BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA ESCOLAR – OUTROS RUMOS, NOVAS EXPERIÊNCIAS

Há muito aprendi que no Universo, incluindo-se aí o próprio ser humano, tudo está em constante mutação, evolução e adaptação, ou ainda podemos também dizer, readaptação. Pois bem, tendo esse princípio em mente e com a “maturidade” chegando, declinei de alguns deveres que eu tinha, ou melhor, que eu me impunha e decidi “virar a mesa”, no sentido amplo e positivo da frase.

 

Levando em conta também algumas circunstâncias familiares, como meu “cara metade” residindo e trabalhando longe, filhos já crescidos; tomei a decisão de me mudar também. Após quase longos 15 anos e meio pedi demissão e parti para nova cidade, nova casa, vida em comum e trabalho novo.

 

Claro que a decisão não ocorreu de uma hora pra outra, absolutamente. Ela foi maturando aos poucos e cada vez mais se tornava viável e mais próxima. Muitos conceitos tiveram que ser revistos; muitas horas de sono foram prejudicadas; muitos pensamentos se avolumaram na minha mente para que eu fosse capaz de decidir o que fosse mais correto, ou ainda, melhor pra mim.

 

 A única certeza que eu tinha é querer uma qualidade de vida acima e muito melhor da que eu tinha, poder estar mais junto de meu marido e ampliar meu rol de “novidades”.

 

A princípio não tinha nenhum trabalho em vista. Em janeiro de 2011, ao retornar das férias, comuniquei a minha decisão de ficar somente até o final do ano para a direção do colégio onde trabalhava. Foi um choque para todo mundo. Foi lugar comum ouvir: “que loucura boa você está fazendo”! “Tem certeza de que se adaptará a viver em lugar tão simples e calmo e não ter todas as atividades que você tem aqui?” E por ai afora...

 

Sempre eu respondia:” Não posso ter certeza de nada, mas estou confiante no que escolhi fazer e farei de tudo para me adaptar, pois todos temos escolhas na vida e a minha está sendo essa, agora”.

 

Passei 2011 preparando a biblioteca onde estava, os demais funcionários; me ajeitando para as mudanças; avisando fornecedores, editoras, colegas, enfim, tentando comunicar a todos com os quais mantinha contanto e, mais no final do ano, passando a bola para quem viria no meu lugar.

 

Confesso que, nessa altura do campeonato, ao mesmo tempo em que eu me encontrava super ansiosa para chegar logo a época da mudança, por outro lado tinha certa preocupação em como eu arranjaria outro trabalho. Mas, como tudo acontece na hora que tem que acontecer, em outubro, num Congresso de Biblioteca Escolar, na USP, encontrando com antigas colegas, fui convidada a trabalhar numa nova “modalidade”, mas que incluía também uma biblioteca escolar pública, em Campos do Jordão.

 

Desde então os pensamentos deram uma baita guinada e novos planos começaram a se desenrolar... Em dezembro a proposta se concretiza, por meio da Associação Parceiros da Educação, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que promove e monitora parcerias entre empresas/empresários e escolas da rede pública. Tem como objetivo principal contribuir para a formação integral de alunos da rede pública, por meio da instituição de parcerias entre empresas e escolas, que visam melhorar a qualidade do ensino e o aproveitamento escolar de seus alunos. E para isso conta com o trabalho de facilitadores de parcerias, que ficam nas escolas viabilizando e operacionalizando os trabalhos. E é essa a minha nova função – facilitadora de parceria, numa Escola Estadual, de Ensino Médio, em Campos do Jordão.

 

Devo salientar que para que eu fosse convidada, o que pesou bastante foi o fato de eu ser bibliotecária escolar, visto que um dos empresários que “apadrinha” a escola é verdadeiramente apaixonado pelos livros e leitura de um modo geral, e faz de tudo pela biblioteca da escola. Diga-se de passagem, que essa é uma das poucas, se não for a única escola em que o espaço é chamado e conhecido por BIBLIOTECA e não Sala de Leitura, como ocorre nas demais da rede pública de ensino.

 

Então, vejam vocês, estaria eu indo para um novo serviço, numa nova escola, numa outra cidade, mas ainda poderia ficar entre o objeto que tanto aprecio – livros, e com o público que já estava acostumada – alunos. Fiquei muito grata por tudo isso e resolvi abraçar e encarar tudo de peito aberto.

 

O ser facilitadora era uma incógnita, super diferente e desafiante, mas achava que pelo fato de poder estabelecer meu posto de trabalho na biblioteca eu poderia tirar de letra. “Ledo engano”. Como foi difícil minha adaptação, eu que achava que me ajeitava bem em todo e qualquer lugar...

 

Depois de tanto ouvir falar, por colegas da profissão, por ler e ouvir na mídia, estou constatando e vivenciando as mazelas do Ensino Público no Brasil. Quanto desperdício! Quanta “burrocracia”! Quanto serviço por fazer e quantos funcionários fazendo somente o que querem e gostam! Quanta lentidão na resolução de um pequeno caso! E por aí afora...

 

Mas como também tenho a incumbência de reorganizar a Biblioteca, pois acima de tudo, ela faz parte do Programa da Parceiros, como uma ferramenta pedagógica que deve ser constantemente usada por professores e alunos e, sendo assim, cabe também à facilitadora cuidar para que ações nesse sentido aconteçam, de fato, na Biblioteca, tornei a tarefa menos árdua para mim.

 

Como é minha área, de coração, tenho me empenhado bastante para deixar a Biblioteca da Escola mais acessível, dinâmica, atrativa e capacitada para promover o desenvolvimento intelectual dos alunos.

 

Como já é de conhecimento, não existe a figura do profissional bibliotecário e sequer pessoas habilitadas a trabalhar com a leitura e afins. O que se encontra lá não foi diferente, são professores ou outros funcionários readaptados trabalhando nas bibliotecas. Aqui também encontrei funcionários readaptados, porém, com uma força incrível para mudar, melhorar e aprender. São 3 funcionários do Estado, cada qual com suas qualidades, restrições e problemas que os levaram para a Biblioteca, quase como um último reduto antes da aposentadoria, quer por tempo de serviço, quer por invalidez, como foi o caso de um dos funcionários, pouco antes de minha chegada.

 

Isso já me deixou boquiaberta, pois saber que ainda em 2012 temos esse tipo de pensamento e ação, ou seja, o funcionário que não pode, por “n” razões médicas ou psicológicas, continuar em sua função, mandam para a biblioteca ou sala de leitura, é um absurdo!!!!! Quer dizer que ainda após tantas lutas, tantas leis, tantas falas e queixumes, a biblioteca é vista como um depósito de livros e gente; como se lidar com informação não necessitasse de treinamento, preparo, gosto e, acima de tudo, saber fazer.

 

Atualmente são 3 os funcionários dessa Biblioteca. Desde o início gostaram de tudo o que lhes apresentei para que fosse modificado. Aos poucos foram aprendendo e fizeram e fazem tantas sugestões, às quais acato sem pestanejar, pois são fabulosas. Um delas conhece a Biblioteca como ninguém, e o mais importante, ela gosta muito de lidar com os alunos. Ela era da limpeza, porém tomou um gosto tal pela Biblioteca que não só conhece o acervo, como quer aprender mais e mais.

 

Um fato bastante positivo que me chamou a atenção foi a frequência de alunos na Biblioteca, sem que haja um trabalho específico para tal vinda. Claro que alguns professores de Língua Portuguesa marcam aulas para leitura em grupo ou mesmo para escolha de cada um, mas o acesso espontâneo é bem intenso e frequente.

 

Considerando as dificuldades e características de alunos do Ensino Médio numa Escola Pública, eles leem bastante. Quando cheguei, alterei a quantidade para a retirada de livros, de 1 para 3 títulos, com a permissão da direção. Aí sim os empréstimos aumentaram mais ainda.

 

O grande desafio na Escola Pública, além do Projeto Educacional em si não ajudar por ser bastante enrijecido, existem as características de cada lugar, no caso em uma cidade turística onde o jovem não tem perspectiva de vida melhor e muito menos anseios para as mudanças necessárias.

 

A Biblioteca uma vez mais, se faz presente nessa hora e precisa se abrir para receber esses alunos, digamos, ainda sem rumo definido, sem expectativa de futuro. Estou tendo contato com esses alunos e está sendo enriquecedor. Travamos muitas conversas por meio dos livros. Já consegui com que alunos que não costumavam ler, pudessem ter essa experiência e isso aconteceu em Junho. Portanto, em Agosto saberei o resultado de alguns deles, pois levaram os livros para as férias.

 

A Biblioteca está bem equipada, pelos empresários, é claro. Se bem que devo salientar que o Estado tem enviado livros maravilhosos, ainda que alguns não sirvam para Ensino Médio. Os alunos indicam e sugerem títulos, mensalmente, pois com a Parceria, tenho verba para comprar.

 

Por outro lado, como já sabido e repetido, uma Biblioteca Escolar não é nada e não funciona sem a parceria dos professores e da equipe gestora. Precisam estar todos em sintonia e trabalharem proficientemente para que os objetivos da Biblioteca e, por conseguinte, os da Escola, sejam amplamente alcançados. O que encontrei aos montes, também, foram professores desmotivados, reclamando de seus baixos salários e de alunos indisciplinados. Esse é um dos grandes desafios da equipe gestora – motivar seus professores e nosso papel é ajudá-la a fazer isso.

 

Estou há apenas 5 meses nesse novo trabalho, mas já percebi, sem dúvida alguma, que no caso desta Escola, o fato de haver um programa de Parceria, está fazendo muita diferença e, confesso que estou gostando bastante. No caso da Biblioteca, tanto alunos quanto professores a conhecem como tal, ainda que não desfrutem totalmente dela, mas aos poucos estão se abrindo para conhecê-la melhor.

 

Ela tem sido “palco” para reuniões do Grêmio Estudantil, para encontros de grupos de cinema, para reuniões de professores, para receber visitantes, etc. Pretendemos, até o final do ano, informatizá-la e deixá-la o mais próximo possível de uma biblioteca inteiramente organizada.

 

Mais uma vez também estou aprendendo o quanto é difícil a comunicação no âmbito da educação pública. Quanto que as Escolas Públicas carecem de melhor atendimento; como a equipe gestora precisa de ajuda; como e quanto necessitam de um olhar dócil, diferente e sério por parte das autoridades competentes, ou melhor, responsáveis. Vivendo toda essa situação, me pergunto quando os governos reinantes entenderão e aceitarão que sem a EDUCAÇÃO, nada pode ir pra frente? Quando aprenderão que o jovem, ainda que humilde e simples, necessita de autoridade e não autoritarismo, e também atenção e carinho????????

 

Está sendo uma experiência bastante válida para mim e sou grata pela oportunidade de poder olhar por outros ângulos. Precisamos sempre estar abertos para novos conhecimentos.

 

Depois de partilhar essas  aventuras, gostaria de finalizar com um pequeno texto do Ezequiel Theodoro da Silva, em Leitura na Escola, da Ed. Global, 2008.

 

“A aprendizagem e o aprimoramento da leitura têm uma relação direta com a qualidade do trabalho escolar. Ainda que a escola não possa garantir a formação integral e definitiva dos leitores, a ela cabe a responsabilidade de inserção formal das crianças no universo da escrita (manuscrita, impressa e virtual) por meio da alfabetização e do letramento. Não é à toa que, no imaginário de muitas famílias, matricular um filho na escola significa, antes de tudo, torná-lo capaz de ler, escrever e contar.”


   254 Leituras


Saiba Mais





Sem Próximos Ítens

Sem Ítens Anteriores



author image
MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?