OBRAS RARAS


OS DESEJADOS LIVROS RAROS

As coleções de livros raros em bibliotecas brasileiras, em sua maioria, pode-se dizer, carecem de um tipo de estudo que as ajudaria a saber quais livros realmente valiosos complementam as suas coleções.

 

Oportunidades, às vezes, surgem (raras, concordo), quando uma alma abnegada (ou um conjunto de almas abnegadas) adquire ou serve de intermediário para a compra ou doação de um livro raro para uma biblioteca. Acreditem, não é de todo impossível.

 

Estudos de coleção são mais comuns em bibliotecas universitárias e públicas, onde os livros circulam mais fácil e rapidamente e bibliotecários precisam fundamentar a compra desse ou daquele periódico ou monografia no uso que é feito pelos usuários. Assim, ainda que indiretamente, são esses últimos (além dos professores) que solicitam aos administradores o acervo necessário para reposição ou aquisição.

 

Com as chamadas coleções especiais o processo não se desenvolve dessa forma, exatamente. Apesar da circulação inexistente, pois os livros são consultados na biblioteca, pode-se saber o que o usuário deseja. Porém, conhecer a coleção para complementá-la envolve também estar apto a reconhecer o valor de determinado livro (muitas vezes caro), suas características intrínsecas e extrínsecas e estar, digamos, preparado para quando a ocasião se fizer.

 

Uma idéia que pode ser concretizada é a publicação de uma bibliografia de livros desejados, uma “desiderata”, onde a biblioteca divulgaria itens desejados para, principalmente, livreiros e colecionadores que, como bons conhecedores do mercado, fariam uma busca ou ficariam atentos. Pode parecer irreal, mas quando o aluno está pronto, o professor aparece, como se diz popularmente. Uns diriam: “o universo conspira”. E, acreditem, conspira mesmo. Antonil que o diga.

 

O assunto para essas poucas linhas surgiu após ler o último boletim In JCB, daquela biblioteca de livros raros em Providence, a John Carter Brown, que possui um livreto intitulado “Rare Americana: a selection of 101 books, maps, and prints NOT in the JCB”. Fazia parte dessa publicação o famoso e quase impossível de surgir no mercado “Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas”, do padre André João Antonil. O importante livro foi arrematado em leilão em finais de 2002. A história pode ser lida na coluna de junho de 2003 intitulada “Materialidade de Livros III”.

 

Como dizia, nesse último número do boletim da JCB, li que a biblioteca arrematou, novamente em leilão, um valiosíssimo livro para a nossa história: o “Tratado Único da Constituiçam Pestilencial de Pernambuco”, de João Ferreira da Rosa (Lisboa, 1694), onde se lê sobre a primeira descrição de uma epidemia de febre amarela. É livro para ser colocado, com outros poucos, na estante dos primeiros estudos de Epidemologia realizados no Brasil.

 

Outros livros do “JCB 101” já foram adquiridos (faltam 93 “apenas”); muitos nunca o serão, simplesmente por não mais existirem. Dos oito adquiridos, dois foram presenteados por colecionadores. Nos 35 anos desde que o livreto foi publicado, vamos convir, já deu bons frutos, considerando que o citado Antonil foi comprado por US$160 mil e torna-se cada vez mais difícil encontrar certos livros no mercado.

 

Até a próxima!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.