REFLEXÕES ÉTICAS


PAULO FREIRE, VILÉM FLUSSER E MANOEL DE BARROS, COMO “PITADAS” EM ARTICULAÇÕES SOBRE LEITURA, ESCRITA, LIBERDADE PARA CRIAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE OUTRAS REALIDADES.

Para comemorar as mil edições da Infohome, um escrito que mistura Paulo Freire educador, Vilém Flusser filósofo, Manoel de Barros poeta. Indivíduos que se tornaram conhecidos por esses “títulos”, respectivamente, educador, filósofo, poeta (na minha concepção do que é “nobre”, são todos “títulos de nobreza”). Penso que estes desencarnados, com suas ideias eternizadas em seus registros e nos de seus discípulos, oferecem possibilidades de conexões infinitas. No texto, trago alguns pensamentos iniciais sobre escrita, leitura e liberdade de criação para construção de outras realidades.

Parece que soam entendimentos diferentes quando mencionamos sobre leitura, embora um entendimento termine por estabelecer sua hegemonia: leitura de livros ou textos (principalmente impressos).  Não intenciono neste breve texto a proposição de um entendimento mais apropriado do que seria leitura, questões sobre o conceito. A colocação se orienta no sentido de uma compreensão compartilhada das conexões que proponho para promover alinhamento das articulações de pensamento que realizo sobre o tema. Neste texto, não vou evocar conceitos como o de letramento. Escolho ampliar o entendimento com base em Paulo Freire sem nenhum prejuízo, pois Freire (1989) vai na direção da leitura para além da leitura do alfabeto, na sua multiplicidade de signos, uma leitura de mundo que antecede a leitura da palavra escrita, uma leitura conectada com o mundo vivido.

Paulo Freire destaca que aprender a ler (e a escrever) não configura somente uma articulação mecânica de palavras, mas uma relação dinâmica entre a língua e realidade, é um ato político, no sentido de compreensão do mundo (FREIRE, 1989). Fazendo coro com Freire podemos chamar Alberto Manguel que interpreta as letras de uma página como um dos “disfarces” da leitura. Lembra que um astrônomo lê um mapa de estrelas, um arquiteto lê a terra sobre a qual será erguida uma construção, um biólogo lê os rastros de animais em uma floresta, um tecelão lê o desenho no tapete que será tecido, um músico lê linhas musicais, pais leem no rosto do bebê vários sentimentos (alegria, medo, admiração), um agricultor lê o tempo no céu. Para Alberto Manguel todos estes leitores compartilham com leitores de livros a arte de decifrar, de traduzir signos, leem para compreender o que está em volta, para compreender o que são, onde estão. Leem porque ler representa função essencial.  (MANGUEL, 1997).

Seja qual for o sistema social de signos utilizados por uma sociedade dentro de uma cultura para fazer as leituras, a possibilidade de “leitura” está ligada a uma técnica, a técnica de ler algo em determinados “suportes” de registros do conhecimento. Este entendimento de leitura e escrita que se relaciona com a técnica utilizada é um caminho de reflexão sobre a temática. Leitura é uma técnica utilizada pelo homem, o agricultor ao “ler” o céu utiliza parâmetros e assim também acontece com os pais ao “lerem” seus filhos, o arquiteto com sua construção, o biólogo com os rastros dos animais, os músicos com suas partituras etc.

Vilém Flusser no livro “A escrita: há futuro para a escrita?” atenta para os sinais gráficos gravados nos objetos e as superfícies que foram utilizadas para seu registro ao longo do tempo, ou seja, a técnica empregada para escrever em diferentes períodos históricos.  Entretanto, destaca que devemos observar que uma questão de técnica nunca é somente uma questão técnica pois existe uma complexa interação entre a técnica e o homem que a utiliza. Por isso pode-se falar em um homem da idade do bronze ou um homem da idade da pedra (pedra lascada, pedra polida) (FLUSSER, 2010, grifo meu).

Quando para registrar o conhecimento, o homem utilizava a pedra, o barro, tinha que empenhar esforço físico nessa inscrição que representava um processo lento, cauteloso (não era possível apagar, por exemplo). A rapidez no escrever é a diferença fundamental entre esta técnica e a da sobrescrição, que não exige tanto esforço, técnica que utilizamos, em que a tinta está sobre o suporte. As sobrescrições são fugazes, aplicadas em superfícies. Nossa literatura não exige contemplação, é escrita rapidamente para ser lida rapidamente (e cada vez mais rapidamente). Essa velocidade explica a dinâmica da crescente torrente de textos em que estamos imersos e também pode ser um ponto de vista a olhar como tal técnica impacta o homem do nosso tempo e sua consciência. (FLUSSER, 2010, p. 31, 32).

Flusser chama a atenção sobre o tempo de reflexão que temos ao escrever, o impacto das técnicas sobre esse tempo e o impacto desses processos na nossa consciência e forma de pensar. Freire (1989) destaca que em torno do ato de ler, o que realmente importa é que implique em percepção crítica, mediante interpretação e reescrita do lido. Reescrever o lido é uma possibilidade de criação.

Em “Língua e realidade” Flusser (2007) destaca que a língua cria realidade e coloca a poesia como estágio máximo da linguagem, um estágio em que as pessoas possuem a capacidade de criação com potencial de liberdade. Flusser parecia buscar ele mesmo em seus textos auxílio na poesia, se libertando da escrita e da forma de pensar acadêmica. Como curiosidade, no prefácio do seu livro “Natural: mente: vários acessos ao significado de natureza”, o estudioso da obra de Flusser, Gustavo Bernardo revela que entrou em contato com a filosofia “flusseriana” por causa dessa obra em especial, observando as estantes aleatoriamente em um sebo da Tijuca no Rio de Janeiro. Esta obra de filosofia, no sebo em questão, encontrava-se classificada como poesia e ele menciona sobre este aspecto da escrita do filósofo, que se confundia com escrita poética. Para Flusser, a língua estabelece a realidade e a poesia tem um lugar fundamental nesta dinâmica, como elemento de criação. Está para além de um gênero literário, é o que traz originalidade, pensamentos novos para dentro do que o autor chama de conversação. Acredita que a filosofia está mais próxima da poesia do que da ciência pois tem potencial de alteração de regras, de revisitar linhas de pensamento, concebendo mudanças.

A língua estabelecendo uma realidade e a poesia, capaz de criar, inclusive, outras realidades, são possibilidades de ressignificação do mundo da vida. Manoel de Barros, com sua poesia, esbanja liberdade de pensamento e criação. No prefácio de “Livro sobre nada”, escreve que o nada que ele trata é nada mesmo, coisa nenhuma, deseja brincar com as palavras, fazer coisas desúteis, que use o “abandono por dentro e por fora”. (BARROS, 2001, p. 7). “O poeta, tendo domínio da linguagem a ponto de utilizá-la como instrumento, encontra-se em ambiente elevado, [...] aproxima-se do indizível e dele traz o espanto para a poesia.” (MACIEL, 2012/2014, p. 53).

Em “Bernardo é quase uma árvore”, Manoel escreve:

Bernardo é quase uma árvore

Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe

E vêm pousar em seu ombro.

Seu olho renova as tardes.

Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;

1 abridor de amanhecer

1 prego que farfalha

1 encolhedor de rios – e

1 esticador de horizontes.

(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três

Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)

Bernardo desregula a natureza: Seu olho aumenta o poente.

(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua Incompletude?)

O poeta, em seu exercício de se permitir a expressão do pensar e uso da linguagem, imprime uma postura ousada, que avança para além das concepções e modelos. Manoel de Barros, em sua poesia menciona que “as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis”. Em minha “leitura”, Manoel se coloca no lugar das coisas e das situações – estas, pedem ressignificação, ampliação, pedem outra descrição da que habitualmente oferecemos, razoável. Ele provoca uma outra visão, um novo olhar, a criação de outras possibilidades.

Muitas questões se colocam em torno da escrita e da leitura que são passíveis de reflexões éticas, principalmente no contexto de formação de uma sociedade que possa dar conta de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Utilizei Freire, Flusser e Manoel de Barros para dar apoio para o lugar da arte, no caso a poesia, para melhor lida com a cultura letrada, em seu uso para mudança social. Principalmente no exercício docente, em orientações de TCC, ou mesmo quando estou escrevendo, reflito sobre a relação leitura e escrita. Lembro de máximas que escuto e leio sobre a leitura, sobre relação direta entre o indivíduo leitor e a certeza de um indivíduo “melhor” ou mesmo com maior potencial de consciência sobre a realidade – não percebemos na realidade essa relação direta. Avançamos tanto nas técnicas, inclusive nas de produção dos registros de conhecimento como demonstrou Flusser, produzimos e lemos muito texto enquanto sociedade (que tipo de texto) entretanto nem sempre isso se traduz em pessoas “melhores” ou em uma realidade melhor. Recentemente, o IBGE constatou que o país voltou ao mapa da fome. Ainda há gente passando fome.

Nesse sentido, sobre a questão moral da leitura, Castrillón (2011) enfatiza que não cabe a percepção da cultura letrada como “boa”. A cultura letrada deve configurar como política pública principalmente como um direito, como fator para o exercício pleno da democracia. E a poesia, como parte dessa cultura, pode oferecer um potencial de formação de indivíduos com consciência da realidade e ousadia para modificá-la. Com sensibilidade.

Referências:

BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 2001.

CASTRILLÓN, Silvia. O direito de ler e escrever. São Paulo: Pulo do Gato, 2011.

FLUSSER, Vilém. A escrita: há futuro para a escrita? São Paulo: Annablume, 2010.

_____. Língua e realidade. 3. ed. São Paulo: Annablume, 2007.

_____. Natural: mente: vários acessos ao significado de natureza. São Paulo: Annablume, 2011.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Autores Associados, 1989.

MACIEL, Keila Mara de Souza Araújo. Poesia: a linguagem do indizível. Analecta, Guarapuava, v. 13, n. 2, p. 47-62, jul.-dez. 2012/2014. Disponível em: <Poesia, a linguagem do indizível | Maciel | Analecta (unicentro.br)>. Acesso em: 20 jan 2021.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SILVA, Ana Claudia Perpétuo de Oliveira da. É preciso estar atento: a ética no pensamento expresso dos líderes de bibliotecas comunitárias. Curitiba: Appris, 2014.

 


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ANA CLAUDIA PERPÉTUO DE OLIVEIRA

Docente do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui mestrado e doutorado em Ciência da Informação pela UFSC. Possui graduação em Biblioteconomia pela UFSC e em Ed. Artística - Habilitação em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Integra o Grupo de Pesquisa Informação, Tecnologia e Sociedade, da UFSC. Atuou por quase 20 anos em biblioteca universitária, escolar, comunitária, especializada e em políticas públicas para bibliotecas públicas. Tem como interesse de pesquisa assuntos relacionados à ética em unidades de informação, bibliotecas públicas e comunitárias, relações entre biblioteconomia e arte, ação cultural, exclusão/inclusão em unidades de informação, centros e acervos culturais, relações entre escrita, oralidade e leitura. Aposta na arte como forma de reinventar uma atuação profissional que desenvolva empatia e o compromisso com uma sociedade mais igualitária.