LITERATURA INFANTOJUVENIL


GENTES PLURAIS: ENSINAMENTOS DE MARIA E JOSÉ

Pode parecer uma atitude narcisista, ou será que é e eu não sei. Sei que na medida que a gente envelhece o desejo de compartilhar experiências aumenta. Então vou falar de algo que aprendi com meus pais.

Quando eu tinha mais ou menos seis anos minha mãe foi contratada para cuidar de crianças internas no Lar Anália Franco em Londrina e fomos morar nessa Instituição. Éramos duas meninas (Silvia e Sueli) que olhávamos e também brincávamos com os meninos. Lembro-me de uma vez, no pátio, ter sentado, sem querer, na mão de um menino que estava com o dedo machucado (que tristeza o menino chorava e eu chorava junto!). Essas crianças não tinham nem mãe e nem pai, nossa mãe fazia esse papel do jeito que ela dava conta, pois eram muitas. Desse tempo lembro de dois meninos, o Murilo (que era 100% arteiro) e Zé (que chorava muito, pois tinha muita dor de ouvido). Este último sei que ainda mora em Londrina.

Aprendi a me preocupar com esses meninos!

Quando eu tinha mais ou menos sete anos e fui para escola encontrávamos pelas ruas de Londrina uma figura ímpar (já falei dele em outra oportunidade nesta coluna) que era chamado de “Circuito”. Era um kirigamista nascido no Japão, mas que veio pequeno para o Brasil. Ele, com suas tesouras e seus papéis endoidecia as crianças. As vezes ele tinha convulsões na rua, tínhamos medo. Só que o encantamento era maior. Naquela época não sabíamos desta arte japonesa.

Aprendi a gostar de arte e valorizar um artista!

Quando eu tinha mais ou menos oito anos meu pai era cobrador (buscava nas residências os donativos) de uma instituição chamada Conselho Londrinense de Serviço Social. Ela funcionava na rua Jaguaribe, 350 em Londrina, onde hoje é a sede do Serviço de Obras Sociais (SOS). Neste espaço havia uma casa e nela moramos por alguns anos. 

Foi ali que tive contato com pessoas que poderiam ser enquadradas como esfarrapados do mundo (que na concepção de Paulo Freire são aqueles que sofrem e lutam; lutam e sofrem).

Havia um rapaz que trabalhava na recepção da Instituição, ele era presidiário (vou usar a expressão usada à época). Mantinha o espaço com tanto zelo que o chão brilhava. Sabia que de noite ele voltaria para sua cela na cadeia e de lá só sairia pela manhã para voltar ao trabalho. Era triste pensar nele e era impossível não lembrar também dos presos que víamos quando a caminho da casa do vô e da vó na Vila Casoni, passávamos na esquina da rua Sergipe com Rio Grande do Sul (hoje o Sesc Cadeião) e os detentos acenavam com as mãos nas janelas entre as grades.

Aprendi a não julgar os encarcerados!

Havia também um vendedor de frutas que com uma carriola de madeira saía pela cidade com sua maquininha de descascar laranjas... vendia e ganhava o pão de cada dia. Faltou falar que a estrutura da Instituição era enorme, cheia de salas. Como ele não tinha onde morar, ao anoitecer dormia nessa Instituição. Este homem alegrava o final dos nossos dias, cantava várias músicas e com os ossos da mão batucava ruidosamente, sim com os ossos da mão (era carpo, metacarpo, falange, falanginha, falangeta) batendo na mesa de madeira num ritmo e destreza invejável. 

Aprendi a admirar este homem-musical que foi também a primeira pele bem preta que conheci!

Outro homem que morava nessa Instituição tinha tuberculose. Minha mãe o alimentava diariamente. Só deixou de fazer isso, quando estava no final da gravidez da minha irmã mais nova e o médico a proibiu. Com a doença progredindo, ele já não tinha mais forças, então, era necessário arrastá-lo com colchão para tomar sol no pátio, meu tio assumiu essa tarefa e nós acompanhávamos de longe, em virtude do contágio.

Aprendi a pensar na morte como a única certeza que temos na vida!

Quando tinha mais ou menos nove anos e ia com minha mãe no Asilo Gilda Marconi que era na rua Iapó na Vila Nova em Londrina, ficava deslumbrada com uma baiana rendeira (hoje penso que poderia ser de outro estado nordestino, mas as pessoas tinham mania de generalizar). Ela fazia um barulho ritmado no tear de bilro tecendo rendas maravilhosas. Tinha uma paciência com as linhas e com as crianças, explicava como deveria fazer a renda. Isto as deixava mais linda (a renda e a rendeira). Em 2016 fui ao Maranhão, na cidade de Raposa e parei, com os olhos fechados, próximo de uma rendeira para ouvir o som dos bilros de madeira e me emocionei.

Aprendi a valorizar uma cultura diferente!

Depois desse resgate de memória, talvez o leitor esteja perguntando para que ela está contando tudo isso? 

Respondo que estou intrigada com a ebulição social que estamos passando no Brasil. O que podemos fazer? Como educar as crianças para a diversidade? Creio que é necessário muito diálogo, mas principalmente “modelo” a ser copiado. As crianças estão sem quem seguir, muitas vezes estão no tablet ou celular seguindo blogueiros com “verdades únicas”. Me preocupa porque, na atualidade, elas não estão vendo apenas polarização de ideias, mas sim contradição nas famílias, nas igrejas (ou outras agremiações), nas mídias etc. 

Então volto a minha pergunta: Como educar as crianças para a diversidade?

Pensando nisso mandei para diferentes mediadores a seguinte questão: 

QUAL LIVRO INFANTIL VOCÊ CONSIDERA FUNDAMENTAL NA EDUCAÇÃO PARA DIVERSIDADE?

Não sei se irão gostar, mas vou apresentar as respostas dessa questão, apenas no próximo mês. Até lá!


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.