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SEYMOUR PANIZZI E ANTONIO LUBETZKY: PARA EVITAR CONFUSÃO DUAS LEITURAS SOBRE OS FUNDAMENTOS DA CATALOGAÇÃO

Nas aulas da disciplina de catalogação descritiva é comum os estudantes serem apresentados aos autores de importantes contribuições teóricas para a área, porém com escassos detalhes sobre estas contribuições.

Em geral é citado, resumidamente, Antonio Panizzi (1797-1879), Charles Coffin Jewett (1816-1868), Charles Ammi Cutter (1837-1903) os pais das teorias e terminologias catalográficas, sistematizadas no século XIX; Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892-1972) e Seymour Lubetzky (1898-2003), dois importantes estudiosos e promotores dos fundamentos teóricos da catalogação bibliográfica, do século XX.

Saliente-se a existência de outros importantes estudiosos, mas os mencionados são considerados influenciadores de todos os demais estudiosos e pesquisadores sobre catalogação.

Todo catalogador brasileiro precisa ou deveria dedicar, em suas leituras e estudos, atenção especial a essas personalidades, ainda mais diante dos atuais modelos conceituais que reprogramam os processos e estruturas catalográficas; os sistemas autômatos que se propõem a processar e recuperar os registros bibliográficos; além dos novos instrumentos normativos que estabelecem diretrizes para o tratamento e descrição dos recursos informacionais. 

A catalogação bibliográfica não é um conjunto de processos técnicos aplicados operacionalmente, ao contrário, são procedimentos construídos sob bases teóricas e conceituais essenciais à organização e disseminação da informação; que se refletem na elaboração e disponibilização de produtos de acesso a informação representados pelos catálogos, repositórios e bases de dados bibliográficas variadas.

A bibliografia sobre o tema existe e é vasta, mas estudos e revisões literárias, em português, que possibilitem a disseminação destes teóricos no ensino da catalogação são poucos ou raros. Uma questão sempre levantada é o ensino eminentemente prático da catalogação, no Brasil. Este é um conceito antigo e recorrente para ressaltar o tecnicismo da área ou da prática profissional. 

Porém, na realidade não é ou nem deveria ser salientado tal aspecto, pois a base teórica existe, sendo essencial ao trabalho do catalogador. Carecemos sim de mais artigos e pesquisas acadêmicas sobre catalogação no âmbito dos seus fundamentos teóricos e conceituais.

Neste contexto, em 2019, houve a felicidade de serem concluídos dois ótimos trabalhos acadêmicos abordando Pannizi e Lubetzky, para os quais se recomenda a leitura como forma de atualização profissional ou revisão formativa, no caso de estudante de biblioteconomia. 

Além disso, a leitura nos leva a conhecer, também, um pouco da história da catalogação e dos catálogos, bem como a tomar contato com o percurso humano e profissional de dois bibliotecários que pelo seu trabalho construíram os pilares da área e nos deixaram um legado para além dos fundamentos conceituais, um legado de ética e valorização do trabalho bibliotecário em benefício do bem público, do desenvolvimento humano. 

Aliás, a essência do trabalho bibliotecário não se encontra nos padrões, protocolos e normas, mas na construção de caminhos que favoreçam o desenvolvimento humano, por meio da liberdade de acesso e uso da informação.

A primeira recomendação de leitura é o estudo desenvolvido pela Bibliotecária e Doutora Gabriela Bazan Pedrão, com sua tese em Ciência da Informação, realizada pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), na qual tratou da importância do catálogo de Antonio Panizzi para a Biblioteconomia. 

A tese foi orientada pela Profa. Dra. Maria Leandra Bizello. A referência da tese é: “A construção do catálogo de Panizzi: uma análise documental / Gabriela Bazan Pedrão. Marília, 2019”.

Em resumo, o trabalho de pesquisa destaca que os catálogos bibliográficos são importantes ferramentas no que se refere à guarda e preservação de algo para o futuro. Em bibliotecas, eles são cruciais por contemplar o acervo tanto em relação ao conteúdo e à descrição bibliográfica, quanto à própria organização física do material. É o catálogo que controla tudo. Assim, abordar os catálogos é mais do que tratar apenas da organização da informação; é discutir o cerne de uma biblioteca.

Em sua tese, a Doutora Gabriela trata do Catalogue of Printed Books in the British Museum (mais conhecido como ‘Catálogo de Panizzi’) e as 91 regras elaboradas por Panizzi entre os anos de 1839 e 1841. Ambos, regras e catálogo, foram essenciais na organização do acervo da British Library e marcaram a história da Biblioteconomia pelas inovações e avanços proporcionados à organização da informação, principalmente se comparadas aos métodos e princípios até então utilizados. A influência de Panizzi teve reflexos no trabalho de bibliotecários importantes como Charles C. Jewett, Charles A. Cutter e Seymour Lubetzky.

A tese, portanto, analisa o contexto de criação das regras, dos catálogos que existiam antes do Catálogo de Panizzi, as 91 regras em si e suas inovações e impactos decorrentes. A pesquisa foi baseada em fontes primárias, consultadas na própria British Library, e em documentos do século XIX que descrevem o funcionamento da biblioteca. 

A doutora Gabriela observa que o seu trabalho nasceu da percepção de que Antonio Panizzi foi um bibliotecário proeminente, sempre citado, mas raramente protagonista na literatura de Biblioteconomia, especialmente no Brasil. A pesquisadora, em suas conclusões, observa que há muito ainda que se estudar sobre Panizzi e sua influência. Entende, que a pesquisa foi apenas um primeiro passo em uma área pouco estudada no Brasil. E que um dos objetivos da tese foi trazer à baila o debate sobre os fundamentos e origens de nossa área e encorajar a participação de outros interessados.

O segundo trabalho, em destaque, é a tese do Professor-Doutor Marcelo Nair dos Santos, docente da Universidade Federal do Espírito Santo, que em sua tese na área da Ciência da Informação, realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tratou do trabalho de Seymour Lubetzky sobre a catalogação bibliográfica para a Biblioteconomia. Sua tese foi orientada pela Profa. Dra. Cristina Dotta Ortega. 

A referência da tese é: “Fundamentos estruturais do registro bibliográfico: revisitando a compreensão de Seymour Lubetzky sobre a entrada principal representativa da obra e sua manifestação / Marcelo Nair dos Santos. Belo Horizonte, 2019”.

Em resumo, a tese revisita os estudos de Seymour Lubetzky sobre regras catalográficas nas quais ele desenvolve sua compreensão do significado da entrada principal concebida da entidade obra. 

O Professor Marcelo observa que a Catalogação deve ser pensada, como procedeu Lubetzky na década de 1950, ao avaliar um conjunto de regras de seu tempo, uma vez que seu modelo de análise teórico deu à Catalogação um caminho crítico e metodológico para se estabelecer as regras catalográficas. A ideia central de Lubetzky, em seus estudos, ressalta que o registro bibliográfico deve representar uma publicação como manifestação de uma obra.

Nesses termos, o pesquisador realça que as ideias de Lubetzky são válidas num contexto dos ainda insuficientes fundamentos de Catalogação e, particularmente, das regras de catalogação de tradição anglo-americana. Desta forma a tese revisita as ideias de Lubetzky, trazendo o seu modelo de análise da catalogação para os dias atuais, de maneira a avaliar a sua consistência e pertinência. 

Para fins de delimitação da pesquisa, têm-se como objeto material do estudo o registro bibliográfico, em especial a questão do ponto de acesso representativos dos atributos formais da entidade bibliográfica “obra”, examinada na perspectiva teórica de Lubetzky. 

Em termos metodológicos, desenvolveu-se uma abordagem qualitativa de pesquisa sob perspectiva exploratória dos conceitos, fundamentos e estudos relacionados com tema em questão. 

Acrescente-se a adoção, também, de pesquisa bibliográfica e a pesquisa documental como procedimentos metodológicos predominantes. A pesquisa ressalta os momentos significativos da Catalogação que observa:

§ o contexto catalográfico anterior aos estudos de Lubetzky;

§ a análise e a repercussão dos estudos de Lubetzky sobre regras catalográficas, a partir do qual ele propôs uma função para a entrada principal em Catalogação;

§ o caminho trilhado pelas regras catalográficas anglo-americanas após os estudos de Lubetzky no tocante à função da entrada principal;

§ estudos e modelos da Catalogação pelos quais o registro bibliográfico pode ser estruturado, conforme a função da entrada principal proposta por Lubetzky sobre entrada principal. 

O professor conclui, em sua tese, que a função da entrada principal indicada por Lubetzky ainda é válida para a catalogação atual, pois representar a publicação como manifestação de uma obra em registro bibliográfico é um aspecto fundamental que não pode ser ignorado na prática catalográfica que observa o relacionamento das publicações equivalentes e derivativas de uma unidade literária.

Ambas as teses citadas, configuram-se em importante contribuição para área da catalogação brasileira e merecem constar na bibliografia básica das disciplinas de catalogação. Aos autores parabéns por suas obras acadêmicas e que se transforme em livro ou e-book.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.