geral, em estantes de um metro a 1,50 metro de altura, as obras para o público adulto estão na parte mais alta. O estabelecimento comercial se apropria de estudos e pesquisas acerca da mediação de leitura e da formação de leitores, deixando os livros aos olhos e à mão do leitor, permitindo que as obras possam ser folheadas, independentemente da consagração ou não do autor. Apenas pela curiosidade, pelo desejo de ler a orelha ou o resumo da contracapa.

 

Num primeiro momento, pode-se pensar que os supermercados fazem essa mediação sem nenhum embasamento. Mas, a rede comercial não seria tão ingênua. A organização que se apresenta no comércio leva-nos a intuir que existe apropriação de estudos e teorias a respeito da mediação de leitura, readequados ao ambiente comercial.

 

Há muito a ser desenvolvido na disseminação da leitura e do livro em nosso país. Há muitos caminhos a serem explorados, reinventados e criados para que o acesso ao livro torne-se realidade a todos os cidadãos brasileiros.

 

Referências

 

ANL. Diagnóstico ANL do Setor Livreiro 2012. Disponível em: <http://anl.org.br/web/pdf/diagnostico_setor_livreiro_2012.pdf>. Acesso em: 16  mai.2015.

 

______Pesquisa revela que os brasileiros estão lendo mais. Disponível em: <http://anl.org.br/web/exibe_noticia.php?id=351>. Acesso em: 16 mai.2015.

 

EARP, Fábio Sá. Agonia e salvação. Revista Época, São Paulo, n. 330, p.118-120, 13 set.2004.

 

HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil (sua história). São Paulo: T.A.Queiroz; Edusp, 1985.

 

IBGE. Indicadores sociais municipais 2000. Disponível em:  <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/indicadores_sociais
_municipais/tabela1a.shtm>. Acesso em: 16 mai. 2015.

 

SILVA, Rovilson José da. Biblioteca escolar e a formação de leitores: o papel do mediador de leitura. Londrina: Eduel, 2010.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.