LEITURAS E LEITORES


A COLÔMBIA QUE AINDA NÃO CONHECEMOS

 

Es hora de glorificar a otros hombres y otros hechos
Es hora de buscar situaciones
en donde la palabra sea necesaria
y de convivir con aquellos
para quienes la palabra es liberación.

                        Eduardo Gomez – poeta colombiano


É bastante comum entre nós, latino-americanos, ignorarmo-nos uns aos outros. Não somos incentivados a olhar para nossos vizinhos continentais. Estamos sempre de costas para nossos vizinhos. Os preconceitos nos cegam e impedem que vejamos o que se realiza ao nosso lado, pois nosso olhar vai sempre ao longe, além do oceano, em direção à Europa.

 

Em janeiro passado, na Universidade Autônoma de Barcelona, conheci uma pesquisadora da Colômbia que me falou de um projeto desenvolvido em sua região. Na época, eu estava terminando meu curso e ela iniciando o dela. Ainda assim, trocamos endereço e dois meses após estar no Brasil recebi um pacote com livros da Colômbia, cujo endereço pertencia a COMFENALCO/Antioquia.

 

O que significava aquela sigla? Antioquia era cidade? Minha ignorância geográfica e cultural terminou com uma busca de mapa e dados a respeito daquelas duas palavras e, conseqüentemente, da Colômbia.

 

A Colômbia é um país localizado no noroeste da América do Sul. Limita-se a leste com a Venezuela  e  com o Brasil. Ao sul com Equador e Peru, a oeste com Oceano Pacífico e com o caminho para a América Central (Panamá) e a leste com o Brasil, mais precisamente com o Estado do Amazonas. Antioquia é a província onde se situa Medellín, cidade cuja população chega a quase dois milhões de habitantes.

 

Por aqui, quase sempre, temos uma informação parcial sobre o povo colombiano. Não é exagero dizer que, no senso comum, Colômbia é sinônimo de narcotráfico. Ainda bem que isso é apenas uma falácia. Talvez devamos conhecer melhor o povo colombiano.

 

Deixemos de lado os estereótipos, pois quero acreditar que comecei a conhecer um pouco mais do povo colombiano a partir de janeiro passado. Penso que deva ser comum nos colombianos serem amistosos com quem conhece. É assim que me sinto em relação à pesquisadora que conheci em Barcelona e que depois se confirmou pela atitude de acionar outra pesquisadora colombiana, que até então não conhecia, para enviar-me as coleções de fomento à leitura que são utilizadas em sua região. Pura gentileza!

 

Em 1979 foi criada a biblioteca central* das Caixas de Compensação Familiar de Antioquia, a COMFENALCO. Essa instituição originou-se dos esforços colombianos, intensificados na década de 70, na criação de uma rede de bibliotecas sucursais e infantis.

 

No ano seguinte, em 1980, foi criado o GRUBE (Grupo de Bibliotecas Escolares, Público-Escolares e Infantis de Medellín. Um dos objetivos desse grupo era o de estruturar as bibliotecas para a formação de leitores.

 

Recebi da Colômbia duas coleções, uma intitulada Fomento de La Lectura e, outra, Biblioteca Pública Vital. Neste texto, no entanto, me reportarei apenas à segunda coleção citada.

 

A coleção Biblioteca Pública Vital, publicada pelo Fondo Editorial COMFENALCO é composta por seis volumes: nº. 1 – Valor Cultural y Función cultural de la información, de Gabriel J. Arango Velásquez. O nº. 2 intitula-se Cara y cruz de las bibliotecas escolares, de Glória Maria Rodriguez Santa Maria. O volume de nº 3 tem o título bastante sugestivo e que tem a ver, provavelmente, com a situação social crítica que viveu Medellín e sua região metropolitana na década passada, chama-se No soy un gángster, soy un promotor de lectura, de Luis Bernardo Y. Osorio.

 

No quarto volume que tem como título Experiências para llevar a la balanza: Sistema de Gestión de la Calidad y Satisifacción de los usuários del Departamento de Cultura y Bibliotecas de Comfenalco Antioquia, por Claudia Giraldo Arredondo. O volume nº 5 se chama Biblioteca pública: bitácora de vida, escrito por Consuelo Marin Pérez. O sexto e último volume intitula-se La promoción de la lectura en Medellín y su área Metropolitana: algo en broma, muy en serio, por Adriana María Betancur Betancur, Didier Álvarez Zapata e Luis Bernardo Yepes Osorio.

 

Dentre os volumes citados anteriormente, destacarei em especial o de nº2, Cara y cruz de las bibliotecas escolares, escrito por Glória María Rodriguez Santa Maria, formada em Biblioteconomia pela Universidade de Antioquia e com Pós-graduação em Bibliotecas Públicas na Universidade de Gales. Além de membro de várias instituições internacionais para o fomento da biblioteca, atuou como docente na Universidade de Antioquia. Atualmente, Glória Rodriguez é chefe do Departamento de Cultura e Bibliotecas da COMFENALCO Antioquia.

 

Foi sob o comando de Glória Rodriguez que a COMFENALCO Antioquia recebeu a certificação ISSO 9002/94, além do prêmio internacional pela promoção de leitura chamado Guust van Wasemael concedido pela IFLA.         

 

O título da obra “cara y cruz” que para nós teria o sentido de “cara ou coroa” da biblioteca escolar, ou seja, as duas faces da “moeda”, desvenda para o leitor a precariedade da biblioteca escolar na sociedade Latino-americana, inclusive na Colômbia.

 

Glória Rodriguez insiste na idéia de que a presença e “disponibilidade de livros, materiais de leitura e o uso de biblioteca nas escolas” incidem diretamente no rendimento e aprendizagem da criança. De acordo com a autora, o acesso a essas condições mínimas promoverá uma sociedade com menor desigualdade social. 

 

Por outro lado, Glória Rodriguez reitera que apenas a biblioteca em si não eleva a qualidade do ensino, para tanto, é necessário que haja uma interação de procedimentos pedagógicos no âmbito escolar de modo que as ações conjuntas gerem um melhor aproveitamento e, conseqüentemente, uma melhor aprendizagem do aluno. Assim, a biblioteca é parte integral da vida pedagógica escolar e não só um aparato estático, ou depósito de livros.

 

Numa perspectiva mais ampla, a autora nos instiga a refletir acerca de algumas indagações a respeito da relação latino-americano versus biblioteca:

 

·        Por que as bibliotecas estão quase vazias no período de férias?

·        Por que o jovem quando conclui seus estudos universitários não regressa à biblioteca pública?

·        Por que as bibliotecas se interessam tão pouco por setores da comunidade, tais como: os trabalhadores, as donas de casa, os adultos recém-alfabetizados e os trabalhadores do campo?

 

As respostas a essas e a outras perguntas feitas no livro ainda está em construção na sociedade latino-americana. No entanto, o intercâmbio de informações entre países da América Latina poderá contribuir mais rapidamente para alcançar soluções que estejam de acordo com a forma de ser latino, de estruturar políticas de leitura, como é o caso da COMFENALCO.

   

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* Volume nº6 - La promocion de la lectura em Medellín y su área Metropolitana: algo en broma, muy en serio – Adriana María Betancur Betancur et all. COMFENALCO /Antioquia, Medellín, 2005.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.